<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314</id><updated>2012-01-13T14:20:57.927-02:00</updated><title type='text'>O ÓBVIO E O ABSURDO.</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-7439985737399580069</id><published>2011-03-05T02:27:00.002-03:00</published><updated>2011-03-05T02:29:52.643-03:00</updated><title type='text'>O CARNAVAL DE BLAISE PASCAL</title><content type='html'>O mundo todo é cheio de dor e pecado por toda parte, dos pequenos aos grandes. A dor do namoro frustrado e a dor de ter perdido a família inteira; a dor a dor de ter sido traído pelo amigo e a dor do câncer. Os pecados nós os buscamos. Nós buscamos sofrimento. Nós buscamos a dor. Para poder experimentar a misericórdia Divina? Essa é a filosofia de Marmeladov, daquele romance para adolescentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas crucifiquem-me depois de me julgarem e, quando me tiverem crucificado,&lt;br /&gt;tenham pena de mim. E então eu próprio irei ter com vocês para sofrer o suplício, pois não é de alegria que eu tenho sede, mas de tristeza e de lágrimas! Imaginas tu, taberneiro, que esta meia garrafa me trouxe a felicidade? Sofrimento, o sofrimento é que eu procurava no seu fundo; tristeza e lágrimas, e encontrei-as realmente; quanto à piedade, há de ter piedade de nós Aquele que de todos se apiedou e tudo compreendeu: Ele, que é o amigo e também é o juiz. Nesse dia Ele há de aparecer e perguntará: "Onde está essa pobre moça que se vendeu por uma madrasta má e tísica e por umas crianças, que lhe não são nada? Onde está essa pobre moça que teve compaixão do pai, bêbado inveterado, sem se assustar com o seu embrutecimento?" E depois dirá: "Anda, vem cá! Eu já te perdoei uma vez. Já te perdoei uma vez. Perdoados te sejam também agora os teus muitos pecados, porque amaste muito". E perdoará à minha Sônia; há de perdoar-lhe, eu sei que há de perdoar-lhe... Foi isso o que senti há pouco no meu coração, quando fui vê-la... E há de julgar a todos e a todos perdoará, tanto aos bons como aos maus, aos prudentes e aos pacíficos... E, depois de julgar todos, inclinar-se-á também para nós:  "Vinde cá", dirá, "vós outros, também, vós, os bêbados, vinde cá, impudicos; vinde cá, porcalhões!". E Ele dirá: "Meus filhos! Imagem bestial é a vossa e tendes a sua marca; mas aproximai-vos também". E intervêm os castos, e intervêm os prudentes: "Senhor! Mas vais admitir estes também?" E Ele dirá: "Pois eu os admito, ó castos! Aqui os acolho, ó prudentes! Porque nem um só deles se julgou nunca digno de tal mercê..." E estender-nos-á as suas mãos, e nós outros entregar-nos-emos nelas e romperemos em pranto e compreenderemos tudo... Então, havemos de compreender tudo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos bares por aí ninguém vai ser feliz, vai aplacar a solidão, vai para esquecer as pequenas e grandes angústias, e a angústia maior que os homens mais simples nem sabem que possuem: a angústia de existir sem saber o motivo e no que vai dar no fim. Mas no fim esperamos que a paz de Deus venha nos tocar. Todos aqueles homens no botequim mais simples, jogando sinuca, falando de futebol, cuspindo no chão, simulando brigas, bancando de valente, ninguém ali é feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, a confiar em Aldous Huxley, isso é uma forma de busca de transcedência. Mas é transcendência vertical negativa. Era por esse caminho que ia o Marmeladov.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diversão. Ninguém compreendeu melhor a natureza da diversão do que Baise Pascal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se o homem fosse feliz, ele seria tanto mais quanto menos se divertisse, como os santos e Deus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A única coisa que nos consola de nossas misérias é o divertimento, e no entanto, é a maior de nossas misérias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só os infelizes se divertem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí vem o carnaval.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-7439985737399580069?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/7439985737399580069/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=7439985737399580069' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7439985737399580069'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7439985737399580069'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2011/03/o-carnaval-de-blaise-pascal.html' title='O CARNAVAL DE BLAISE PASCAL'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-4579399807465551668</id><published>2011-02-03T01:43:00.003-02:00</published><updated>2011-02-13T22:58:31.824-02:00</updated><title type='text'>SOBRE DOIS POSTS RECENTES DA DICTA E CONTRADICTA E SOBRE VÍCIOS ETERNOS DOS BRASILEIROS</title><content type='html'>Fazendo uma ligação entre dois posts recentes da Dicta e Contradicta (http://www.dicta.com.br/o-farrapo-que-se-encerra/ e http://www.dicta.com.br/sexo-literario/), me recordo que as páginas que retratam a juventude de Francis no “Afeto que Se Encerra” (diz a anedota que a continuação do livro teria o título de “Em Nosso Peito Juvenil”) estão cheias também de pornografia literária autobiográfica. Lá ficamos sabendo que a tal “revolução sexual” dos anos 1960 foi só um movimento de publicização e escancarização daquilo que pegavo fogo na moita, atrás do “Muro de Berlim”, nas ocultas dos anos 1930-1940 (que o diga Nelson Rodrigues). “Se se trepava, não era costume alardear. Hoje quem não alardeia corre o risco de ser considerado impotente ou coisa que não quer revelar.” Eram os anos dourados, turbinados pelo pó branco que Fernando Sabino confessou, numa palestra na Universidade Federal de Viçosa em 2001, ter feito muito uso naquela época em Copacabana, como todo mundo, “embora naquela época fosse um uso romântico, não como hoje que tem essa coisa do tráfico de drogas, etc…”, dizia. Mas a orgia cansa, cansa como no final de La Doce Vida (filme este muito amado por Francis), da mesma época, cujo fim é uma festa que termina mal e o personagem de Mastroiani acaba deprimido na praia, junto de uma baleia morta, olhando para uma garota que era uma anjo de pureza, talvez sua salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mesmo ennui pós-orgia Francis não deixa de relatar:&lt;br /&gt;“O corpo excepcional (em média) das participantes e “convocadas”, uma vez provado no café, almoço, lanche, jantar e ceia, se torna tão atraente quanto o saco de batatas que evitávamos na rua.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia eu contava ao um amigo que o preenchimento de cargos nos Tribunais Superiores se deve única e exclusivamente a critérios políticos. E ele disse: "uai, isso ainda existe?" E como existe! A própria Juíza Corregedora do Conselho Nacional de Justiça o confesso numa entrevista à Veja: "não posso mentir, se eu não tivesse padrinhos, não estaria aqui." Os critérios de acesso ostensivos na Constituição Federal são: notório conhecimento jurídico e reputação ilibada, ao menos para o STF. Mas, dentre tantos juristas com notório saber jurídico e reputação ilibada, o terceiro fator, decisivo, de desempate, é o critério político, o dos padrinhos. Às vezes o notório saber político e a reputação ilibada também são toffolicamente desprezados. No futuro, a decisão destes juízes se refletirá em decisões que favoreçam o padrinho, não há dúvidas. Não através de um desrespeito descarado à Constituíção e às leis, mas pelo fato de que o direito tem um elevado grau de incerteza e ambigüidade: em muitos casos, duas causas antagônicas são igualmente plausíveis e defensáveis. O juiz é obrigado a escolher entre elas: qual é o critério da decisão: em boa parte dos casos é o de favorecimento do grupo político que o colocou lá. A neutralidade é uma impostura muitas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Persiste então o patrimonialismo. Mas as instituições funcionam, objetam alguns. Funcionam no papel. O requinte da burla aumenta na mesma proporção em que as leis moralizantes melhoram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo de ruim persiste no Brasil a despeito dos avanços. O brasileiro quer incorporar novas virturdes sem ss desfazer dos vícios do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há casos pessoais "patológicos" extremos: conheço sujeitos que ao mesmo tempo querem ser profissionais corretos e honestos, e bons pais de família e, ao mesmo tempo, malandros infiéis que se gabam de dar uma passadinha de perna aqui e ali e de enganar a esposa de quando e quando. Eis a natureza do brasileiro.&lt;br /&gt;Um país de borderliners?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O exemplo público mais evidente é o do Presidente Collor. Bastião da moralidade administrativa corrupto, homem de esportes cocainômano, cristão que fazia macumba na Casa da Dinda, a confiar nos depoimentos de seu irmão, um pobre coitado que só jogou merda no ventilador porque foi deixado para escanteio no caso Collor-PC Faria e acabou fulminado por um câncer no cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil não mudou: continua sendo o país do Macunaíma, o país do governador que sassarica em baile gay e fica indiferente à tragédias humanas de grandes proporções.&lt;br /&gt;Continua por aí também o mundo de Neslson Rodrigues e o mundo lascivo de Paulo Francis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas e nós? Nós também não somos santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que ponto a moral tem de ser tão rígida? Lembramos de que ela deve ser flexível e isso nos induz à permissividade, de modo que perdemos a medida de tudo.&lt;br /&gt;De outro lado tem os extra-rígidos. Tem o pastor que assustou a menina porque ela está em grande pecado porque cultua a Virgem Maria e bebe com as amigas em fins de semana. Desde que largou estes vícios, a vida do pastor mudou: seu filho passou na Universidade Federal, terminou sua casa, comprou uma Hilux. Tudo com a graça de Deus e graças à moralidade rígida. Mas votou em Dilma Rousseff porque esse negócio de aborto é calúnia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo já foi dito? Certamente não. O que é certo é que há galáxias do que já foi dito e não foi compreendido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-4579399807465551668?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/4579399807465551668/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=4579399807465551668' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/4579399807465551668'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/4579399807465551668'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2011/02/sobre-dois-posts-recentes-da-dicta-e.html' title='SOBRE DOIS POSTS RECENTES DA DICTA E CONTRADICTA E SOBRE VÍCIOS ETERNOS DOS BRASILEIROS'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-111698237162882119</id><published>2011-01-30T23:45:00.007-02:00</published><updated>2011-02-01T02:03:19.165-02:00</updated><title type='text'>OS DEMONIOS DE LOUNDUN</title><content type='html'>Tanta gente que torce o nariz para Huxley certamente não o leu com a devida atenção a ponto de perceberem a profundidade de sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Demonios de Loudun é a narrativa dos eventos de possessão demoníaca que se deram num convento de freiras de uma pequena cidade francesa no século XVI, com o conseqüente martírio do padre grande pecador, Urbain Grandier, um homem lascivo e cheio de vaidade, completamente mundano que, todavia, foi acusado do que não fez e torturado barbaramente até a morte e queimado vivo por se recusar a confessar um delito que não cometera: o de causar a possessão. Fez o diabo, enganou duas mulheres, engravidou uma e tentou forçá-la a abortar, mas, no fim, os seus últimos momentos foram de uma grandeza digna de um santo. Não nagou a verdade de sua consciência, ao contrário de Galileu e Bertold Brecht. Não o canonizaram, não é santo nem mártir, no entanto. É só um pecador martirizado, barbarizado e crucificado por dois padres exoscistas que, pouco depois, vieram a morrer num colapso nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me apraz imenso este tipo de narrativa. Toma-se um fato histórico e se o narra com paixão e riqueza de detalhes, entremeando a narrativa com uma percuciente análise social e histórica das circunstâncias do evento e de profundas digressões filosóficas e teológicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho mais memorável o transcrevo abaixo. É do fim do último capítulo, que narra a morte de um outro padre, um doentio exorcista que se auto-flagelava  e vivia torturado pela idéia de que já estava condenado. Viveu anos de terríveis sofrimentos psíquicos e depois, logo após se curar, encontrou a paz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No Apocalipse nos encontramos com que o Espírito de Deus faz menção de uma música de harpas e alaúdes que dão um som grandioso de trovejada. Tais revistam ser os caminhos do Senhor: fazer que um trovão retumbe com agradáveis sonoridades de alaúde e que uma sinfonia de alaúdes ressoe com os retumbos dos trovões. E por outra parte, quem poderá acreditar ou imaginar que existem correntes de paz que arrasam até os diques, que rompem os diques e que convertem em pedacinhos as barreiras do mar? Entretanto, isso é o que acontece, pois essa é a natureza de Deus: promover assaltos de paz e criar silêncios de amor... A paz de Deus é como um rio que primeiro se deslizava sobre as terras de uma comarca e que depois veio a verter em outra por haver-se quebrado os diques. Essa paz invasora dá ocasião a algumas coisas que não parecem próprias da natureza da paz, porque vêm como precipitadas, porque vêm com impetuosidade; mas isto é coisa que, como própria, pertence à paz de Deus. Somente a paz de Deus pode vir desse modo —quão mesmo a maré crescente— não para arrasar a terra, a não ser para encher o leito que para ela Deus preparou. Irrompe com furiosas aparências e se acompanha do rugido, embora o mar se ache em calma. Esse rugido é causado mais pela abundância das águas que por sua fúria, já que o movimento delas não se deve à tempestade, a não ser às águas mesmas em toda sua nativa calma quando não as move nem o sopro mais leve de vento. O mar na plenitude de sua maré deve visitar a terra e a beijar as praias que lhe servem de cinturão. E chega pleno de majestade e de magnificência. E assim acontece com a alma quando, depois de longo sofrimento, alcança a imensidão da paz que vem visitá-la sem que o mais leve sopro de vento forme em sua superfície a menor enrugação. É uma paz divina que traz consigo os tesouros de Deus e a total opulência de seu Reino divino. Esta paz tem seus precursores e seus arautos: os venturosos pássaros que anunciam sua chegada, os anjos que a precedem. Vem como ingrediente da outra vida, como um som de harmonia celestial e com tal celeridade que a alma fica como derrubada, não por opôr resistência ao favor divino, a não ser por causa de sua plenitude e abundância. É uma abundância que não exerce violência mais que contra os obstáculos que lhe saem ao passo em seu caminho de bênção; por isso, todos os animais que não são aprazíveis desaparecem fugindo à irrupção dessa paz. Com a paz chegam todos os tesouros prometidos a Jerusalém: cássia e âmbar e quantas coisas preciosas que são adornos de suas praias. Quando chega esta paz, chega com abundância, chega completa de bênções, chega com os mais preciosos tesouros da graça.