O ÓBVIO

Sábado, 20 de Junho de 2009

MERGULHANDO NO OCEANO DO MISTÉRIO

Antes era a busca de certezas e segurança o principal motivo do todo estudo. Atormentado pelo pesadelo do relativismo buscava o solo firme das certezas metafísicas absolutas, o ponto arquimédico, a verdade apodítica. A partir deste solo firme e eterno eu poderia construir um sistema de verdades subordinadas e o fundamento último e indisputável para as regras morais que eu deveria seguir e defender, bem como dos sistemas políticos pelos quais eu deveria lutar. O Direito Natural parecia ser este solo firme da Ética e do Direito. Depois me pareceu não ser suficiente. Neste esforço creio ter encontrado algumas certezas firmes, eternas, absolutas e indisputáveis e só um doente acometido de desconfiança patológica não poderia reconhecê-las.
Depois veio uma espécie de mal-estar ou tédio. O tédio de já saber demais. Se já sabemos tudo, para que estudar mais? O sentimento de Vladimir e Estragon no deserto: "e agora, não há mais nada para fazer..." O sentimento decepcionante da aposentadoria precoce. É óbvio que este sentimento não é senão um sintoma de uma neurose muito grave, derivada de uma megalomania cognitiva. Não se pode conhecer sequer um mísero objeto, um grão de areia in totum. Apenas um grão de areia guarda mais mistérios do que sonha a nossa vã filosofia. Somos um grão de areia num universo de ignorância. E o Universo é finito, um grão de areia dentro da infinitude metafísica. Mas aquele sentimento de tédio por saber demais, como dizia, era sintoma de uma megalomania consistente na ilusão da onisciência, disfarçada por concessões da boca para fora a questões ainda não bem estudadas e arestas ainda não muito bem aparadas. Então eu pensava que tinha estabelecido um pequeno núcleo de verdades a partir das quais poderia chegar a todas as respostas. Mas isto não era possível. Na verdade, o sentimento de tédio era um alarme de meu subconsciente: eu ainda tinha um oceano sem fim de conhecimentos por navegar e estava parado, satisfeito com os poucos metros que navegara.


Deste ponto, comecei a me interessar não por certezas, mas por teses que as contradissessem; não por novos e novos argumentos que reforçassem o que eu tinha como firme convicção (e o que eu tinha como firme precisava de mais reforços, hoje eu sei), mas por mais dúvidas, por perspectivas novas, por novas abordagens, novos horizontes, resgates de idéias esquecidas ou abandonadas injustamente, revisões do que eu já tinha revisto mil vezes (e a cada vez que eu revia, uma nuance nova se revelava). Assim o infinito de minha ignorância foi se descortinando aos meus olhos, mas já não me metia medo, mas alívio, prazer, contentamento, pois eu estava sendo retirado de um bunker sufocante em que me metera na busca de certezas infinitas e eternas e que eu acabei por ter a ilusão de ser todo o Universo. Não caí no erro infantil do relativismo gnosiológico novamente, ou do agnosticismo, apenas acordei de um sonho de onipotência e me tornei mais consciente da realidade. Este sentimento de alívio ou de renovação, foi o sentimento do início do século XX, quando caíram em parte o cientificismo e o positivismo então reinantes, com o advento da física quântica e da teoria da relatividade. Ortega y Gasset, numa esplêndida comparação, iguala o sentimento rejuvenescedor da época ao alvoroço das crianças quando acaba a aula e se abrem os portões da escola.


Ampliei um pouco o conhecimento da vastidão de minha ignorância. E a ampliação do conhecimento da vastidão da própria ignorância é uma tremenda ampliação do universo do nosso conhecimento. Ainda hoje me interesso mais por novas dúvidas, do que por certezas. E espero assim prosseguir pelo resto da vida. Assim, se tornou mais rico para mim o sentido de duas frases já quase folclóricas: “as convicções são cárceres” (Nietzsche) e “a única conclusão é morrer.” (Fernando Pessoa). Mas não desistirei de certas convicções: de algum modo eu estou aqui e agora com absoluta certeza; a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa em qualquer lugar do Universo e mesmo além, por toda a Eternidade e a despeito da vontade de Deus e a teoria da mais valia está errada por todo sempre e pelos séculos dos séculos, amém!

