sábado, 20 de junho de 2009

MERGULHANDO NO OCEANO DO MISTÉRIO

Antes era a busca de certezas e segurança o principal motivo do todo estudo. Atormentado pelo pesadelo do relativismo buscava o solo firme das certezas metafísicas absolutas, o ponto arquimédico, a verdade apodítica. A partir deste solo firme e eterno eu poderia construir um sistema de verdades subordinadas e o fundamento último e indisputável para as regras morais que eu deveria seguir e defender, bem como dos sistemas políticos pelos quais eu deveria lutar. O Direito Natural parecia ser este solo firme da Ética e do Direito. Depois me pareceu não ser suficiente. Neste esforço creio ter encontrado algumas certezas firmes, eternas, absolutas e indisputáveis e só um doente acometido de desconfiança patológica não poderia reconhecê-las.
Depois veio uma espécie de mal-estar ou tédio. O tédio de já saber demais. Se já sabemos tudo, para que estudar mais? O sentimento de Vladimir e Estragon no deserto: "e agora, não há mais nada para fazer..." O sentimento decepcionante da aposentadoria precoce. É óbvio que este sentimento não é senão um sintoma de uma neurose muito grave, derivada de uma megalomania cognitiva. Não se pode conhecer sequer um mísero objeto, um grão de areia in totum. Apenas um grão de areia guarda mais mistérios do que sonha a nossa vã filosofia. Somos um grão de areia num universo de ignorância. E o Universo é finito, um grão de areia dentro da infinitude metafísica. Mas aquele sentimento de tédio por saber demais, como dizia, era sintoma de uma megalomania consistente na ilusão da onisciência, disfarçada por concessões da boca para fora a questões ainda não bem estudadas e arestas ainda não muito bem aparadas. Então eu pensava que tinha estabelecido um pequeno núcleo de verdades a partir das quais poderia chegar a todas as respostas. Mas isto não era possível. Na verdade, o sentimento de tédio era um alarme de meu subconsciente: eu ainda tinha um oceano sem fim de conhecimentos por navegar e estava parado, satisfeito com os poucos metros que navegara.


Deste ponto, comecei a me interessar não por certezas, mas por teses que as contradissessem; não por novos e novos argumentos que reforçassem o que eu tinha como firme convicção (e o que eu tinha como firme precisava de mais reforços, hoje eu sei), mas por mais dúvidas, por perspectivas novas, por novas abordagens, novos horizontes, resgates de idéias esquecidas ou abandonadas injustamente, revisões do que eu já tinha revisto mil vezes (e a cada vez que eu revia, uma nuance nova se revelava). Assim o infinito de minha ignorância foi se descortinando aos meus olhos, mas já não me metia medo, mas alívio, prazer, contentamento, pois eu estava sendo retirado de um bunker sufocante em que me metera na busca de certezas infinitas e eternas e que eu acabei por ter a ilusão de ser todo o Universo. Não caí no erro infantil do relativismo gnosiológico novamente, ou do agnosticismo, apenas acordei de um sonho de onipotência e me tornei mais consciente da realidade. Este sentimento de alívio ou de renovação, foi o sentimento do início do século XX, quando caíram em parte o cientificismo e o positivismo então reinantes, com o advento da física quântica e da teoria da relatividade. Ortega y Gasset, numa esplêndida comparação, iguala o sentimento rejuvenescedor da época ao alvoroço das crianças quando acaba a aula e se abrem os portões da escola.


Ampliei um pouco o conhecimento da vastidão de minha ignorância. E a ampliação do conhecimento da vastidão da própria ignorância é uma tremenda ampliação do universo do nosso conhecimento. Ainda hoje me interesso mais por novas dúvidas, do que por certezas. E espero assim prosseguir pelo resto da vida. Assim, se tornou mais rico para mim o sentido de duas frases já quase folclóricas: “as convicções são cárceres” (Nietzsche) e “a única conclusão é morrer.” (Fernando Pessoa). Mas não desistirei de certas convicções: de algum modo eu estou aqui e agora com absoluta certeza; a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa em qualquer lugar do Universo e mesmo além, por toda a Eternidade e a despeito da vontade de Deus e a teoria da mais valia está errada por todo sempre e pelos séculos dos séculos, amém!

2 comentários:

TomBalaio disse...

Gostei do texto...tenho respeito por Ortega e Gasset..." Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo não me salvo."....Este ensinamento tem pautado em muito minha vida.

Forte abraço.

TomBalaio disse...

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