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Em Marennes, mais de trinta anos antes, Surin tinha observado muitas vezes o tranqüilo e irresistível avanço da maré do Atlântico e agora, a lembrança daquela cotidiana maravilha era o recurso pelo qual uma alma como a sua se fazia, por fim, capaz de «vomitar-se ela mesma», usando de uma expressão não de todo inadequada. Tel qu'en Lui-méme enfin l'eternité le change chegara —sem dar-se conta disso— ao lugar mesmo onde tinha estado sempre; e quando na primavera de 1665 lhe surpreendeu a morte «não teve necessidade —segundo palavras de Jacob Boehme — de ir-se a nenhuma parte». Se é que ele já se achava ali."&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-111698237162882119?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/111698237162882119/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=111698237162882119' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/111698237162882119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/111698237162882119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2011/01/os-demonios-de-loundun.html' title='OS DEMONIOS DE LOUNDUN'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-1751576244685108440</id><published>2011-01-17T01:25:00.002-02:00</published><updated>2011-01-17T01:29:06.620-02:00</updated><title type='text'>The Happiest Days of Our Lifes</title><content type='html'>Eu me recordo de que a bisavó do meu chapa estava sentada na cadeira de balanço cantando “Eu vou pra Maracangalha” debaixo do pé de manga, enquanto nós acompanhávamos a disparada das galinhas rumo ao esconderijo dos maconheiros. Valia tanto 1 real em 1994 que eles deviam se lambuzar da erva só com uma daquelas notinhas verdes que saíram de circulação. Mas este não era o drama maior. O drama era que “o de vida eterna” com sua “forma decadente” habitava aquele quintal e nos incentivou a promover o incêndio por lá. A pena pelo delito foi de um mês de novena com as tias, numa época em que Nossa Senhora andava dando as caras ali por perto, se é que não era caso de charlatanismo. Se eu fosse revoltado diria que botar a de Fátima para assustar criança era sadismo das velhas. Mas nós merecíamos. Foi de maldade mesmo. Desde então a ameaça do fogo eterno nos ronda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a velha já foi para a Maracangalha faz tempo e o futuro maior jogador de futebol da cidade para o retiro prolongado de reabilitação de adictos – Quem diria? Naquele memorável domingo ensolarado de final de campeonato pré-juvenil em 1998  fez coisas que nem o jovem Ronaldinho Gaúcho sonhara fazer... Um futuro brilhante que terminou em nada. Nesse mesmo ano, não sei por que, ao ler o Pequeno Príncipe, me dei conta de que a minha professora de primeira comunhão era na verdade um anjo. Ainda hoje quase verto lágrimas porque ela foi embora em 1993 e eu nunca mais tornarei a vê-la.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-1751576244685108440?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/1751576244685108440/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=1751576244685108440' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1751576244685108440'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1751576244685108440'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2011/01/happiest-days-of-our-lifes.html' title='The Happiest Days of Our Lifes'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-6749229524328940939</id><published>2010-12-22T02:15:00.003-02:00</published><updated>2010-12-30T21:57:32.675-02:00</updated><title type='text'>OS MEDOS DA CLASSE MÉDIA</title><content type='html'>A vida no país melhorou para todos desde 1994. A classe média cresceu e se multiplicou. Integrado na classe média posso dizer que é a classe tomada pelo medo. A classe média vive com medo de tudo. E quanto mais conforto, maior é o seu medo. Alguém devia estudar isso, porque a hipótese me parece muito evidente: o coeficiente de medo da classe é maior que o das classes menos favorecidas, pelo menos. As classes menos favorecidas por não terem muito o que perder, também não tem muito o que temer. O medo da classe média é agravado ainda por vivermos num país relativamente pacífico (com a exceção das capitais, claro): não tendo guerras, fome, atentados terroristas e epidemias a temer, a classe média direciona seu medo para problemas que não amedrontam os que vivem sob aqueles perigos. Teme-se o colesterol, teme-se o fumo, teme-se não ter dinheiro para pagar o IPVA do carro novo, teme-se um corte do plano de saúde, teme-se um rebaixamento profissional que vá diminuir o nível de renda, forçando a matrícula dos menos (horror!) numa escola pública, e teme-se de não ter dinheiro para pagar o inglês dos meninos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que o perigo do rebaixamento do padrão de vida deve preocupar um pouco, mas não deveria amedrontar. Isso, de fato, me parece absurdo: a classe média teme essas coisas como os ingleses temiam os bombardeios de Hitler na II Guerra ou como os israelenses temem os atentados do Hezbollah. Um temor que faz com que ela sacrifique os seus valores mais altos por medo de perder os seus confortos. É o caso de funcionários públicos evangélicos que votam nunca candidata abortista porque o candidato contrário aparentemente pode não ser tão benevolente com a classe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A classe média vive uma vida de conforto e tranqüilidade só abalada por alguns ônibus queimados e balas perdidas nas capitais. Uma vida de conforto que ninguém quer perder. No seu Seminário de Filosofia, o mestre comentava recentemente o fato apontado por Merquior na obra "A Natureza do Processo" de que as classes médias modernas vivem um padrão de vida mais alto que o dos mais potentados dos aristocratas da antiguidade, graças aos avanços do capitalismo industrial, ao livre mercado, e aos avanços tecnológicos em geral. Um padrão de vida que ninguém quer perder, pois o conforto material, a tranqüilidade financeira, a vida saudável são os valores predominantes, e se colocam acima dos valores heróicos em nossas sociedades democráticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sociedade em que os valores predominantes são estes, é natural que o coeficiente (uso este termo para imitar os filósofos acadêmicos chiques) de medo seja maior. Não sei se a pesquisa histórica já chegou a provar isto, mas me parece que este estado de coisas é fruto da “ética protestante” de que falava Weber. Observo os discursos evangélicos, tanto nas igrejas dos mais pobres quanto nas dos mais abastados. E em todos eles vejo que uma das preocupações centrais é o bem-estar material. Na igrejinha defronte de casa, uma das expressões mais usadas pelo pastor é vida financeira. Todos os dias ele ora para que os espíritos malignos saiam da vida financeira dos que acorrem a ele em busca de oração. Um quiçá preconceito me leva a achar que os evangélicos rezam e vivem uma moralidade rigorosa só para poderem gozar do bem-estar material. O bem-estar material é a prova de que Deus está atento ao bom comportamento deles e os premia. Ainda que votem na candidata abortista, façam umas ligaçõesinhas particulares no serviço público, burlem o fisco de todas as formas possíveis e abusem um pouco do plano de saúde a cada manchinha que aparece no dedo mindinho, a cada dor de barriga. Sei que há pastores que sobem as favelas para pregarem para criminosos perigosos, mas não se vê com muita freqüência muitos mártires entre os evangélicos, pessoas que arriscam sua fortuna, seu bem-estar material, sua vida por causas cristãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero dizer que esta mentalidade timorata seja peculiaridade dos evangélicos, pois atinge católicos, ateus e apóstatas provenientes de todos os credos. Só observo a origem histórica desse ethos parece ser a revolução protestante e que ela toma conta de toda a classe média de país desenvolvido ou em desenvolvimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece também que essa vida pacata, esse tranqüilo bem-estar sob o signo do medo é que gera, no meio de seu tédio cotidiano, o fenômeno do jovem rebelde de classe média. Daí surgiram os &lt;em&gt;beatnicks&lt;/em&gt;, o Padre Seraphim, os &lt;em&gt;baby boomers&lt;/em&gt;, o rock ‘n’ roll e todos inconformados com o domingo com a família no jardim zoológico dando pipoca aos macacos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-6749229524328940939?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/6749229524328940939/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=6749229524328940939' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6749229524328940939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6749229524328940939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2010/12/os-medos-da-classe-media.html' title='OS MEDOS DA CLASSE MÉDIA'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-2288909742844325769</id><published>2010-09-09T16:33:00.000-03:00</published><updated>2010-09-09T16:34:58.642-03:00</updated><title type='text'>Morte em Veneza</title><content type='html'>Se Morte em Veneza é de fato expressão do zeitgeist de sua época, Mário Vieira de Melo tem razão em dizer que o maior problema ético-filosófico da modernidade é o problema do esteticismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustav Aschbach, o glorioso escritor homossexual alemão que vai se passar férias em Veneza vive terrivelmente dividido entre a vida ascética e metódica de seu trabalho e a sedução da embriaguês estética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um homem dúbio, vacilante. Veneza é símbolo do sensualismo, da embriaguês estética. Está lá indeciso entre o bom senso de se retirar, fugindo dos miasmas corruptos da cidade aquática que não fazem bem a sua saúde frágil e o desejo de ficar e arriscar sua vida na contemplação estética de um adolescente polonês, em que via a encarnação do Belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase parte sem vontade, mas um pequeno infortúnio acaba por dar-lhe um pretexto para ficar como desejava, no fundo, o seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica e acaba contaminado pela epidemia de cólera indiana que as autoridades venezianas se esforçam por ocultar. Morre então, ao final, na praia contemplando o efebo por quem se apaixonou, um dia depois de um sonho terrível que lembra um festim macabro, uma visão de caos e turbilhão, uma espécie de carnaval sob a regência do “deus estranho” em que René Girard veria o símbolo do crise sacrificial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa visão do caos e do turbilhão se assemelham muito aos delírios de Hary Haller, o Lobo da Estepe, personagem também consumida pelo conflito entre o ascetismo e o bom senso da vida burguesa, de um lado, e os desvarios esteticistas da vida artística, de outro. O Lobo da Estepe é obra de um escritor alemão que tal como Thomas Mann tinha no conflito entre o Princípio Ético e o Princípio Estético o principal motivo de sua obra literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thomas Mann e Herman Hesse são dois escritores alemães profundamente envolvidos com o problema do esteticismo. Sendo eles dois dos principais intérpretes da cultura alemã de seu tempo, parecem confirmar a tese de Modris Eksteins de que, realmente, o esteticismo era o principal problema da cultura e da sociedade alemãs da primeira metade do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito significativamente, o prólogo de sua “Sagração da Primavera” descreve justamente uma cena em Veneza com um artista russo, Diaghilev, também homossexual e marcado pelo primado do Estético sobre o Ético. O prólogo faz menção expressa a Morte em Veneza. O romance de Mann também se passa na primavera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primavera é uma festa, mas a festa é o prenúncio de algo que vai acabar mal. O ardor esteticista da cultura alemã - esta é a tese de Eksteins - conduziu à devastação da Primeira Guerra, ao nazismo e à hecatombe da Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma linha muito tênue a que separa o furor estético da destruição. Isso é o que parece nos ensinar Morte em Veneza e a obra de Eksteins.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-2288909742844325769?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/2288909742844325769/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=2288909742844325769' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2288909742844325769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2288909742844325769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2010/09/morte-em-veneza.html' title='Morte em Veneza'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-3724372558210704097</id><published>2010-08-10T20:34:00.002-03:00</published><updated>2010-08-10T20:44:42.078-03:00</updated><title type='text'>Desvio de Rota, Torre de Babel e Fragmentação.</title><content type='html'>Começo a ler o &lt;em&gt;Tractatus &lt;/em&gt;do herói cerebral de Paul Johnson e me pergunto se seus aforismos escondem uma verdade profunda ou não passam de tautologias e platitudes. A segunda hipótese parece ser a opinião do homem que retirou a tampa da marmita do Brasil, pois, em seu Seminário, anda colocando o velho Witt abaixo de um cachorro, ao qualificá-lo de “burro” e homem com “neuroses do tamanho de um bonde.”  Talvez tudo se resuma a entender o que o vienense quis dizer com o que disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo: “O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas”. O que quer dizer “mundo”, “fatos” e “coisas”? “Fatos” refere-se ao conjunto das coisas atualizadas? Neste caso, o mundo dele exclui a potencialidade, ou o conjunto das coisas potenciais. Mas o que é mundo para ele? É o Ser, ou seja, o conjunto de toda a potencialidade mais o conjunto de todas as coisas atualizadas? Ou é apenas o conjunto de todas as coisas atualizadas? Na primeira hipótese, sua frase revela apenas que seu mundo é precário, irreal e ingênuo, pois exclui a potencialidade; na segunda hipótese, sua frase é uma mera tautologia. Mas talvez suas palavras signifiquem ainda outra coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o primeiro problema: saber o que o sujeito quis dizer com o que disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há diálogos inexistentes. Duas pessoas conversam e cada um atribui um significado diverso às palavras do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez vivamos numa Torre de Babel em que ninguém entende direito o que o outro quer dizer com o que ele está dizendo. Multiplicam-se as escolas filosóficas e elas se tornam mutuamente incompreensíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande lição do homem que retirou a tampa da marmita do Brasil: a grande linha de desenvolvimento do pensamento que a História da Filosofia hegemônica descreve não é a linha que o pensamento humano deve necessariamente seguir e, além disto, não é a única linha que o pensamento humano de fato seguiu. Pior, para ele a História da Filosofia hegemônica (na mídia cultural e na academia) pode excluir, e de fato, teria excluído, correntes de pensamento mais profundas e verdadeiras: as filosofias de Bernard Lonergan, Eric Voegelin, Rosentock, Mário Ferreira dos Santos e Louis Lavelle, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim gerações inteiras de estudiosos acabam por gastar suas vidas inteiras com aquilo que não é o essencial. Mas o que é o essencial? Só mesmo acumulando uma grande erudição para poder comparar as diversas linhas de pensamento e destacar as mais valiosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto às linhas de pensamento potenciais que jamais foram exploradas ou que, exploradas em algum momento da História, foram abandonadas e esquecidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As funções dos homens no mundo são cada vez mais especializadas e fragmentadas. O mundo está aí: você arranje um lugar para se encaixar nele. Não será algo extraordinário, não será algo grandioso, a menos que você seja um homem de gênio. O gênio inventa a sua própria profissão. Atribue-se esta frase a Goethe. Os Estados Unidos da América são a nação que maior número de gênios deu ao mundo. Um invento, uma empresa para manufaturar e vender o invento, e o sujeito se torna bilionário em pouco tempo, sua empresa transforma-se numa mega-corporação em pouquíssimo tempo e o modelo se espalha pelo mundo. Esse é o paradigma desde o século XIX. Foi assim com a lâmpada elétrica de Edson, a câmera fotográfica portável de Eastman, o automóvel de Ford, o sistema operacional de Gates, os iPods de Jobs, a revista que coloca vulvas à mostra de Flint. Os Japoneses desde o século XIX vivem de mimetizar os americanos, melhoram o invento, passam a competir e suplantam as empresas norte-americanas. Mas o maior pólo irradiador de todas as inovações humanas jamais deixou de ser os Estados Unidos da América. Vetaram os Napoleões da política e incentivaram a proliferação dos Napoleões da tecnologia, da indústria e do entretenimento.