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

NOVAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTETICISMO

Em sua obra “Gomorra” (2008) o escritor jurado de morte Roberto Saviano relata que os boss da máfia italiana só passaram a ser chamados de “padrinhos” após o sucesso do filme Godfather, de Francis Ford Copola. Saviano lembra ainda que Al Capone, na década de 1.930 imitava trejeitos de um personagem do filme Scarface de Howard Hawks, personagem este inspirado no próprio Al Capone. Walter Schiavone, boss da Camorra nos anos 1.990, fez construir para si uma mansão idêntica à do personagem de Al Pacino na refilmagem de Scarface, de Brian de Palma. Saviano relata ainda que após o sucesso do filme Pulp Fiction, os killers da Camorra passaram a atirar com a pistola tombada de lado, imitando os personagens da película, de modo que erravam freqüentemente o órgão vital da vítima, obrigando-se a novos disparos e causando sofrimento inútil. O filme de Quentin Tarantino também inspirou os jovens killers camorristas a repetirem antes de suas execuções a mesma passagem bíblica que o personagem de Samuel L. Jackson diz antes de uma execução:

“O caminho do homem de bem é cercado de todos os lados pelas iniqüidades do egoísmo e pela tirania dos homens maus. Abençoados os que, em nome da caridade e boa vontade, conduzem os fracos pelo vale das sombras, pois ele é o guardião de seu irmão e o salvador dos filhos perdidos. E eu vou atacar com vingança e fúria os que tentarem corromper e destruir meus irmãos. E quando minha vingança se abater sobre eles, saberão que eu sou o Senhor.” (Ezequiel, 25, 17).

A filmografia de Quentin Tarantino também serviu de inspiração para que as mulheres da máfia usassem roupas idênticas às de Umma Thurman em Kill Bill. Estes relatos me lembram de uma conversa minha com um policial civil de Belo Horizonte. A certa altura da tertúlia o meganha deixou escapar a pérola: “Em B.H., o policial ou se omite, ou se corrompe ou vai para a guerra. Eu decidi ir para a guerra.” Não pude conter o riso, pois o sujeito, sem perceber, repetia, ipsis literis, uma frase do filme Tropa de Elite. É notório como os policiais e agentes de seguranças de todo o país começaram a imitar frases, trejeitos e boinas do Capitão Nascimento naquele filme marcante.

Tudo isto mostra como a arte serve de modelo para a vida. Um clichê inevitável nos vêm à mente: uma imita a outra e vice-versa. De certo modo, ninguém escapa disto: os filmes, livros, músicas, personagens e autores que nos são caros formam o nosso próprio modo de ser no mundo. Daí a preocupação de muitos filósofos morais com a responsabilidade ética dos artistas. A arte induz modelos de comportamento. Grandes ícones da arte geram exércitos de imitadores. Os suicidas do rock’n'roll certamente inspiraram multidões de suicidas mundo a fora.

Há quem leve esta imitação muito a sério e viva como o personagem de uma obra de arte, cujos espectadores são seus convivas. Eis aí um dos sintomas do esteticismo segundo o filósofo Mário Vieira de Mello. Em sua obra “Desenvolvimento e Cultura” (1962), Vieira de Mello coloca o esteticismo como o traço marcante de nossa cultura, quando o Princípio Estético se torna independente do Princípio Ético, ou seja, quando a busca das satisfações estéticas deixa de estar subordinada aos princípios éticos. Não se trata de um fenômeno tipicamente brasileiro, pois a autonomização do Princípio Estético se iniciou no Renascimento europeu e se tornou predominante em toda a cultura européia. Mas toda a cultura brasileira, na visão de Vieira de Melo, seria esteticista, pois os dois grandes movimentos culturais que formaram nossa cultura, o Romantismo e o Modernismo eram eminentemente esteticistas. O esteticismo teria marcado de tal modo a nossa cultura que os brasileiros viveriam como que a representar papéis para a platéia de seus circunstantes. Para Vieira de Melo, o “homem cordial” de “Sérgio Buarque de Holanda não se explica pela bondade natural do brasileiro, mas pelo seu esteticismo peculiar que consiste em se ‘sentir num palco”.