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-3724372558210704097?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/3724372558210704097/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=3724372558210704097' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3724372558210704097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3724372558210704097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2010/08/desvio-de-rota-torre-de-babel-e.html' title='Desvio de Rota, Torre de Babel e Fragmentação.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-4717266219008380989</id><published>2010-04-08T20:09:00.003-03:00</published><updated>2010-08-05T20:25:15.348-03:00</updated><title type='text'>As Certezas dos Conservadores.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Conservador. Não me agrada muito o rótulo. Prefiro contra-revolucionário. Depois de tudo o que li sobre o movimento revolucionário não posso deixar de rejeitar a idéia por inteiro. Mas de que tipo de conservadorismo se fala? Em primeiro lugar, atualmente, a palavra foi carregada de toda uma pesada carga pejorativa. Lembra atraso, mal-gosto, decrepitude, chatice.  Os conservadores não vencerão se não livrarem o vocábulo desta carga pejorativa. Acho que os escritos de Júlio Lemos  vão exatamente neste sentido: mostrar o conservadorismo de um modo atraente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Muitos também sentem um certo asco pelo conservadorismo por confundi-lo com conformismo e estagnação (&lt;em&gt;lessaiz-faire, lessaiz-passer&lt;/em&gt;). Temem o tédio e o caruncho dos móveis velhos.  Mas não precisa ser assim. Os conservadores que lutaram contra os totalitarismos do século XX eram ativistas, não-conformistas. Lech Walessa na Polônia, Vaclav Klaus na Tchecoslováquia combatiam um movimento revolucionário cristalizado num regime ditatorial em nome de valores muito mais antigos. No caso concreto, sua ação não visava conservar, mas restaurar. Winston Churchill também era um conservador se opondo ao movimento revolucionário nacional-socialista, sobrepondo-se ao conformismo de muitos de seus compatriotas. No meio da década de 1930, já propunha uma intervenção armada contra os nazistas que poderia quebrar a espinha dorsal do Terceiro Reich rapidamente, evitando as catástrofes da Segunda Grande Guerra e do Holocausto. Gary Casparov na Rússia de hoje, atuando contra os resquícios e as retomadas do autoritarismo soviético no governo Putin também é um conservador. O conservador pode, portanto, assumir uma postura ativa e transformadora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Também não se deve confundir o bom conservador com o cultor fetichista das formas arcaicas. Este é um risco que todos os conservadores correm de fato. É preciso compreeender que os seres humanos vivem uma existência histórica e mutável. Precisamos constantemente de inovações e transformações, não revolucionárias, é claro. Não compreender isto é um vício em que pode cair o conservador. O próprio Cristo não veio para revolucionar radicalmente o judaísmo, mas para transformá-lo. Os que não aceitaram a transformação por ele trazida, sua boa nova, o crucificaram. No Concílio de Antióquia em 49 d. C, Paulo propunha a transformação ao querer expandir o Cristianismo entre os não circuncidados e Pedro queria a continuidade da seita dentro dos limites estritos do povo judeu. Paulo venceu o debate e garantiu o caráter universal do Cristianismo. É preciso, portanto, aceitar as transformações, encarando-as como uma atualização dos valores perenes. A internet, em grupos de discussão e blogs, está cheia de fetichistas da formas arcaicas, como os católicos que defendem o retorno a ritos ou práticas já abandonados, mas não essenciais à religião cristã, os &lt;em&gt;religious freak &lt;/em&gt;(apud Júlio Lemos). Isto vale não apenas em relação a ritos, mas também em relação à moral. O que é pecado e imoral numa época pode não ser em outra. Um intelectual católico conservador, George Bernanos, disse que, numa época de confusão revolucionária, o peso dos pecados é relativizado, ou algo assim? O vício do conservadorismo é, pois, o farisaísmo. É um risco permanente que exige a total atenção do conservador. É muito fácil bater no peito e dizer sou conservador, sou católico tradicional e não perceber que, tal como um personagem no romance Indignação de Philip Roth possa-se, nas atitudes concretas, fazer o papel dos fariseus ou de Pôncio Pilatos enquanto um &lt;em&gt;soi-dissant&lt;/em&gt; ateu, anti-católico ou anti-cristo assume o papel da vítima inocente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Havia um tal Chico Xavier no interior profundo de Minas Gerais. Sua imagem desperta uma profunda antipatia não só entre intelectuais materialistas quanto entre os religiosos católicos ou protestantes, pois lembra algo chinfrim, sem classe, sem consistência intelectual. Charlatão ou cultor de supertições para o materialista; herege que desafia o dogma segundo o qual os mortos não se comunicam com os vivos, para o cristão. Quanto asco deve despertar entre jovens intelectuais guenoniamos do &lt;em&gt;orkut&lt;/em&gt;! Estes pobres espiritistas não conhecem “O Erro Espírita” de René Guenon, quando lerem este livro esmagador vão cair em profundas dúvidas e se coverterão novamente à religião tradicionalista. Mas pensando na vida do sujeito com benevolência e objetividade vemos que era um sujeito extraordinariamente bom, verdadeiramente caridoso, que não ganhou absolutamene nada com a multidão de crentes que o seguiam, ao contrário de muitos pastores e líderes de seitas sincréticas que se tornam bilionários com o dinheiro dos seguidores. Ao que consta, só trouxe o bem aos que o procuravam. E se os mortos não falam com os vivos, seria o diabo que o inspirava? Mas que mal ele fez? Aceita-se que o demônio possa praticar um bem aparente e fugaz para causar um mal a longo prazo. Mas não há vislumbres deste mal no caso do medium. E por que não poderia o Onipotente, agindo de forma estranha e tortuosa ter feito com que o vidente cresse que via espíritos? Ou por que não poderia o Onipotente permitir que excepcionalmente os mortos falassem com ele? Existe um rol &lt;em&gt;numerus clausus&lt;/em&gt; das formas com que Deus pode agir sobre o mundo? Um rol que exclua estas possibilidades que cito? Estão querendo limitar o Onipotente?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-4717266219008380989?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/4717266219008380989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=4717266219008380989' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/4717266219008380989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/4717266219008380989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2010/04/as-certezas-dos-conservadores.html' title='As Certezas dos Conservadores.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-8735347848833864325</id><published>2010-01-21T01:29:00.003-02:00</published><updated>2010-04-06T20:54:05.200-03:00</updated><title type='text'>Polêmicas Religiosas em Tempo de Desgraça</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E diante da hecatombe do Haiti vem de novo o ateu humanista protestar: onde está o Senhor Deus dos desgraçados que permitiu tamanho horror perante os céus? O cônsul branco, por sua vez, atribui a desgraça sem precedentes à macumba difundida no país e é linchado em &lt;em&gt;blogs&lt;/em&gt; conservadores. Mas é um direito seu de cristão pensar assim. Muitos católicos e protestantes vêem uma origem satânica nos cultos e rituais de origem africana. De fato são cultos em que se pode clamar pelo mal alheio. Em algumas variantes enfiam agulhas em bebês. Aí também entra o puritano para sentir um certo alívio ao ver que o mundo não é um caos niilista, mas obedece a regras e que estas regras, uma vez quebradas, acarretam a sanção pesada do ordenamento jurídico divino. E sentem um certo alívio por respeitarem as regras e vêem na tragédia alheia uma confirmação de que não fora em vão viver segundo as regras cristãs; que não fora em vão não fazer macumba, quando o país dos macumbeiros é assolado por um terremoto; que não fora em vão não cometer adultério, quando o marido da vizinha teve cancro depois que traiu a esposa; que não fora em vão não tentar contra a indissolubilidade do casamento, quando aquele herege que largou a mulher foi à falência logo em seguida. Mas muitos puritanos estavam mais preocupados em ganhar dinheiro quando uma velhinha católica morria no desastre em plena missão filantrópica.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-8735347848833864325?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/8735347848833864325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=8735347848833864325' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/8735347848833864325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/8735347848833864325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2010/01/polemicas-religiosas-em-tempo-de.html' title='Polêmicas Religiosas em Tempo de Desgraça'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-8758721886869260974</id><published>2009-08-08T22:05:00.013-03:00</published><updated>2010-08-10T21:33:27.379-03:00</updated><title type='text'>"Indignação ou a Crucificação do Ateu."</title><content type='html'>No vigésimo nono romance de Philip Roth, "Indignação" (2008), Marcus Messner é um jovem de 19 anos, filho de um açougueiro judeu e verdadeiramente apaixonado pelos estudos que começa a realizar o sonho de ser o primeiro em sua família a obter um diploma de ensino superior, no início da década de Elvis Presley e James Dean, enquanto seu país, ainda sob os efeitos do trauma da grande hecatombe de 1939-1945, se envolve em uma nova deflagração na Coréia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcus é filho único. Seu pai é um açougueiro kosher que trabalha com seu pai humildemente, embora sinta alguma repulsa pelo trabalho no açougue. Aos 19 anos, finalmente ingressa na Universidade de sua cidade, a Robert Treat de Newark, no estado de New Jersey. Seu interesse são as Humanidades, mas lá não permanecerá por muito tempo, devido à vigilância e às interferências excessivas de seu pai que, desde o dia em que começou seus estudos superiores, passou a temer por sua morte. O medo era em parte razoável: os Estados Unidos estavam enfrentando Guerra na Coréia e Marcus, devido à idade, poderia ser enviado coercitivamente como soldado ao campo de batalha, repetindo o drama de seus dois tios, mortos na Segunda Guerra Mundial. Mas havia também algo de irracional e premonitório no medo um tanto paranóico do pai de Mesner. Insatisfeito, pois, com o comportamento do pai, Mesner se transfere para uma Universidade do Meio-Oeste, a pequena, tradicional e puritana Winesburg, destinada a formar profissionais liberais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Winesburg é destinado ao quarto de alojamento de um aspirante a ator, o boêmio Bertrand Flusser, homossexual e louco por promover escândalos naquele meio fortemente puritano. Marcus era um rapaz atipicamente disciplinado devido às sua origens e verdadeiramente apaixonado pelos estudos, de modo que a companhia do pequeno artista acima do bem e do mal que ouvia Beethoven em alto volume enquanto Marcus queria dormir começou a incomodá-lo. A convivência se tornou insuportável a partir do momento em que Marcus quebrou um disco de Flusser, mas enquanto incomodado preferiu se retirar. Foi viver no quarto de um rapaz sério, estudioso, taciturno, mas de caráter mesquinho chamado Elwyn Ayers Jr. Neste ínterim, tem dois encontros fundamentais, mas fatais em sua trajetória: com Olívia, uma jovem desencontrada, que tivera problemas com alcoolismo e tentara suicídio e Sony Cloter, o protótipo do rapaz saudável, bem relacionado, de família tradicional, vocacionado para a liderança e destinado a ser o continuador vigoroso de uma tradição, mas de caráter duvidoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcus se apaixona rapidamente por Olívia que já no primeiro encontro, no carro emprestado de Elwyn, o premia com uma inesperada felação. O rapaz, vivendo nos estertores de uma era de repressão sexual, fica espantado com a ousadia da moça e conta sua aventura a um aborrecido e desinteressado Elwyn que chama a garota de vagabunda. Marcus indigna-se com a ofensa à garota, diz um “vá se foder” ao rapaz e recebe em troca um soco no rosto. Mais uma vez, sem querer causar mais problemas, se retira e vai viver sozinho num quarto individual no pior alojamento da Universidade. Enquanto troca cartas apaixonadas com Olívia que lhe encanta apesar de ser seu completo oposto: desequilibrada, vinda de uma família rica, dada a vícios e já com um currículo considerável de experiências sexuais (Marcus morrerá virgem), Sonny Clother tenta convencê-lo obstinadamente a entrar em sua fraternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fraternidades seriam o equivalente aos Diretórios Acadêmicos, Centros Acadêmicos, Círculos Bíblicos Universitários e comunidades congêneres das Universidades brasileiras. Haviam fraternidades para todos os gostos, das religiosas às laicas, o que não havia eram alunos independentes e solitários como Mesner que se recusavam intransigentemente a integrar uma fraternidade. Mas a pressão pelo engajamento nas fraternidades era muito forte. O interesse único de Mesner naquela Universidade eram os estudos. Tudo o que queria fazer era dedicar todo seu tempo aos estudos preparatórios para o Curso de Direito e ao trabalho a que é obrigado para ajudar a custear seus estudos, mas de todos os lados é pressionado para integrar-se a uma fraternidade: pelos colegas, pelas fraternidades, pelo diretor de alunos da Universidade e por seu próprio pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sony, o aparente bom rapaz da Universidade, surpreende Marcus duas vezes: a primeira ao revelar que Olívia também lhe presenteara com sexo oral e que os dois não eram os únicos beneficiados e a segunda ao revelar-lhe que não comparecia aos sermões religiosos obrigatórios, pagando alguém para ir em seu lugar e assinar seu nome fraudulentamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sermões são um dos motivos da indignação de Mesner. Ele era um ateu incauto numa Universidade confessional puritanta. Seu ateísmo era derivado de seus estudos: lera muito Bertrand Russel, célebre filósofo ateu e fora convencido pelos seus argumentos expostos no conhecido ensaio “Por que não sou um cristão.” Mesner também sente simpatias pelo comunismo e o vê como uma alternativa libertadora para aquele claustrofóbico meio puritano. Treda ilusão e ironia cruel: acabaria morto pelas mãos dos comunistas asiáticos cujos hinos entoava mentalmente durantes os sermões religiosos e as inquirições do diretor de alunos. O ateísmo de Mesner se torna um problema grave quando é chamado à sala do diretor de alunos para ser interrogado. O diretor estava preocupado com o comportamento arredio de Mesner. Incomodava-o que o aluno fosse tão solitário e independente, que não se entendesse bem com os colegas e que não aceitasse ser incorporado a uma fraternidade. A conversa constitui um dos pontos culminantes da narrativa. A sinceridade de Mesner é irrepreensível e ele não consegue deixar de manifestar sua indignação com os sermões obrigatórios. O ateísmo de Mesner é sincero, é um ateísmo de quem não consegue, com as ferramentas cognitivas de que dispõe, conceber a idéia de Deus e das religiões. Mesner não era ateu porque queria e não ficava satisfeito com que rebatessem seus argumentos ateus com um simples “Não. Você está errado. Bertande Russel está errado e pronto.” Mesner queria contra-argumentos e o diretor não podia dá-los. A discussão cresce até que Mesner vomita na sala do diretor: tivera um ataque de apendicite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No hospital, recebe a visita da mãe e de Olívia. A mãe conta-lhe que o pai está à beira da loucura com medo da morte de Marcus, que mudara completamente seu comportamento se tornando um homem furioso no trânsito e insuportável em casa. Tem desejos homicidas em relação ao marido e pensa em divórcio. Ao mesmo tempo sente repulsa por Olívia, após perceber as cicatrizes em seu pulso, sinais óbvios de tentativa de suicídio. Teme que Marcus seja levado à perdição por ela. Ao final, chegam a um acordo: Marcus abandona Olívia e ela permanece com o marido. Em seguida, um torvelino de acontecimentos estranhos terminam no desastre de Mesner. Olívia desaparece e a Universidade é tomada por uma baderna boêmia de estudantes: o histórico “ataque às calcinhas.” Tudo começou com uma despretensiosa brincadeira de alunos que termina numa baderna generalizada no campus. Elwyn morre num acidente de carro em meio a tudo aquilo e Mesner cai no erro de seguir os conselhos do admirável Sony Cloter: aceita fraudar o comparecimento aos sermões, selando seu destino. A farsa fora descoberta, Mesner expuso da Universidade e abocanhado pelo Exército. Seu destino foi a Coréia onde teve a sua sepultura, confirmando as terríveis premonições de seu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesner foi aniquilado pela própria comunidade. Não podiam suportar seu espírito arredio, sua independência e sua individualidade forte. Não queria integrar-se às fraternidades, só queria estudar, ser o primeiro formado de sua pobre família judia, mas isto despertou a indignação dos estudantes integrados às fraternidades e do próprio diretor da Universidade: “como podia não querer se integrar.” O diretor de sua Universidade encarnava o espírito puritano de controle sufocante da vida privada - o mesmo espírito que guiava John Winthrop na sua tentativa de erguimento de uma teocracia protestante na América - e Mesner, inexperiente, não soube jogar com a situação. Sua sinceridade o condenou. Uma condenação indireta e discreta à morte. No fundo, fora o ateísmo de Mesner a razão de sua condenação. Acreditava sinceramente nos argumentos contra-religiosos de Bertand Russel e ninguém na Universidade tinha competência para demonstrar-lhe os erros do filósofo de Cambridge. Tal como o motivo dominante da condenação de Mersault à morte foi o fato de não ter chorado no velório da própria mãe, o motivo da condenação de Mesner a servir na guerra foi o seu ateísmo, insuportável naquela Universidade puritana de Ohio. Aliás, o simples fato de ser judeu já incomodava o diretor. Os argumentos de Russel são facilmente rebatidos por um teólogo ou filósofo e o diretor, de fato, tinha razão em sua opinião negativa a respeito de Bertand Russel, mas não podia convencer um espírito investigativo e verdadeiramente interessado em conhecer acima de tudo como erro de Mesner com um simples “não! Isto está errado. Bertand Russel está errado! O ateísmo não se sustenta.” Mesner, repita-se, queria argumentos e ninguém ali naquele meio de medíocres e timoratos podia dá-los, pois ninguém tivera coragem suficiente para questionar as próprias crenças e a tradição em que estavam integrados. O diretor deu-lhe chances de se retratar, tal como Henrique VIII fizera com São Thomas Morus, mas o jovem se rejeitou a curvar-se, mandou o diretor “se foder” e assinou sua própria sentença de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro ao fim nos conduz inevitavelmente ao seguinte pensamento: é incerto e talvez impossível dizer-se com plena certeza quem, numa situação histórica concreta, representará de novo o papel da vítima inocente, do Cristo, e quem fará as vezes de Caifás e companhia. Nem é preciso dizer que muitas vezes serão os próprios cristãos os promotores do sacrifício da vítima inocente. Neste último romance de Philip Roth, é o pobre judeu-ateusinho quem é pego para Cristo pelos professores e alunos cristãos de um meio puritano decadente. Mas ninguém passa por Caifás ou por Pilatos com consciência: simplesmente eles não sabem o que fazem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-8758721886869260974?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/8758721886869260974/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=8758721886869260974' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/8758721886869260974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/8758721886869260974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2009/08/indignacao-ou-crucificacao-do-ateu.html' title='&quot;Indignação ou a Crucificação do Ateu.&quot;'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-6598615931191873776</id><published>2009-06-20T20:09:00.003-03:00</published><updated>2009-06-20T20:15:20.530-03:00</updated><title type='text'>MERGULHANDO NO OCEANO DO MISTÉRIO</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Antes era a busca de certezas e segurança o principal motivo do todo estudo. Atormentado pelo pesadelo do relativismo buscava o solo firme das certezas metafísicas absolutas, o ponto arquimédico, a verdade apodítica. A partir deste solo firme e eterno eu poderia construir um sistema de verdades subordinadas e o fundamento último e indisputável para as regras morais que eu deveria seguir e defender, bem como dos sistemas políticos pelos quais eu deveria lutar. O Direito Natural parecia ser este solo firme da Ética e do Direito. Depois me pareceu não ser suficiente. Neste esforço creio ter encontrado algumas certezas firmes, eternas, absolutas e indisputáveis e só um doente acometido de desconfiança patológica não poderia reconhecê-las.&lt;br /&gt;Depois veio uma espécie de mal-estar ou tédio. O tédio de já saber demais. Se já sabemos tudo, para que estudar mais? O sentimento de Vladimir e Estragon no deserto: "e agora, não há mais nada para fazer..." O sentimento decepcionante da aposentadoria precoce. É óbvio que este sentimento não é senão um sintoma de uma neurose muito grave, derivada de uma megalomania cognitiva. Não se pode conhecer sequer um mísero objeto, um grão de areia in totum. Apenas um grão de areia guarda mais mistérios do que sonha a nossa vã filosofia. Somos um grão de areia num universo de ignorância. E o Universo é finito, um grão de areia dentro da infinitude metafísica. Mas aquele sentimento de tédio por saber demais, como dizia, era sintoma de uma megalomania consistente na ilusão da onisciência, disfarçada por concessões da boca para fora a questões ainda não bem estudadas e arestas ainda não muito bem aparadas. Então eu pensava que tinha estabelecido um pequeno núcleo de verdades a partir das quais poderia chegar a todas as respostas. Mas isto não era possível. Na verdade, o sentimento de tédio era um alarme de meu subconsciente: eu ainda tinha um oceano sem fim de conhecimentos por navegar e estava parado, satisfeito com os poucos metros que navegara. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Deste ponto, comecei a me interessar não por certezas, mas por teses que as contradissessem; não por novos e novos argumentos que reforçassem o que eu tinha como firme convicção (e o que eu tinha como firme precisava de mais reforços, hoje eu sei), mas por mais dúvidas, por perspectivas novas, por novas abordagens, novos horizontes, resgates de idéias esquecidas ou abandonadas injustamente, revisões do que eu já tinha revisto mil vezes (e a cada vez que eu revia, uma nuance nova se revelava). Assim o infinito de minha ignorância foi se descortinando aos meus olhos, mas já não me metia medo, mas alívio, prazer, contentamento, pois eu estava sendo retirado de um bunker sufocante em que me metera na busca de certezas infinitas e eternas e que eu acabei por ter a ilusão de ser todo o Universo. Não caí no erro infantil do relativismo gnosiológico novamente, ou do agnosticismo, apenas acordei de um sonho de onipotência e me tornei mais consciente da realidade. Este sentimento de alívio ou de renovação, foi o sentimento do início do século XX, quando caíram em parte o cientificismo e o positivismo então reinantes, com o advento da física quântica e da teoria da relatividade. Ortega y Gasset, numa esplêndida comparação, iguala o sentimento rejuvenescedor da época ao alvoroço das crianças quando acaba a aula e se abrem os portões da escola.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt; Ampliei um pouco o conhecimento da vastidão de minha ignorância.  E a ampliação do conhecimento da vastidão da própria ignorância é uma tremenda ampliação do universo do nosso conhecimento. Ainda hoje me interesso mais por novas dúvidas, do que por certezas. E espero assim prosseguir pelo resto da vida. Assim, se tornou mais rico para mim o sentido de duas frases já quase folclóricas: “as convicções são cárceres” (Nietzsche) e “a única conclusão é morrer.” (Fernando Pessoa). Mas não desistirei de certas convicções: de algum modo eu estou aqui e agora com absoluta certeza; a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa em qualquer lugar do Universo e mesmo além, por toda a Eternidade e a despeito da vontade de Deus e a teoria da mais valia está errada por todo sempre e pelos séculos dos séculos, amém!&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-6598615931191873776?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/6598615931191873776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=6598615931191873776' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6598615931191873776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6598615931191873776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2009/06/mergulhando-no-oceano-do-misterio.html' title='MERGULHANDO NO OCEANO DO MISTÉRIO'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-3093459492269632766</id><published>2009-06-04T20:12:00.002-03:00</published><updated>2009-06-04T20:17:36.973-03:00</updated><title type='text'>NOVAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTETICISMO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em sua obra “Gomorra” (2008) o escritor jurado de morte Roberto Saviano relata que os &lt;em&gt;boss &lt;/em&gt;da máfia italiana só passaram a ser chamados de “padrinhos” após o sucesso do filme &lt;em&gt;Godfather&lt;/em&gt;, de Francis Ford Copola. Saviano lembra ainda que Al Capone, na década de 1.930 imitava trejeitos de um personagem do filme &lt;em&gt;Scarface&lt;/em&gt; de Howard Hawks, personagem este inspirado no próprio Al Capone. Walter Schiavone, &lt;em&gt;boss&lt;/em&gt; da Camorra nos anos 1.990, fez construir para si uma mansão idêntica à do personagem de Al Pacino na refilmagem de &lt;em&gt;Scarface&lt;/em&gt;, de Brian de Palma. Saviano relata ainda que após o sucesso do filme &lt;em&gt;Pulp&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Fiction&lt;/em&gt;, os &lt;em&gt;killers&lt;/em&gt; da Camorra passaram a atirar com a pistola tombada de lado, imitando os personagens da película, de modo que erravam freqüentemente o órgão vital da vítima, obrigando-se a novos disparos e causando sofrimento inútil. O filme de Quentin Tarantino também inspirou os jovens killers camorristas a repetirem antes de suas execuções a mesma passagem bíblica que o personagem de Samuel L. Jackson diz antes de uma execução:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O caminho do homem de bem é cercado de todos os lados pelas iniqüidades do egoísmo e pela tirania dos homens maus. Abençoados os que, em nome da caridade e boa vontade, conduzem os fracos pelo vale das sombras, pois ele é o guardião de seu irmão e o salvador dos filhos perdidos. E eu vou atacar com vingança e fúria os que tentarem corromper e destruir meus irmãos. E quando minha vingança se abater sobre eles, saberão que eu sou o Senhor.” (Ezequiel, 25, 17).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filmografia de Quentin Tarantino também serviu de inspiração para que as mulheres da máfia usassem roupas idênticas às de Umma Thurman em &lt;em&gt;Kill&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Bill&lt;/em&gt;. Estes relatos me lembram de uma conversa minha com um policial civil de Belo Horizonte. A certa altura da tertúlia o meganha deixou escapar a pérola: “Em B.H., o policial ou se omite, ou se corrompe ou vai para a guerra. Eu decidi ir para a guerra.” Não pude conter o riso, pois o sujeito, sem perceber, repetia, ipsis literis, uma frase do filme Tropa de Elite. É notório como os policiais e agentes de seguranças de todo o país começaram a imitar frases, trejeitos e boinas do Capitão Nascimento naquele filme marcante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto mostra como a arte serve de modelo para a vida. Um clichê inevitável nos vêm à mente: uma imita a outra e vice-versa. De certo modo, ninguém escapa disto: os filmes, livros, músicas, personagens e autores que nos são caros formam o nosso próprio modo de ser no mundo. Daí a preocupação de muitos filósofos morais com a responsabilidade ética dos artistas. A arte induz modelos de comportamento. Grandes ícones da arte geram exércitos de imitadores. Os suicidas do &lt;em&gt;rock’n'roll&lt;/em&gt; certamente inspiraram multidões de suicidas mundo a fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem leve esta imitação muito a sério e viva como o personagem de uma obra de arte, cujos espectadores são seus convivas. Eis aí um dos sintomas do esteticismo segundo o filósofo Mário Vieira de Mello. Em sua obra “Desenvolvimento e Cultura” (1962), Vieira de Mello coloca o esteticismo como o traço marcante de nossa cultura, quando o Princípio Estético se torna independente do Princípio Ético, ou seja, quando a busca das satisfações estéticas deixa de estar subordinada aos princípios éticos. Não se trata de um fenômeno tipicamente brasileiro, pois a autonomização do Princípio Estético se iniciou no Renascimento europeu e se tornou predominante em toda a cultura européia. Mas toda a cultura brasileira, na visão de Vieira de Melo, seria esteticista, pois os dois grandes movimentos culturais que formaram nossa cultura, o Romantismo e o Modernismo eram eminentemente esteticistas. O esteticismo teria marcado de tal modo a nossa cultura que os brasileiros viveriam como que a representar papéis para a platéia de seus circunstantes. Para Vieira de Melo, o “homem cordial” de “Sérgio Buarque de Holanda não se explica pela bondade natural do brasileiro, mas pelo seu esteticismo peculiar que consiste em se  ‘sentir num palco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o livro “A Sagração da Primavera” (1987) de Modris Eksteins versa sobre o esteticismo. O autor identifica a Alemanha como “a nação modernista par excllence de nosso século” e a causadora das duas guerras mundiais. O que teria levado a