Todo o livro “A Sagração da Primavera” (1987) de Modris Eksteins versa sobre o esteticismo. O autor identifica a Alemanha como “a nação modernista par excllence de nosso século” e a causadora das duas guerras mundiais. O que teria levado a Alemanha à guerra não eram motivos pragmáticos, mas uma certa estetização da guerra misturada a um espírito apocalíptico. Os próprios motivos alegados por seus dirigentes políticos para iniciar a guerra eram evasivos, vagos, poéticos por assim dizer. Lutava-se pela “cultura alemã”, por sua “superioridade moral”. A explicação do materialismo dialético para a Primeira Guerra Mundial mostra-se então perfeitamente furada. Os artistas aderiram à causa da guerra com um entusiasmo furioso. O próprio Hitler era um artista frustrado que, quando rebentou a deflagração, entrou em estado de êxtase. Lutou bravamente e tornou-se herói. O autor destaca todo o caráter teatral de Hitler e do nazismo. Segundo Eksteins, “ele [Hitler] se considerava a encarnação do tirano-artista que Nietzshce havia preconizado, o executor da “ditadura do gênio” pela qual Wagner suspirava. Ao tratar da política externa, vangloriava-se de ser ‘o maior ator de toda a Europa.”

O nazismo sob o enfoque de Eksteins é a intrusão do irresponsável espírito esteticista na política. O resultado é o desastre. Primeiro porque o esteticismo, nos termos de Vieira de Melo, é a autonomização do belo (ou do falso belo, do kitsch, que não é mais do que o belo dos homens de mal-gosto) em relação aos princípios éticos. Daí a abertura para o gozo estético da crueldade, da tirania e da destruição (lembro-me de um artista de uma banda de rock’n’roll comentando uma música do The Doors, algo mais ou menos assim: ela une as duas coisas mais amo na vida: beleza e destruição – é lindamente destrutiva). Em segundo lugar, porque o deus da política, assim como o deus dos negócios não é Dionísio, mas Apolo. A política responsável tem mais a ver com cálculo, método, com prudência, com racionalidade. Hitler nada tinha de metódico, de calculista e este foi um dos grandes motivos para a sua derrota: “Parecia [Hitler] congenitamente incapaz de uma rotina de trabalho metódica. Era famoso por faltar a compromissos, por tratar a papelada de modo desleixado e por trabalhar em horas inusitadas – ficando acordado até o amanhecer e dormindo até tarde -, o que deixava esgotado o seu círculo mais íntimo. Também se atribuía esse estilo, como o cabelo rebelde caído na testa, ao artista que havia nele.”

Antípoda da Alemanha era a Inglaterra, e de Hitler, Winston Churchill. De um lado, os esteticistas alemães, de outro os fleumáticos ingleses. De um lado, irresponsabilidade, vanguardismo, imprecisão. De outro, responsabilidade, tradicionalismo, cálculo. Freqüentemente, os esteticistas do século XX condensavam todo o seu ódio aos prudentes, calculistas e tradicionalistas na palavra-xingamento “burguês”. Burguês se tornou símbolo de tudo o que se opunha à sua sanha revolucionário-esteticista, e não apenas o que era típico de uma determinada classe social. Na perspectiva de Eksteins, as duas guerras podem ser definidas como guerras entre nações predominantemente “esteticistas” e nações predominantemente “burguesas”. Eksteins afirma que “o nosso século é um período no qual a vida e a arte se misturaram, na qual a existência se tornou estetizada.” No plano histórico a reação a isto veio das nações anglo-saxônicas, personificadas pelo sisudo e fleumático Winston Churchill.

O escritor que sentiu agudamente este conflito entre o espírito “esteticista” e o espírito “burguês” e talvez tenha vivido neste conflito foi Herman Hesse. O seu “Lobo da Estepe”, Harry Haller, define-se como um homem ambiguamente atraído pela vida boêmia e pela vida burguesa. É um notívago inteiramente dedicado à arte que bebe todos os dias, fuma muito e vive sozinho num catre bagunçado, mas que, quando passa defronte da casa burguesa e impecavelmente bem cuidada de seu senhorio sente-se atraído pela limpeza, pela sisudez , organização e paz daquele ambiente.

O conflito entre o espírito “esteticista” e o espírito “burguês” ainda é muito vivo em nossos tempos, convivendo com muitos outros “espíritos”, nesta era de fragmentação e coexistência de ethos os mais diversificados e contraditórios. Muitos de nós, nos dias atuais, ainda vivemos neste conflito, acendendo uma vela ao deu Apolo e outra ao deus Dionísio. Entregando-nos a divertimentos desvairados e depois voltando à normalidade dos nossos lares e escritórios. Cedendo à tentação da orgia como o personagem de Tom Cruise no último filme de Kubrik, mas depois voltando cheios de remorsos para a normalidade de nossas vidas “burguesas”, ao lado de nossas esposas, filhos e famílias normais. Depois cedemos novamente à tentação dionisíaca e o ciclo vicioso se repete indefinidamente.