Alemanha à guerra não eram motivos pragmáticos, mas uma certa estetização da guerra misturada a um espírito apocalíptico. Os próprios motivos alegados por seus dirigentes políticos para iniciar a guerra eram evasivos, vagos, poéticos por assim dizer. Lutava-se pela “cultura alemã”, por sua “superioridade moral”. A explicação do materialismo dialético para  a Primeira Guerra Mundial mostra-se então perfeitamente furada. Os artistas aderiram à causa da guerra com um entusiasmo furioso. O próprio Hitler era um artista frustrado que, quando rebentou a deflagração, entrou em estado de êxtase. Lutou bravamente e tornou-se herói. O autor destaca todo o caráter teatral de Hitler e do nazismo. Segundo Eksteins, “ele [Hitler] se considerava a encarnação do tirano-artista que Nietzshce havia preconizado, o executor da “ditadura do gênio” pela qual Wagner suspirava. Ao tratar da política externa, vangloriava-se de ser ‘o maior ator de toda a Europa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nazismo sob o enfoque de Eksteins é a intrusão do irresponsável espírito esteticista na política. O resultado é o desastre. Primeiro porque o esteticismo, nos termos de Vieira de Melo, é a autonomização do belo (ou do falso belo, do kitsch, que não é mais do que o belo dos homens de mal-gosto) em relação aos princípios éticos. Daí a abertura para o gozo estético da crueldade, da tirania e da destruição (lembro-me de um artista de uma banda de rock’n’roll comentando uma música do &lt;em&gt;The&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Doors&lt;/em&gt;, algo mais ou menos assim: ela une as duas coisas mais amo na vida: beleza e destruição – é lindamente destrutiva). Em segundo lugar, porque o deus da política, assim como o deus dos negócios não é Dionísio, mas Apolo. A política responsável tem mais a ver com cálculo, método, com prudência, com racionalidade. Hitler nada tinha de metódico, de calculista e este foi um dos grandes motivos para a sua derrota: “Parecia [Hitler] congenitamente incapaz de uma rotina de trabalho metódica. Era famoso por faltar a compromissos, por tratar a papelada de modo desleixado e por trabalhar em horas inusitadas – ficando acordado até o amanhecer e dormindo até tarde -, o que deixava esgotado o seu círculo mais íntimo. Também se atribuía esse estilo, como o cabelo rebelde caído na testa, ao artista que havia nele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antípoda da Alemanha era a Inglaterra, e de Hitler, Winston Churchill. De um lado, os esteticistas alemães, de outro os fleumáticos ingleses. De um lado, irresponsabilidade, vanguardismo, imprecisão. De outro, responsabilidade, tradicionalismo, cálculo. Freqüentemente, os esteticistas do século XX condensavam todo o seu ódio aos prudentes, calculistas e tradicionalistas na palavra-xingamento “burguês”. Burguês se tornou símbolo de tudo o que se opunha à sua sanha revolucionário-esteticista, e não apenas o que era típico de uma determinada classe social. Na perspectiva de Eksteins, as duas guerras podem ser definidas como guerras entre nações predominantemente “esteticistas” e nações predominantemente “burguesas”. Eksteins afirma que “o nosso século é um período no qual a vida e a arte se misturaram, na qual a existência se tornou estetizada.”  No plano histórico a reação a isto veio das nações anglo-saxônicas, personificadas pelo sisudo e fleumático Winston Churchill.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor que sentiu agudamente este conflito entre o espírito “esteticista” e o espírito “burguês” e talvez tenha vivido neste conflito foi Herman Hesse. O seu “Lobo da Estepe”, Harry Haller, define-se como um homem ambiguamente atraído pela vida boêmia e pela vida burguesa. É um notívago inteiramente dedicado à arte que bebe todos os dias, fuma muito e vive sozinho num catre bagunçado, mas que, quando passa defronte da casa burguesa e impecavelmente bem cuidada de seu senhorio sente-se atraído pela limpeza, pela sisudez , organização e paz daquele ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conflito entre o espírito “esteticista” e o espírito “burguês” ainda é muito vivo em nossos tempos, convivendo com muitos outros “espíritos”, nesta era de fragmentação e coexistência de ethos os mais diversificados e contraditórios. Muitos de nós, nos dias atuais, ainda vivemos neste conflito, acendendo uma vela ao deu Apolo e outra ao deus Dionísio. Entregando-nos a divertimentos desvairados e depois voltando à normalidade dos nossos lares e escritórios. Cedendo à tentação da orgia como o personagem de Tom Cruise no último filme de Kubrik, mas depois voltando cheios de remorsos para a normalidade de nossas vidas “burguesas”, ao lado de nossas esposas, filhos e famílias normais. Depois cedemos novamente à tentação dionisíaca e o ciclo vicioso se repete indefinidamente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-3093459492269632766?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/3093459492269632766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=3093459492269632766' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3093459492269632766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3093459492269632766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2009/06/novas-consideracoes-sobre-o-esteticismo.html' title='NOVAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTETICISMO'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-6892186996723241839</id><published>2009-02-19T20:54:00.001-03:00</published><updated>2009-02-19T20:56:35.538-03:00</updated><title type='text'>O Mundo e Suas Etranhas Coincidências 2</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nos idos de 1830, Schopenhauer teve um sonho que considerou um mau presságio e deixou Berlim. Pouco depois uma epidemia de cólera assolou a cidade e matou Hegel, seu maior adversário intelectual. Meira Penna faz pilhéria do caso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conta-se que, em 1830, [Schopenhauer] fugiu de Berlim em virtude de um sonho que considerou profético. Escapou assim de uma epidemia de cólera, enquanto Hegel, acreditando que o real é racional, não registrou sonho algum, não tomou providências, não abandonou Berlim e morreu por foca da realidade insofismável da mesma epidemia...” (Polemos, 2006, pág. 67).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aparições da Virgem Maria em Fátima guardam uma íntima relação com a Revolução Russa. A última aparição ocorre no mês de outubro de 1.917, exatamente o mês da Revolução Bolchevique. A virgem pedia a conversão da Rússia, caso contrário esta nação espalharia seus erros pelo mundo. E espalhou. Todas as suas profecias foram confirmadas pela história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jung analisava uma paciente que tinha sonhos recorrentes com um besouro dourado. No meio da sessão chamou-lhe a atenção um barulho na vidraça de seu consultório: era uma joaninha dourada, muito rara, não encontradiça no local. O episódio era um exemplo de seu próprio conceito de sincronicidade, por ele definida como “uma ocorrência simultânea de um estado psicológico com um ou mais eventos externos que parecem ser paralelos significativos do estado subjetivo momentâneo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sincronicidade para Jung não é mera coincidência de eventos: um laço desconhecido liga “um estado psicológico” a “um evento externo”. Digo laço desconhecido pois as sincronicidades existem mas permanecem um mistério. Existem diversas teorias explicativas, mas qual seria a correta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sincronicida é que dá fundamento à astrologia. Stanislav Groff, discípulo de Jung e um dos pioneiros das pesquisas sobre os efeitos do LSD sobre a psique humana, observou ao longo de suas pesquisas e de sua prática psiquiátrica um número formidável de sincronicidades que pela lei das probabilidades não podem ser tratadas como meras coincidências. O biólogo Rupert Sheldrake é outro estudioso das sincronicidades da natureza sob uma perspectiva própria, tendo criado uma teoria explicativa para o fenômeno: a teoria dos campos mórficos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem tudo o que reluz é ouro. Em seu livro “Quando o Impossível Acontece”, Stanislav Groff narra uma série de coincidências interessantes que o levaram a crer ter encontrado a mulher de sua vida. Casou-se na Islândia, num ritual estranho. Pouco depois da cerimônia acordou sombrio e deprimido: era o presságio de que algo errado estava por vir. Pois bem, seu casamento foi um fracasso e se divorciou pouco depois. Assim ele avalia o caso:&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“A aventura na Islândia foi uma experiência fascinante envolvendo as energias arquetípicas que irrompem na vida cotidiana e criam sincronicidades surpreendentes. Entretanto, ela me ensinou uma lição importante.Eu aprendi a não confiar incondicionalmente no pode sedutor dessas experiências e no encantamento e aumento do ego que criam. As sensações de êxtase associadas com a emergência de forças aquetípicas não garante um resultado positivo. É essencial evitar agir enquanto ainda estamos sob seu encantamento e não tomar decisões importantes até estarmos com os dois pés no chão” (Quanto o Impossível Acontece, 2006, pág. 49).”&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-6892186996723241839?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/6892186996723241839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=6892186996723241839' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6892186996723241839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6892186996723241839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2009/02/o-mundo-e-suas-etranhas-coincidencias-2.html' title='O Mundo e Suas Etranhas Coincidências 2'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-5805109607329861507</id><published>2009-02-04T20:25:00.006-02:00</published><updated>2009-02-04T21:56:09.104-02:00</updated><title type='text'>O MUNDO E SUAS ESTRANHAS COINCIDÊNCIAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O &lt;em&gt;White Álbum&lt;/em&gt; é o melhor disco dos Beatles. Foi concebido após o período em que o grupo esteve na Índia aprendendo meditação transcendental com o Maharish e é inspirado nas experiências daquela excursão. A temporada de meditação terminou quando os Lennon e Harrison perceberam que o iluminado guru estava tentando ter relações sexuais com uma das moças da &lt;em&gt;entourage&lt;/em&gt;, a atriz Mia Ferrow. “Ele quebrou as regras e fez a todos de bobos”, Maharish, o “sádico do sexo”, diz uma das mais belas músicas do disco. Mia Ferrow naquele ano estrelaria o filme “O Bebê de Rosemery”, uma narrativa em que a personagem principal se vê envolvida numa trama diabólica para parir o filho de Satanás. Enquanto isto, num acampamento de &lt;em&gt;hippies&lt;/em&gt; da Califórnia, Charles Menson, também influenciado pelo "orientalismo pop", recebia o &lt;em&gt;White Álbum&lt;/em&gt; como uma revelação pessoal. O disco, no seu entender, trazia oculta uma mensagem apocalíptica: ele deveria iniciar uma luta fratricida brutal entre os negros e os brancos de todo o mundo ao fim da qual os negros venceriam e o entronizariam como seu imperador. Para tanto, deveria assassinar uma série de pessoas brancas e lançar a culpa sobre os negros. Num de seus crimes, em 1969, mandou assassinar brutalmente a atriz Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, diretor do filme o “Bebê de Rosimere”, estrelado por Mia Ferrow que esteve com os Beatles na excursão à Índia. Curiosamente, Sharon esperava um bebê. Aquela história daria um filme sinistro: “O Bebê de Sharon Tate.” O Maharish morreu em 2008, exatamente quarenta anos depois da fatídica excursão que engendrou o White Álbum, um disco cujo título, por suas conseqüências macabras indesejadas, soa irônico, eis que melhor lhe caberia o nome de &lt;em&gt;Blood Álbum&lt;/em&gt;. Estranhas coincidências.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.: Uma das vítimas de Manson chamava-se Rosemary.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-5805109607329861507?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/5805109607329861507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=5805109607329861507' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5805109607329861507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5805109607329861507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2009/02/o-white-album-e-o-melhor-disco-dos.html' title='O MUNDO E SUAS ESTRANHAS COINCIDÊNCIAS'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-7770592079489181551</id><published>2008-12-31T00:21:00.007-02:00</published><updated>2009-02-04T21:07:01.175-02:00</updated><title type='text'>Breve Anotação sobre O Leilão do Lote 49</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Se fosse para dizer uma platitude, diria que O Leilão do Lote 49 retrata como nenhum outro romance o clima de loucura dos anos 1960. Em parte é uma excelente sátira dos costumes e do&lt;em&gt; zeigeist&lt;/em&gt; de seu tempo. Satiriza as bandas de rock - então uma recentíssima invenção que veio para ficar - com os “O Paranóicos” e a música “Eu quero beijar teus pés”, paródia óbvia de “&lt;em&gt;I wanna hold your hand&lt;/em&gt;” dos Beatles; o consumo de drogas: estão lá a heroína e, claro, o LSD; a televisão; a indústria bélica; a nascente indústria informática e as terapias psiquiátricas que mais enlouquecem do que curam (Hilarius, o psiquiatra da personagem principal cria uma técnica calcada em horrendas caretas para chocar seus pacientes). &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o Leilão do Lote 49 é mais que uma sátira de seu tempo, é uma sátira da complexa ciência moderna, com a invenção do Demônio de Maxwell, utilizado pelo cientista John Nefastis para criar a inútil máquina de Nefastis, a qual funciona quando um sensitivo olha para o retrato de Maxwell nela colado. É também uma sátira do teatro de Shakespeare e das teorias históricas que buscam encontrar elos secretos entre instituições do presentes e fatos, homens e acontecimentos de uma passado histórico remoto. Pynchon conheceria Éric Voegelin?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tradição literária, “O Leilão do Lote 49” inegavelmente tem ascendência kafkiana. Suas primeiras linhas já parodiam “A Metamorfose”: a personagem principal logo de entrada é lançada numa situação absurda que só se amplia como em “O Processo” e que se não termina de forma fatal para a personagem como nesta última obra, não dá a ela a porta de saída do absurdo. A personagem não acorda do pesadelo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O romance também se insere na linha das narrativas absurdas, juntamente com as de Ionesco e de Becket que, num certo sentido, são narrativas essencialmente religiosas. A minha hipótese interpretativa é a de que O Leilão do Lote 49, assim como os romances kafkianos, deve ser entendido como um romance religioso, pois o absurdo em literatura parece ser a metáfora do Mistério, componente essencial de toda religião. Na religião cristã temos o exemplo do mistério da Santíssima Trindade que nos remete à célebre lenda em que uma criança diz a Santo Agostinho que era mais fácil ela preencher um buraco na areia com toda a água do oceano do que ele compreender a santíssima trindade. E nem Jesus Cristo estava livre do Mistério, pois dizia que o dia e a hora em que seu Pai poria fim ao mundo era um mistério só a ele reservado. As indagações religiosas são respondidas apenas até um certo ponto, até um &lt;em&gt;nom plus ultra&lt;/em&gt; a que se dá o nome de Mistério e que se confunde, arrisco-me a dizer com a Vontade de Deus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O sentido último de toda a existência é um mistério (o que não quer dizer que não exista como querem os niilistas) e saber disto é como viver numa narrativa absurda. Despertar para isto é se ver envolvido numa trama absurda como a do Leilão do Lote 49. Quem comanda tudo isto? Qual é o sentido de toda a história? Qual é o objetivo? Só nos deixam sinais, como a trompa postal que Edipa vê por toda a parte e a misteriosa história do Tristero. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-7770592079489181551?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/7770592079489181551/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=7770592079489181551' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7770592079489181551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7770592079489181551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/12/breve-anotao-sobre-o-leilo-do-lote-49.html' title='Breve Anotação sobre O Leilão do Lote 49'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-2711489377433011429</id><published>2008-12-17T21:09:00.006-02:00</published><updated>2008-12-17T21:26:29.468-02:00</updated><title type='text'>Transtorno Bipolar e os Puritanos Scurvhamitas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ainda vou entender o mecanismo interno da constante alternação euforia/tédio. Há dias em que todas as coisas aparecem recobertas de uma aura de prazer e fascínio e há outros em que as mesmíssimas coisas só transmitem emanações de aborrecimento. Não raro sobrevém a pergunta: por que mesmo eu achava aquilo bom, ou por que mesmo me parecia ruim? Transtorno bipolar? O problema, obviamente não está nas coisas, mas em nós. O prazer e o tédio das coisas são projeções de nossa alma. Há uma linha muito tênue a dividir a euforia da depressão, o céu do inferno. A queda pode ser repentina e surpreendente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*** &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Homens auto-condenados ao inferno. Apaixonados pela perdição, fascinados pelo mal, que conscientemente se deixam perder para sempre. Existem. Penso em Mersault, e no personagem de Clint Eastwood em Os Intocáveis, ou no Marquês de Sade do filme. Sid Vicious? "&lt;em&gt;Cancel my subscreption to the ressurrection. Send my credentials to the house of detention" &lt;/em&gt;(Jim Morrison). É triste. Certa feita, imaginei como seria alguém com o poder de prever o destino de uma alma. Joseph Fritzel teria salvação? Não dá para olhar para ele e não imaginar que é uma alma condenada. Está preso. Da prisão humana pode seguir direto para a prisão eterna. Thomas Pynchon faz troça desta espécie:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;"No reino de Carlos I, Roberto Scurvham fundara uma seita que reunia os mais puros puritanos. Preocupavam-se em especial com a predestinação. Havia dois tipos. Nada para um scurvhamita jamais aconteria por acaso, a Criação era uma vasta e intricada máquina. Mas uma parte dela, a parte scurvhamita, funcionava de acordo com a vontade de Deus, sua forá motriz. O resto funcionava segundo um Princípio oposto, algo cego e sem alma, num automatismo irracional que conduzia à morte eterna. A idéia consistia em atrair novos adeptos para a divina e predestinada confraria dos scurvhamitas. Mas, sabe-se lá como, aqueles poucos scrvhamitas salvos da perdição contemplavam a reluzente maquinaria dos condenados com um misto de fascinação mórbida e horror, e isso se provou fatal. Um por um foram seduzidos pela perspectiva deslumbrande do aniquilamento, até que náo sobrou ninguém na seita. O próprio Roberto Scurham, como comandante de navio, foi o último a abandoná-la."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(O Leilão do Lote 49, pags. 140 e 141. Editora Cia. das Letras. Tradução de Iorio Dauster).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-2711489377433011429?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/2711489377433011429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=2711489377433011429' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2711489377433011429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2711489377433011429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/12/transtorno-bipolar-e-os-puritanos.html' title='Transtorno Bipolar e os Puritanos Scurvhamitas'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-2847503189034321806</id><published>2008-11-11T19:08:00.007-02:00</published><updated>2008-11-12T21:42:39.134-02:00</updated><title type='text'>A Neuroquímica do Ennui Pascaliano</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SRto4sdSKfI/AAAAAAAAAF4/nwelwgNjhzU/s1600-h/Pink-Floyd---The-Wall-2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5267919512355875314" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 215px; CURSOR: hand; HEIGHT: 139px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SRto4sdSKfI/AAAAAAAAAF4/nwelwgNjhzU/s400/Pink-Floyd---The-Wall-2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A propósito da leitura de páginas lúgubres de "Polemos", obra de José Osvaldo de Meira Penna.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lia com gosto coisas sobre o &lt;em&gt;ennui&lt;/em&gt; pascaliano, o desespero kierkegaadiano, o “&lt;em&gt;life is but a walking shadow&lt;/em&gt;” shakespeareano, o “Esperando Godot” de Beckett. Coisas que fizeram muita gente de cabeça fraca dar um "&lt;em&gt;adieu monde terrible&lt;/em&gt;", um "&lt;em&gt;goodbye cruel world&lt;/em&gt;" (The Wall: 1979). Um dia experimentei levemente estes sentimentos e não foi nada agradável. Foi então que a diferença do mundo como idéia e o mundo como mundo (&lt;em&gt;insigh&lt;/em&gt;t de Bruno Tolentino) se tornou mais clara para mim. Que não volte nunca mais. Não quero ser infeliz e depressivo como Kierkegaard e Pascal, por mais heróico que isto seja ou ficar louco como Nietzsche - o que é ridículo. Prefiro até viver como o &lt;em&gt;bon-vivant&lt;/em&gt; mal-caráter que foi Schopenhauer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;***&lt;br /&gt;Mas deste &lt;em&gt;ennui&lt;/em&gt;, desta &lt;em&gt;nausée&lt;/em&gt;, deste sentimento de angústia e falta de sentido podemos ser acometidos mesmo após termos lido Victor Frankl. Isto constatei na prática. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;***&lt;br /&gt;O ennui não pode ser explicado pela neurociência moderna. Não é uma simples questão de distúrbio de neuro-tranmissores, curável com fluoxetina. Dir-se-ia que existisse prozac no tempo de Kierkegaard, ele não teria escrito seu ensaio sobre o desespero humano. Mas por outro lado nem toda depressão tem explicação espiritual, em certos casos é simples problema neuroquímico. Do contrário não teria explicação o fato de pessoas sem espírito caírem em depressão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-2847503189034321806?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/2847503189034321806/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=2847503189034321806' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2847503189034321806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2847503189034321806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/11/neuroqumica-do-ennui-pascaliano.html' title='A Neuroquímica do Ennui Pascaliano'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SRto4sdSKfI/AAAAAAAAAF4/nwelwgNjhzU/s72-c/Pink-Floyd---The-Wall-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-5315688348472234570</id><published>2008-10-14T22:45:00.005-03:00</published><updated>2008-10-14T23:10:03.434-03:00</updated><title type='text'>O ESTRANHO WITTGENSTEIN 2.</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SPVOTXdyk8I/AAAAAAAAAEo/mQI5K9gZ7Is/s1600-h/witt+3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5257194234648368066" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SPVOTXdyk8I/AAAAAAAAAEo/mQI5K9gZ7Is/s400/witt+3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SPVNqboGsiI/AAAAAAAAAEg/SgGFIoL8FNE/s1600-h/witt+2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei nada sobre a filosofia de Wittgenstein (na verdade ninguém a entendeu completamente, diz Paul Johnson), mas é uma das personalidades filosóficas mais fascinantes e estranhas que já passaram pela face da Terra. Leitor voraz da pulp fiction produzida nos Estados Unidos, soldado raso metido em arriscadíssimas operações na Primeira Guerra Mundial, abandonou diversas vezes o cobiçado cargo de professor de Filosofia em Cambridge para se dedicar a humildes atividades braçais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pioneiro “Estranho Wittgenstein” foi um ensaio de Mendo Castro Henriques (1989) publicado pela primeira vez na internet pela lendária Home Page “O Indivíduo (&lt;a href="http://www.oindividuo.com/convidado/mendo.htm"&gt;http://www.oindividuo.com/convidado/mendo.htm&lt;/a&gt;).”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Advirto que o texto abaixo, às vezes, abusa da lisonja hagiológica kitsh, como no trecho em que diz: “Falava com autoridade (como Cristo, conforme muitas vezes se observou)”.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Heroísmo Cerebral: Wittgenstein&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paul Johnson – capítulo do livro “Os Heróis” (Ed. Campus, 2008, tradução de Marcos Santarrita.)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não se espera que os filósofos sejam Heróicos. E raramente são. Mas dois se tornaram heróis por haverem recebido de seguidores, admiradores e opinião pública, em seu campo, esse status. O primeiro foi Sócrates, obrigado pelo Estado a suicidar-se por “corromper a juventude”, e depois transformado em herói por Platão. O segundo foi Ludwig Wittgenstein (1988-1951). Os dois foram egrégios não por acaso. Tinham muita coisa em comum. A maioria dos filósofos tenta construir idéias de um tipo mais ou menos ambicioso, no qual se encontrem quase todos os aspectos da atividade humana. Assim foram, por exemplo, o próprio Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Kant e Hegel; e, mais próximo de nosso tempo, Martin Heidegger. Mas Sócrates e Wittgenstein não aspiraram a construir sistemas. O objetivo deles era ensinar às pessoas a pensar, e a não pensar,e, tendo idéias, explicitá-las em obras precisas. Onde se vêem os construtores de sistemas como positivos, construtivos e criativos, eles dois se sentiam obrigados – não sempre, mas, com freqüência – a ser negativos, destrutivos e contracriativos. Essas tendências os tornavam perigosos, mas também, para os iniciados heróicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez pus os olhos em Wittgenstein, em maio de 1947, quando eu tinha 18 anos e estudava no Magdalen College, em Oxford. Nessa noite realizou-se na escola uma reunião da Sociedade Jowett, e Wittgenstein jantou na mesa dos professores, como convidado de nosso principal professor de filosofia, Gilbert Ryle, então editor de Mind. Eu jantava com dois de meus mentores, muito mais velhos, que haviam servido na guerra e completavam os estudos, Karl Leyser e John Cooper, depois famosos historiadores e professores de All Souls. Quando os catedráticos com um ou dois convidados entraram, Cooper exclamou: “Ora... sabe quem é aquele com Ryle?” “Sei”, disse Leyser. “É Wittgenstein!” Eu jamais ouvira o nome antes, mas era um sujeito promissor, e por isso disse: “Deus dos céu!” Era uma figura impressionante ainda por cima, não muito grande, mas bonitão e de olhos brilhantes, notáveis mesmo de longe. O que me impressionou, porém, foi a camisa de gola aberta. Era o seu traje habitual. Mas eu não sabia disso na época, e pareceu-me extraordinário que alguém jantasse a mesa dos professores sem gravata. O seu uso, e da toga, era obrigatório mesmo no salão onde eu e meus amigos nos sentávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a vida de Wittgenstein foi, do princípio ao fim, egrégia. Nasceu em Viena em 26 de abril de 1889, no mesmo ano que os dois ditadores, Salazar, de Portugal, e Hitler, da Alemanha, e dois artistas populares, Jean Cocteau e Charle Chaplin. Hitler era seis dias mais velho. Wittgenstein vinha de uma família judia, embora batizado. Seu pai, Karl, era um inventivo industrial de espantosos talentos, que se tornara o homem mais rico no negócio de mineração na bacia do Danúbio. Eram 18 filhos, todos talentosos, todos musicais, muito depressivos: dois dos irmãos de Wittgenstein se suicidaram, e ele muitas vezes se sentiu tentado a fazê-lo também. Era o caçula, e mimado. Foi educado em casa, no palácio da família em Viena, até os 14 anos. Uma memória de sua irmã Hermine descreve a precoce juventude do filósofo. Ele fazia, do nada, complexas máquinas. Aos 10 anos, construiu uma máquina de costura com pedaços de metal e madeira, uma Wittgenstein-Singer, que funcionou. Isso foi visto com ódio e medo pela costureira da família. Ele aprendeu latim e grego e jamais teve dificuldade para escrever e falar línguas que o interessavam, sobretudo inglês – era inteiramente capaz de dar aulas a catedráticos ingleses, como F. R. Leavis, sobre o significado de palavras inglesas. Aos 14 anos, mandaram-no para a Realschule, em Linz, onde durante um ano foi colega de Hitler, embora não (diz-se) na mesma classe. Foi ali que o futuro Füher aprendeu com o professor de história os conceitos básicos de patriotismo pangermânico, e tembém Wittgenstein, quando jovem, se sentiu atraído por autores manchados de ultranacionalismo, anti-semitismo e supremacia masculina. Os dois meninos, na época e depois, viram isso com olhos fortes e atentos, penetrantes, daqueles que se diz estarem “fitando.” Nenhum jamais falou do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Realschule, Wittgenstein recebeu uma ótima educação, tecnicamente tendenciosa, e saiu de lá para a Technische Hochschule, em Berlim-Charlottenburgo, onde estudou engenharia. Em 1908, mudou-se para a Grã-Bretanha, e por três anos freqüentou a Universidade de Manchester, como estudante de pesquisa no departamento de engeharia. Ali, especializou-se em aeronáutia. Em todas as épocas da vida foi capaz de inventar máquinas práticas ou processos para superar problemas físicos e, quando surgiu a oportunidade, o fez rápido e com espantoso sucesso. Em Manchester (e depois) inventou, entre outras coisas, uma turbina de reação a jato, das usadas vinte anos depois por Sir Frank Whittle. Também criou uma parte móvel para helicóptero, que depois se tornou padrão. Na década de 1920, projetou e construiu para uma das irmãs uma casa em Viena, um pioneiro ensaio moderno do estilo modernista internacional, notável pelas peças de metal, a maior parte desenhada e feita por ele mesmo, pois ficara insatisfeito com as do mercado. Incluíam novas e engenhosas maçanetas de porta, ferrolhos de janelas e dobradiças. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando trabalhava como ordenança médico no Guy’s Hospital, em Londres, projetou uma admiradíssima máquina para tirar a pressão no pulso, e métodos bem-sucedidos de fazer produtos farmacêuticos e lidar com tecido humano em casos de disenteria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wittgenstein podia facilmente havar-se tornado um destacado projetista de aeronaves civis e militares, então, a fronteira distante da engenharia. Mas fazer máquinas de grande eficiência só atraía um lado dele, o lado criativo-construtivo de sua enigmática personalidade. E havia outro. A engenharia em Machester o fez ir fundo na matemática, e os estudos ganharam vida própria. Lavaram-no à obra de Gottlob Frege, que constituía uma espécie de ponte correspondendo-se e encontrando-se com Frege, que, por sua vez, o encaminhou a Bertrand Russel no Trinity College, em Cambridge. Em 1912, foi admitido em Cambridge, onde Russel ia concluir o magnífico Principia Mathematica (três volumes, 1910-1913). Russel tomou-o como pupilo e gemia de dor mental com as “maratonas” de intensa discussão. E escreveu: “Ele era talvez o mais perfeito exemplo que já conheci de gênio como por tradição se concebe, apaixonado, profundo, intenso e dominador.” Em um tempo surpreendentemente curto, inverteu-se os papéis de tutor e pupilo, e Russel se viu aprendendo com Wittgenstein, ou melhor, tentando, em desespero, resistir à tendência de o pupilo destruir sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wittgenstein absorvia a filosofia sem esforço, embora jamais tenha lido muito, e então começou a desmontar os métodos filosóficos correntes. Todas as suas tendências destrutivas foram, de repente, despertadas, e ele sentia feroz prazer em dar-lhes rédeas soltas. Enfatizava, em particular, a incapacidade da linguagem para agüentar o peso que os filósofos importantes punham sobre ela. Quase todas as proposições se revelavam, examinadas de perto, falsas. Ele era um filósofo engenheiro. O sucesso da engenharia depende inteiramente do grau de precisão e tolerância necessário à tarefa, e da capacidade de realizá-la. Não se trata de questões de opinião, mas de verdades estatísticas, e atingi-la ou não logo se torna óbvio assim que a máquina, ou partes dela, é posta à prova. Wittgenstein, o homem da régua de cálculo, torno, compasso e torno mecânico, acostumado a atingir a perfeição física no projeto, e desempenho máximo, achava as palavras, frases, gramática, sintaxe – mas acima de tudo as palavras – escorregadias, instáveis, ambíguas e traiçoeiras. Em engenharia, alcança-se o objetivo na medida específica de tolerância exigida, e não se discute. Se a coisa é impossível isso também se torna inquestionavelmente óbvio. Há certeza positiva e negativa. Na filosofia, faziam-se tentativas de expressar com palavras, dizer coisas que só se podia mostrar. Logo se tornou um axioma de Wittgensteinm que perpassa toda a sua obra como um contínuo buraco de cupim, que não podemos falar de muitas coisas com verdade e exatidão, e, portanto, devemos calar-nos. Mas, para isso, havia uma coda: “Nada é tão difícil quanto não nos enganarmos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele forçou muito Russel, com freqüência mantendo-o acordado a noite toda em discussões. Muitos anos depois, Russel me disse: “Com ele, cheguei o máximo próximo que já cheguei de bater em um colega filósofo.” Esqueci os detalhes do incidente a que se referia: tratava-se de um sala de aula quase vazia e se havia ou não um hipopótamo lá dentro. Wittgenstein, para a fúria de Russel, insistia em olhar debaixo das cadeiras para ver. Também discutiu com outro grande filósofo de Cambridge. G.E. Moore, expoente do que então se chamava filosofia do “bom senso”, um tipo peculiarmente antipático na insistência nas limitações e inadequação das palavras. Wittgenstein também cansou Moore, a ponto de a senhora Moore, preocupada com a saúde do marido, proibir discussões que durassem mais de 30 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, portanto, Wittgenstein estabeleceu-se como um filósofo de gênio implacável e, muitas vezes, destrutivo. De vez em quando achava que a filosofia era, ou podia ser, inútil, e que a maioria das pessoas que a tentavam se ocupariam melhor fazendo alguma forma de trabalho braçal. Ocasionalmente, essas idéias assumiam a forma de conselho peremptório e gratuito: “Russel”, disse, “desista da filosofia”. “Moore, desista da lógica.” Às vezes achava que ia desistir ele próprio. Então, em outubro de 1913, foi ao outro extremo e instalou-se em uma remota cabana em Skjolden, em Sogn, Noruega, para fugir das distrações e falsos valores de Cambridge, e concentrar-se ferozmente na lógica matemática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chegada da guerra na Europa em agosto de 1914 interrompeu esse exílio auto-imposto e deu algum tipo de propósito à sua vida. Ele entrou no Exército austríaco como soldado raso, recusando todas as oportunidades abertas a um homem de sua riqueza e ligações para obter uma patente imediata. Isso foi típico. Além do mais, uma vez no Exército, ele rejeitou todo serviço longe da linha de frente. Combateu, sobretudo, na frente oriental contra os russos, expondo-se indiferentemente ao fogo e ao perigo e realizando atos de bravura que causaram admiração. Em particular, ofereceu-se, repetidas vezes, como voluntário para deveres como “observador, avançado.” Isso significava rastejar para a terra de ninguém com binóculos e um telefone de campanha e comunicar ao quartel-general da brigada os resultados do fogo de artilharia. Dizia-se que era o mais perigoso dos deveres militares, e que viviam pouco os que o cumpriam. Pode-se pensar nos motivos de Wittgenstein para assim arriscar a vida, em vista da taxa de suicídios na família. Mas não há indícios de que tentasse deliberadamente fazer-se matar. O que a guerra mostrou, ao contrário, foi sua tendência a assumir uma posição extrema em qualquer questão que se impusesse à sua atenção. Seria fácil vê-lo tornando-se um militante pacifista. Russel escolheu esse caminho, à medida que a guerra avançava, e no devido tempo foi para a cadeia por suposta incitação às tropas britânicas a que desobedecesse às ordens. Wittgenstein foi para o extremo oposto, e sua conspícua coragem acabou por levá-lo a ganhar uma patente, fato raro no velho exército imperial da Áustria-Humgria. Com o colapso russo, transferiram-no para a frente italiana e caiu prisioneiro de guerra quando a Áustria se rendeu, em novembro de 1918, e seu exército se desintegrou. Os italianos o mantiveram preso até agosto de 1919. Deve-se dizer, no entanto, que, embora a princípio escolhesse o serviço nas fileiras e a intimidade terra a terra da trincheira na linha de frente, Wittgenstein não gostava da companhia dos camaradas soldados. Achava-os bestiais e bárbaros, egoístas, repugnantes e horríveis. Era, por natureza e hábito, muito higiênico, e a sujeira que agüentava lhe parecia quase insuportável. Em Cambridge, aprendera a desprezar os intelectuais. Nas trincheiras, descobriu que o “homem comum” era igualmente, senão mais, repelente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi, durante esses anos de guerra – o período em que o colega de escola Hitler, igualmente conspícuo pela bravura e desprezo ao perigo, formulou sua filosofia política – que Wittgenstein acrescentou outra dimensão moral a seu pensamento, e criou uma poderosa, mas oculta, filosofia moral. Diz-se que isso resultou da leitura de Tolstoi, mas duvido. Não há prova de que Tolstoi, um pensador desconchavado e impreciso, daqueles que ele desprezava, deixasse algum vestígio em suas palavras escritas ou faladas. A leitura de Wittgenstein jamais era extensa, mas sempre peculiarmente eclética. Ele era exigente, depois obsessivo. O único Dickson de que gosta, por exemplo, eram pedaços de O Viajante Não Comercial e alguns trechos de Cântico de Natal, que lera repetidas vezes. Gostava de ler os Contos de Fada dos Irmãos Grimm, sobretudo a história “Rumpelstiltskim”, cujo poder dependia apenas de ninguém saber o seu nome. Achava essa uma imagem transcendental, que exerceu grande poder sobre o seu pensamento. Retornava sempre a ela. Parece ter-se interessado pouco pela literatura como tal. Tinha cultura musical. A família dava concertos regulares no palácio, freqüentado por todos os principais músicos da Viena do pré-guerra. Um dos irmãos dele tornou-se pianista profissional e, quando perdeu o uso da mão direita, Maurice Ravel escreveu para ele o Concerto para Mão Esquerda. Wittgenstein não era um artista de palco, mas um soberbo assobiador, sobretudo da forma sonata, um talento que pode ter aprendido com Gustav Mahler, amigo de seus pais, quando diretor da ópera de Viena. Mahler assobiava duetos e trios com espantoso virtuosismo. O assobio clássico parece ter sido um talento muito procurado na Viena do pré-guerra. Hitler era um soberbo assobiador, sobretudo de sua música favorita, A Viúva Alegre de Lehár. Wittgenstein gostava de assobiar toda uma sinfonia, de Schubert ou Brahms, com descantos e arpejos, e digressões na madeira. Mas, em leitura, preferia a excitação bruta. Entre as guerras, contraiu uma intensa paixão por histórias de gângsteres americanos em revistas baratas como The Black Mask. Era o gênero onde Dashiel Hammer e Raymond Chandler aprenderam o ofício. Mas Wittgenstein não mostrava preferência pelas histórias acima da média de Sam Spade e Philip Marlowe. Gostava do material repetitivo, rotineiro e quanto mais formulaico, melhor: precisava de quantidade e confiabilidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, era-lhe importante receber de amigos dos Estados Unidos pacotes imensos e periódicos de revistas pulp. O mesmo se dava com a comida. Ninguém jamais se interessou menos por gastronomia. Mas se achasse um prato ou produto a seu gosto, seguia comendo-o durante dias, com indiferente concentração, até surgir uma nova fantasia. Todos os seus hábitos tendiam à obsessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí não surpreender que a religião desempenhasse parte pungente em sua vida, capaz de explodir sem aviso em fases obsessivas e depois baixar, mas sempre perto da superfície. Sempre houve nele alguma coisa de monge, praticando a pobreza, o celibato – mas nunca a obediência – e um pouco de frade pregador também, impondo a teologia dogmática ex cátedra. Wittgenstein jamais foi mais humilde do que quando se sentava descalço na cadeira de bispo. Não está claro se algum dia acreditou em Deus, por que Deus, ou melhor, a crença em Deus, suscitava definições de proposições de intratável complexidade. Mas, certa vez, disse: “Não se deseja o meu tipo de pensamento na época atual. Eu tenho de nadar com muito esforço contra a maré... Não sou um homem religioso, mas não posso deixar de ver todo problema do ponto de vista religioso.” Quando foi para a cabana na Noruega, em 1931, passou o tempo todo, ou pelo menos assim disse ao voltar, rezando – e não filosofou. Que tipo de prece? E com que intenção? Não sabemos. É possível escrever todo um livro sobre a presença da religião em sua vida, e a intrusão da religião em sua obra; na verdade, já se fez isso. Mas, no fim de tudo, a relação dele com Deus permanece obscura, se é que chegou a existir. Sem duvidas frisou duas coisas. Primeiro, a idéia de Deus podia fazer alguém sentir-se o que chamava “absolutamente segura”; o “estado mental” em que se pode dizer: “Estou seguro, nada pode me machucar, aconteça o que acontecer.” Segundo, gostava da experiência resumida na frase: “Maravilha-me a existência do mundo.” Aguardava-lhe a idéia de “ver o mundo como um milagre”, o milagre básico de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, Wittgenstein lera Confissões, de Santo Agostinho, ou pelo menos as olhara. Citou-as, mais de uma vez. Achava que o importante não era tanto a crença, mas a conduta. Dizia que a essência do cristianismo (pois tivera uma educação católica) não era o dogma, nem mesmo a prece, mas que “nossa maneira de vida é diferente.” E acrescentava: “Só quando se tenta ser útil aos outros se acaba encontrando o caminho para Deus. Valorizava a amizade e podia ser um amigo apaixonado, mas também difícil. Falava pouco de sua sexualidade – não muita gente, naquele tempo, fazia disso assunto de conversa. Certa vez acertou sair de férias com uma mulher, de modo a fazê-la pensar que desejava dormir com ele. A senhora se dispôs a aceitá-lo em sua cama, mas ele nem tentou. A amizade com os homens era mais íntima; em um ou dois casos obsessiva, como era de se esperar. Gostava da expressão antiquada “ficar de tocaia” ao falar de tais pessoas. Mas também usava palavras como “pervertido”, “imundo”, “nojento”. Se teve intercurso sexual com homem ou homens em uma ou duas ocasiões, arrependeu-se. Um filósofo acadêmico me disse: “Essa brutalidade (emocional, não-física) refletia culpa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das maneiras como podia, porém, beneficiar-se dos irmãos humanos de forma cristã era ensinando-lhes a pensar, com clareza e verdade, no mundo real. Isso significava pôr as próprias idéias em ordem. Durante a guerra fez isso, de modo que, no fim do conflito, concluíra um trabalho chamado Logisch-Philosophishce Abhandlung, em geral conhecido como Tractus Lógico-Philosophicus. Teve enorme dificuldade para escrevê-lo, e depois publicá-lo. Poderia ter pago a edição, mas recusou-se, e a obra acabou publicada nos Annalen der Naturphilosophie (1921). Em 1922 saiu uma tradução inglesa. Curto, sentencioso, em partes numeradas, é a mais memorável obra filosófica publicada em todo o século XX, em qualquer parte. Não é um livro, está mais próximo de uma coletânea de apotegmas relacionados por tema, embora este seja muitas vezes subterrâneo, ou mesmo de todo ausente. Ninguém jamais o entendeu, digam o que disserem. Mesmo Wittgenstein, depois de reuni-lo a partir de pedaços de idéias suas em um longo período, provavelmente jamais o aprovou pro inteiro. De qualquer forma, foi aos poucos passando a desacreditar em grande parte do livro, senão todo, e sua única outra grande obra, Investigações Filosóficas, publicação póstuma, é bem diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve-se entender uma coisa importante a respeito dele. Era inteiramente incapaz de escrever um livro de filosofia, como Karl Marx o era de escrever um de economia ou política. A explicação era a mesma. Nem ele nem Marx tinham qualquer tipo de educação judaica. Mas os dois descendiam de antepassados rabínicos, e essa grande herança genética significava que tendiam, sem o saber, a adotar o procedimento central do saber rabínico, de seguir os comentários da obra interpretativa dos antecessores. Nenhum podia escrever a partir do nada, ab initio. Assim como Das Kapital é uma enorme série de reações (ou comentários) a escritores econômicos anteriores, também o Tractus é um processo espasmódico de comentário sobre os métodos lógicos que o autor extraiu de Frege, e que se viu sendo ensinado em Cambridge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, é muitíssimo original, perceptivo, estimulante e, acima de tudo, excitante. Wittgenstein tinha o talento de Sócrates para agitar os jovens sobre o caminho que ensinavam. Poucos que lêem o Tractus apreendem tudo. A totalidade de qualquer inteligência pega pedaços, e a vasta maioria uma emoção. Isso apesar de, ou devido a, uma excêntrica tradução, de C. K. Ogden e F. P. Ramsey, que produziu imagens como “O mundo é tudo de se trata”, frase de abertura traduzida de “Die welt ist alles, was der Fall ist”; a “A Lógica deve cuidar de si mesma”, deriva de “Die Logik muss fur sich selben sorgen”. Wittgenstein diz: “O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas, e decompõem-se em fatos independentes que o dividem.” E acrescenta: “Coisas como cadeiras ou aquela árvore não são independentes de seu ambiente e, portanto, não são fatos.” E depois: “Os fatos estão no espaço lógico e independem uns dos outros, e só podem ser declarados ou afirmados.” Isso era típico de como ele induzia os leitores a pensar com cuidado sobre o modo de formularem proposições. O resultado era levar os não-filósofos a quererem fazer filosofia e os filósofos a fazê-la de forma diferente. Uma das atrações da obra é que tem apenas 75 páginas e ninguém acredita, a princípio, que não possa dominá-la. É a luta bem-sucedida para dominar partes dela, combinada com a malsucedida tentativa de aprender o todo, que constitui o desafio-prazer que leva as pessoas a marcharem sobre a obra repetidas vezes (como em Proust).