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

O Mundo e Suas Etranhas Coincidências 2


Nos idos de 1830, Schopenhauer teve um sonho que considerou um mau presságio e deixou Berlim. Pouco depois uma epidemia de cólera assolou a cidade e matou Hegel, seu maior adversário intelectual. Meira Penna faz pilhéria do caso:

“Conta-se que, em 1830, [Schopenhauer] fugiu de Berlim em virtude de um sonho que considerou profético. Escapou assim de uma epidemia de cólera, enquanto Hegel, acreditando que o real é racional, não registrou sonho algum, não tomou providências, não abandonou Berlim e morreu por foca da realidade insofismável da mesma epidemia...” (Polemos, 2006, pág. 67).

As aparições da Virgem Maria em Fátima guardam uma íntima relação com a Revolução Russa. A última aparição ocorre no mês de outubro de 1.917, exatamente o mês da Revolução Bolchevique. A virgem pedia a conversão da Rússia, caso contrário esta nação espalharia seus erros pelo mundo. E espalhou. Todas as suas profecias foram confirmadas pela história.

Jung analisava uma paciente que tinha sonhos recorrentes com um besouro dourado. No meio da sessão chamou-lhe a atenção um barulho na vidraça de seu consultório: era uma joaninha dourada, muito rara, não encontradiça no local. O episódio era um exemplo de seu próprio conceito de sincronicidade, por ele definida como “uma ocorrência simultânea de um estado psicológico com um ou mais eventos externos que parecem ser paralelos significativos do estado subjetivo momentâneo.”

A sincronicidade para Jung não é mera coincidência de eventos: um laço desconhecido liga “um estado psicológico” a “um evento externo”. Digo laço desconhecido pois as sincronicidades existem mas permanecem um mistério. Existem diversas teorias explicativas, mas qual seria a correta?

A sincronicida é que dá fundamento à astrologia. Stanislav Groff, discípulo de Jung e um dos pioneiros das pesquisas sobre os efeitos do LSD sobre a psique humana, observou ao longo de suas pesquisas e de sua prática psiquiátrica um número formidável de sincronicidades que pela lei das probabilidades não podem ser tratadas como meras coincidências. O biólogo Rupert Sheldrake é outro estudioso das sincronicidades da natureza sob uma perspectiva própria, tendo criado uma teoria explicativa para o fenômeno: a teoria dos campos mórficos.

Mas nem tudo o que reluz é ouro. Em seu livro “Quando o Impossível Acontece”, Stanislav Groff narra uma série de coincidências interessantes que o levaram a crer ter encontrado a mulher de sua vida. Casou-se na Islândia, num ritual estranho. Pouco depois da cerimônia acordou sombrio e deprimido: era o presságio de que algo errado estava por vir. Pois bem, seu casamento foi um fracasso e se divorciou pouco depois. Assim ele avalia o caso:


“A aventura na Islândia foi uma experiência fascinante envolvendo as energias arquetípicas que irrompem na vida cotidiana e criam sincronicidades surpreendentes. Entretanto, ela me ensinou uma lição importante.Eu aprendi a não confiar incondicionalmente no pode sedutor dessas experiências e no encantamento e aumento do ego que criam. As sensações de êxtase associadas com a emergência de forças aquetípicas não garante um resultado positivo. É essencial evitar agir enquanto ainda estamos sob seu encantamento e não tomar decisões importantes até estarmos com os dois pés no chão” (Quanto o Impossível Acontece, 2006, pág. 49).”

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

O MUNDO E SUAS ESTRANHAS COINCIDÊNCIAS

O White Álbum é o melhor disco dos Beatles. Foi concebido após o período em que o grupo esteve na Índia aprendendo meditação transcendental com o Maharish e é inspirado nas experiências daquela excursão. A temporada de meditação terminou quando os Lennon e Harrison perceberam que o iluminado guru estava tentando ter relações sexuais com uma das moças da entourage, a atriz Mia Ferrow. “Ele quebrou as regras e fez a todos de bobos”, Maharish, o “sádico do sexo”, diz uma das mais belas músicas do disco. Mia Ferrow naquele ano estrelaria o filme “O Bebê de Rosemery”, uma narrativa em que a personagem principal se vê envolvida numa trama diabólica para parir o filho de Satanás. Enquanto isto, num acampamento de hippies da Califórnia, Charles Menson, também influenciado pelo "orientalismo pop", recebia o White Álbum como uma revelação pessoal. O disco, no seu entender, trazia oculta uma mensagem apocalíptica: ele deveria iniciar uma luta fratricida brutal entre os negros e os brancos de todo o mundo ao fim da qual os negros venceriam e o entronizariam como seu imperador. Para tanto, deveria assassinar uma série de pessoas brancas e lançar a culpa sobre os negros. Num de seus crimes, em 1969, mandou assassinar brutalmente a atriz Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, diretor do filme o “Bebê de Rosimere”, estrelado por Mia Ferrow que esteve com os Beatles na excursão à Índia. Curiosamente, Sharon esperava um bebê. Aquela história daria um filme sinistro: “O Bebê de Sharon Tate.” O Maharish morreu em 2008, exatamente quarenta anos depois da fatídica excursão que engendrou o White Álbum, um disco cujo título, por suas conseqüências macabras indesejadas, soa irônico, eis que melhor lhe caberia o nome de Blood Álbum. Estranhas coincidências.
P.S.: Uma das vítimas de Manson chamava-se Rosemary.

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Breve Anotação sobre O Leilão do Lote 49

Se fosse para dizer uma platitude, diria que O Leilão do Lote 49 retrata como nenhum outro romance o clima de loucura dos anos 1960. Em parte é uma excelente sátira dos costumes e do zeigeist de seu tempo. Satiriza as bandas de rock - então uma recentíssima invenção que veio para ficar - com os “O Paranóicos” e a música “Eu quero beijar teus pés”, paródia óbvia de “I wanna hold your hand” dos Beatles; o consumo de drogas: estão lá a heroína e, claro, o LSD; a televisão; a indústria bélica; a nascente indústria informática e as terapias psiquiátricas que mais enlouquecem do que curam (Hilarius, o psiquiatra da personagem principal cria uma técnica calcada em horrendas caretas para chocar seus pacientes).
Mas o Leilão do Lote 49 é mais que uma sátira de seu tempo, é uma sátira da complexa ciência moderna, com a invenção do Demônio de Maxwell, utilizado pelo cientista John Nefastis para criar a inútil máquina de Nefastis, a qual funciona quando um sensitivo olha para o retrato de Maxwell nela colado. É também uma sátira do teatro de Shakespeare e das teorias históricas que buscam encontrar elos secretos entre instituições do presentes e fatos, homens e acontecimentos de uma passado histórico remoto. Pynchon conheceria Éric Voegelin?

Na tradição literária, “O Leilão do Lote 49” inegavelmente tem ascendência kafkiana. Suas primeiras linhas já parodiam “A Metamorfose”: a personagem principal logo de entrada é lançada numa situação absurda que só se amplia como em “O Processo” e que se não termina de forma fatal para a personagem como nesta última obra, não dá a ela a porta de saída do absurdo. A personagem não acorda do pesadelo.

O romance também se insere na linha das narrativas absurdas, juntamente com as de Ionesco e de Becket que, num certo sentido, são narrativas essencialmente religiosas. A minha hipótese interpretativa é a de que O Leilão do Lote 49, assim como os romances kafkianos, deve ser entendido como um romance religioso, pois o absurdo em literatura parece ser a metáfora do Mistério, componente essencial de toda religião. Na religião cristã temos o exemplo do mistério da Santíssima Trindade que nos remete à célebre lenda em que uma criança diz a Santo Agostinho que era mais fácil ela preencher um buraco na areia com toda a água do oceano do que ele compreender a santíssima trindade. E nem Jesus Cristo estava livre do Mistério, pois dizia que o dia e a hora em que seu Pai poria fim ao mundo era um mistério só a ele reservado. As indagações religiosas são respondidas apenas até um certo ponto, até um nom plus ultra a que se dá o nome de Mistério e que se confunde, arrisco-me a dizer com a Vontade de Deus.
O sentido último de toda a existência é um mistério (o que não quer dizer que não exista como querem os niilistas) e saber disto é como viver numa narrativa absurda. Despertar para isto é se ver envolvido numa trama absurda como a do Leilão do Lote 49. Quem comanda tudo isto? Qual é o sentido de toda a história? Qual é o objetivo? Só nos deixam sinais, como a trompa postal que Edipa vê por toda a parte e a misteriosa história do Tristero.

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Transtorno Bipolar e os Puritanos Scurvhamitas

Ainda vou entender o mecanismo interno da constante alternação euforia/tédio. Há dias em que todas as coisas aparecem recobertas de uma aura de prazer e fascínio e há outros em que as mesmíssimas coisas só transmitem emanações de aborrecimento. Não raro sobrevém a pergunta: por que mesmo eu achava aquilo bom, ou por que mesmo me parecia ruim? Transtorno bipolar? O problema, obviamente não está nas coisas, mas em nós. O prazer e o tédio das coisas são projeções de nossa alma. Há uma linha muito tênue a dividir a euforia da depressão, o céu do inferno. A queda pode ser repentina e surpreendente.
***

Homens auto-condenados ao inferno. Apaixonados pela perdição, fascinados pelo mal, que conscientemente se deixam perder para sempre. Existem. Penso em Mersault, e no personagem de Clint Eastwood em Os Intocáveis, ou no Marquês de Sade do filme. Sid Vicious? "Cancel my subscreption to the ressurrection. Send my credentials to the house of detention" (Jim Morrison). É triste. Certa feita, imaginei como seria alguém com o poder de prever o destino de uma alma. Joseph Fritzel teria salvação? Não dá para olhar para ele e não imaginar que é uma alma condenada. Está preso. Da prisão humana pode seguir direto para a prisão eterna. Thomas Pynchon faz troça desta espécie:
"No reino de Carlos I, Roberto Scurvham fundara uma seita que reunia os mais puros puritanos. Preocupavam-se em especial com a predestinação. Havia dois tipos. Nada para um scurvhamita jamais aconteria por acaso, a Criação era uma vasta e intricada máquina. Mas uma parte dela, a parte scurvhamita, funcionava de acordo com a vontade de Deus, sua forá motriz. O resto funcionava segundo um Princípio oposto, algo cego e sem alma, num automatismo irracional que conduzia à morte eterna. A idéia consistia em atrair novos adeptos para a divina e predestinada confraria dos scurvhamitas. Mas, sabe-se lá como, aqueles poucos scrvhamitas salvos da perdição contemplavam a reluzente maquinaria dos condenados com um misto de fascinação mórbida e horror, e isso se provou fatal. Um por um foram seduzidos pela perspectiva deslumbrande do aniquilamento, até que náo sobrou ninguém na seita. O próprio Roberto Scurham, como comandante de navio, foi o último a abandoná-la."
(O Leilão do Lote 49, pags. 140 e 141. Editora Cia. das Letras. Tradução de Iorio Dauster).

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

A Neuroquímica do Ennui Pascaliano


A propósito da leitura de páginas lúgubres de "Polemos", obra de José Osvaldo de Meira Penna.

Lia com gosto coisas sobre o ennui pascaliano, o desespero kierkegaadiano, o “life is but a walking shadow” shakespeareano, o “Esperando Godot” de Beckett. Coisas que fizeram muita gente de cabeça fraca dar um "adieu monde terrible", um "goodbye cruel world" (The Wall: 1979). Um dia experimentei levemente estes sentimentos e não foi nada agradável. Foi então que a diferença do mundo como idéia e o mundo como mundo (insight de Bruno Tolentino) se tornou mais clara para mim. Que não volte nunca mais. Não quero ser infeliz e depressivo como Kierkegaard e Pascal, por mais heróico que isto seja ou ficar louco como Nietzsche - o que é ridículo. Prefiro até viver como o bon-vivant mal-caráter que foi Schopenhauer.
***
Mas deste ennui, desta nausée, deste sentimento de angústia e falta de sentido podemos ser acometidos mesmo após termos lido Victor Frankl. Isto constatei na prática.
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O ennui não pode ser explicado pela neurociência moderna. Não é uma simples questão de distúrbio de neuro-tranmissores, curável com fluoxetina. Dir-se-ia que existisse prozac no tempo de Kierkegaard, ele não teria escrito seu ensaio sobre o desespero humano. Mas por outro lado nem toda depressão tem explicação espiritual, em certos casos é simples problema neuroquímico. Do contrário não teria explicação o fato de pessoas sem espírito caírem em depressão.

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