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após publicar o tratado, Wittgenstein seguiu seu próprio conselho e abandonou a filosofia, pelo menos em teoria. Substituiu-a pelo ensino de crianças em uma remota aldeia da alta Áustria. Isso se revelou muitíssimo insatisfatório. Em certo nível, ele era um professor brilhante, que abria frutífero diálogo de mentes, mas na qustão fixar fatos em cabeças pequenas, faltava-lhe paciência. Essa impaciência podia tomar a forma de violência, e ele acabou se metendo em séria encrenca por bater em uma menina pequena. Como o castigo corporal era universal nas escolas austríacas, o comportamento dele deve ter sido exagerado. É provável que as pessoas do lugar já o temessem, julgando suas excentricidades como prova de maldade. De qualquer modo, a experiência terminou em abjeto e humilhante fracasso. Foi então que ele construiu a casa da irmã, e isso lhe deu certa satisfação, embora ninguém fora da família jamais pensasse em encontra-lo como arquiteto. A essa altura, ficara sem um vintém, por dar sua parte da família a outros membros dela. Por que não a deu a instituições beneficentes? Porque a escolha destas, como a crença em Deus, haveria suscitado insuperáveis problemas proposicionais. Ele tomou a saída rápida e fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente, o sacrifício da grande renda privada significava que teria de ganhar a vida. Em 1929, voltou a Cambridge para retomar a filosofia. Russel e Moore arranjaram-lhe a concessão de um diploma de doutor em filosofia com base no Tractus, tomado como tese. No ano seguinte, fizeram com que o elegessem professor do Trinity College, e ele começou a das aulas e conferências. Passou toda a década de 1930 em Cambridge, a não ser por um ano na cabana na Noruega quando trabalhou em um projeto que acabou por tornar-se o póstomo Investigações Filosóficas. Também, em 1933-1934, ditou o material que depois se tornaria o Livro Azul, e em 1934, o Livro Marrom. Foi professor de filosofia do corpo docente, em fase de teste, embora não tivesse posto formal (um arranjo muito irregular) até 1939, quando Moore renunciou à cátedra de filosofia e, com Russel, conseguiu de importância atual. Russel e Moore eram figuras poderosas em Cambridge, e repetidas vezes usaram esse poder para dar um empurrão em Wittgenstein. Isso se justificava inteiramente, pois ele era não apenas um gênio (jamais houve qualquer discussão quanto a isso), mas um tutor/professor com surpreendente impacto sobre os alunos, e eletrizava toda a faculdade de filosofia. Vale a pena notar, no entanto, que sob as atuais e altamente complexas regras burocráticas das universidades, impostas com tanta rigidez, nada disso teria acontecido. Wittgenstein não teria encontrado emprego universitário. Cambridge, na verdade, a vida acadêmica, o teria perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças à produção de catedrático-chave, Wittgenstein ensinou em Cambridge durante oito anos na década de 1930. Quando veio a guerra, ele trabalhou primeiro no Guy’s Hospital, em Londres, depois na pesquisa médica, em Newcastle, onde prestou serviços extremamante valiosos e muito apreciados. Depois voltou à cátedra de filosofia, mas falava repetidas vezes em desistir de tudo. Suas últimas aulas foram no período da Páscoa em 1947, e ele renunciou ao magistério no outono. O ensino, pois, cobriu dez anos, e teve sucesso sensacional por qualquer padrão, mas em particular pelos três critérios mais comumente aplicados: primeiro, o impacto sobre os alunos; segundo, a influência sobre outros professores; terceiro, o valor duradouro do material ensinado. Foi um dos professores mais originais que já existiram, tanto na forma quanto no conteúdo. São seis os motivos pelos quais seu ensino teve sucesso tão enfático. Primeiro, foi cercado de segredo, lançando, assim, sobre a atividade, um fulgor gnóstico. Desde o começo, o número de pessoas de Cambridge, alunos e catedráticos, nem todos filósofos, de modo algum, que desejavam assistir às suas sessões (na falta de melhor palavra), era maior do que se poderia acomodar com facilidade, e muito maior do que ele próprio desejava, pois achava que relativamente pouco iriam beneficiar-se. Daí as “aulas” não serem anunciadas da forma habitual no Cambridge University Recorder. Em vez disso, alguns catedráticos eram informados dos horários e lugares, o que leva a uma segunda questão: seletividade. Os que assistiam sabiam que eram uma elite, um grupo escolhido, considerado digno de receber o conhecimento especial proporcionado por Wittgenstein. Deitava-se, assim, a base do discupulado – pode-se mesmo dizer apostolado – que se tornou tal característica do ensino. Terceiro, as aulas eram, em essência, espontâneas. Embora ditasse o Livro Azul, em geral, falava não com base em notas, mas por impulso. Parecia estar pensado de pé, criando à medida que a aula prosseguia, formulando todo um novo sistema filosófico, ou melhor, uma forma de pensar, por um processo impulsivo, intuitivo e muito emocional de celebra;ao não-ensaiada. O que tornava isso mais memorável era que ele muitas vezes proibia estritamente a audiência de tomar notas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vocês anotarem essas observações espontâneas, um dia alguém pode publicá-las como minhas opiniões pensadas. Não quero que se faça isso. Pois estou falando agora livremente, à medida que me ocorrem as idéias. Mas isso exigirá muito mais pensamento e melhor expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém foi mais profuso ao comunicar as idéias nem teve mais senso de propriedade ao proibir a não-autorizada disseminação delas. Sempre que outras pessoas tentavam apresentá-las de forma impressa, ele tinha um ataque de raiva. Os que não reconheciam a dívida, ele os acusava de plágio. Mesmo assim, a proibição às notas não funcionava. As pessoas anotavam às escondidas, ou de memória depois, no mesmo dia. Foi assim, por exemplo, que Aulas e Conversas em Psicologia e Crença Religiosa veio a ser publicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto motivo de sucesso era que as aulas eram interativas. Não apenas se convidava, mas forçava a platéia a participar (razão porque se tinha de limitar o número). Criava-se o diálogo. Ele dava aos alunos a impressão de que não apenas criava diante dos olhos deles, mas envolvia-os no processo criativo. Era estonteante, inesquecível e também os catedráticos que assistiam ficavam fascinados. Quinto, as aulas eram muito exigentes. As sessões não levavam a costumeira uma hora, mas duas, e como tudo mais ligado a ele, acabavam por ser demasiado exaustivas. As pessoas saíam “drenadas” – mas também eufóricas. Wittgenstein ainda insistia em que todos se “matriculassem” para todo o curso de um mês e meio a dois meses, e mantivessem o acordo. Julgava isso essencial para o processo contínuo de criatividade e diálogo recíprocos, a essência do ensinamento. Daí, e sexto motivo, os que sobreviveram a todo um período de Wittgenstein se sentirem como veteranos de guerra, experientes, enrijecidos pela batalha, honradas, condecorados – diferentes. Haviam sido iniciados na filosofia na fronteira mesma da descoberta. Tornavam-se membros de um clube crescente, e esse clube ainda existe, de forma meio fantasma, até hoje. E o Presidente Perpétuo é um herói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avaliar o que aprenderam – ou lhes ensinaram – é muito mais difícil que descrever o clube. O Tractus brotou da experiência de Wittgenstein como engenheiro, segundo vimos. Essa linha de investigação ficou submersa na Primeira Guerra Mundial, e é surpreendente, quando se a olha do fim da carreira dele, que o Tractus até mesmo haja atingido algum tipo de forma escrito. Seus ensinamentos nas décadas de 1930 e 1940 resultaram de um pano de fundo bem diferente, a experiência com as crianças pequenas. O fato de não haver metido “fatos” na cabeça de meninos e meninas de 10 anos nessa tentativa levou-o a julgar que uma forma melhor de faze-lo seria brincar com elas, e usar imagens. Isso pode não ter funcionado com as crianças, mas a técnica do “jogo de linguagem” que criou serviu bem com os alunos de idade universitária. Desconfio de que ele teve a idéia para os jogos de linguagem que criou nas leituras de fragmentos de Confissões, de Santo Agostinho. O santo gostava de fazer perguntas como: “Aonde vai o presente quanto se torna passado?” etc. A Primeira Parte do Livro Marrom contém 72 exercícios do jogo de linguagem, do tipo “Imagine um povo cuja linguagem não lhe permite dizer frases como `O livro está na gaveta`, ou `A água pode ser tirada do copo.” Outro exercício é “Se um animal pudesse ler, como você lhe ensinaria a tornar-se uma máquina de ler?” A essência de um jogo de linguagem é que esse exercício filosófico em particular vem da corrente geral de pensamento e avança segundo suas próprias regras específicas, que funcionam de forma tão arbitrária quanto as regras de qualquer outro jogo, por acordo entre os jogadores. O Oxford English Dictionary define-o como “uma atividade da fala ou sistema limitado de comunicação, completo em si, que pode ou não fazer parte de nosso uso da linguagem existente.” Ele próprio o definia como “formas de usar sinais mais simples que aqueles nos quais usamos os sinais de nossa complicadíssima linguagem do dia-a-dia. Esses jogos são as formas de linguagem com as quais as crianças começam a usar as palavras.” Com essas brincadeiras, Wittgenstein estabeleceu um controle mais rígido dos fatos didáticos e dos alunos, porque podia determinar as regras de formas impossíveis quando usava a matemática ou a lógica. Esses jogos inevitavelmente reforçavam também o elemento gnóstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as guerras, o Tractus foi largamente lido nos dois lados do Atlântico, assim como em Viena, onde Wittgenstein era um herói mágico. Por volta do fim da década de 1930, ele já se tornava famoso nos meios acadêmicos ingleses, mesmo em Oxford, que por tradição se mantinha distante das inovações vindas de Cambridge, sobretudo em filosofia. O desaparecimento de Wittgenstein durante a guerra aguçou os apetites e, no fim de 1945, sua volta à sala de aula ou presença em qualquer reunião assumiu a natureza de um epitalâmio. Uma mitologia de Wittgenstein começou a aderir às historinhas rotineiras sobre o excêntrico e inexplicável comportamento dele. Quatro características chamavam particular atenção. A primeira de todas era a austeridade. Ele não usava gravata e as roupas eram as mais simples, compradas em lojas de operários. Tinha cadeiras simples de lona, ou de convés, em seus aposentos. Tornou-se aguda a antipatia por qualquer tipo de formalidade. A segunda é que, contudo, ele continuou magistral. Falava com autoridade (como Cristo, conforme muitas vezes se observou). Repreendia com força acachapante. As amizades, embora muitas vezes bastante vibrantes, organismos vivos, viviam cobertas de ferimentos de brigas que, com freqüência, terminavam em morte. Ele convidava as pessoas a entrar em sua vida e depois as expulsava. Terceira, Wittgenstein passou a encarar cada vez mais a vida acadêmica como debilitante; “não tinha oxigênio”, como dizia. Mais cedo ou mais tarde aconselhava quase todo mundo, catedráticos e alunos da mesma forma, a desistirem dela. Quarta, criou antipatia pela ciência, ou melhor pelo cientificismo. Como disse no livro Azul, há grandes danos quando os filósofos “vêem o método da ciência diante dos olhos e sente a irresistível tentação de fazer e responder perguntas como faz a ciência.” Achava o método científico particularmente inadequado em estética e religião. Dizia coisas rudes sobre obras de ciência popular, como O Universo Misterioso, de James Jean, que caracterizava como “idolatria”, sendo o ídolo “a ciência e o cientista”. O que ele diria do atual clima de cientificismo na universidade, promovido por catedráticos da televisão como Richard Dawkins, causaria tonteira. Nesse aspecto, como em outros, defendia a antiga alta cultura do gosto e discernimento, fundamental para a civilização européia durante mil anos, e agora ameaça por um terrível novo tipo de materialismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos sociais, fez uma trilha nervosa entre o círculo de Bloomsbury, no qual Russel e Moore o introduziram, e marginais como F. R. Leavis, que odiava Bloomsbury e tudo que representava. Keynes tentou apadrinha-lo com benevolência e ouviu: “Keynes, desista da economia.” (Talvez também tenha sido verdade que tenha dito a Virgínia Woolf: “Virgínia, desista de escrever romances!”). Leavis foi um daqueles com quem fez amizade inquieta, pontilhada por mal-entendidos. Os dois davam longas caminhadas juntos e, às vezes, remavam em uma canoa no rio. Depois que Wittgenstein morreu, Leavis escreveu uma história da amizade entre eles. É escrita na desajeitada prosa dele, em alguns lugares opaca a ponto de se tornar incompreensível, mas dá, à sua maneira, uma vívida impressão do homem: de grande autoridade e, às vezes, autoritário, mas também impulsivo, generoso, cheio de desculpas; e sempre fascinante. Inevitavelmentem disse: “Leavis, desista da crítica literária.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O status heróico cada vez maior de Wittgenstein entre muitos seguidores e admiradores foi realçado pelo anedotário mitológico que se formou à sua volta. Um incidente famoso, ou notório, ocorreu na sexta-feira, 25 de outubro de 1946, em uma reunião do Clube de Ciência Moral de Cambridge, no King’s College. O orador era o dr. Karl Popper, autor do que se tornava um texto libertário chave, A Sociedade Aberta e seus Inimigos. É difícil pensar em duas visões mais diferentes da filosofia que as de Wittgenstein e Popper. Não que o primeiro fosse antilibertário; longe disso. Mas não acreditava que a filosofia tivesse alguma coisa a ver com tais coisas ou seus antônimos. Não se tratava do que pensar, mas como pensar. Os dois trocaram palavras acaloradas, e Wittgenstein desapareceu na noite. Mas essa é a versão de Popper do que ocorreu. Há várias outras, inconciliáveis em pontos importantes. Escreveu-se todo um livro sobre esses dez minutos, e os que o leram podem decidir-se sobre o significado filosófico – se algum há – dos acontecimentos. Popper era tão difícil quanto Wittgenstein. Um quarto de século depois, após receber uma carta entusiástica de Popper sobre um de meus livros, Tempos Modernos, eu o convidei à minha casa em Iver (ele então morava a poucos quilômetros de distancia). Ele disse: “Pode me dar uma garantia absoluta de que ninguém fumou em sua sala de jantar durante pelo menso um mês e meio?” “Não, receio que não.” “Então eu não posso ir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve incidente semelhante em Oxford, em maio de 1947, na noite já descrita, quando tive meu primeiro vislumbre de Wittgenstein. A reunião, na qual ele respondeu a um trabalho sobre “Cogito ergo sum”, de Descartes, realizou-se em uma sala de aula pouco iluminada. Mary Warnock anotou em seu diário: “Praticamente todos os filósofos que eu já vi estavam lá.” Wittgenstein, em gesto típico, recusou-se a falar sobre o tema oficialmente em discussão, falando, em vez disso, de coisas de seu próprio interesse. A ortodoxia de Oxford, na pessoa do velho professor Joseph Pritchard, não parava de interrompe-lo, e foi muito rude. Wittgenstein reagiu com igual rudeza e a melancólica verdade é que Pitchard morreu uma semana depois. Isaiah Berlim, um dos presentes, me disse: “Uma execução. Eu não haveria perdido nem por todos os mundos.”&lt;br /&gt;Naquele outono, Wittgenstein desistiu de sua cátedra e foi viver longe na Irlanda. Concluiu Investigações Filosóficas, mas então caiu doente com o que se diagnosticou como um câncer incurável. Viveu os últimos meses na casa de seu dedicado médico, em Cambridge. Morreu em 29 de abril de 1951. Com a morte, pode-se começar o culto à filosofia dele, cuja personalidade logo passou de excêntrica a heróica. Todos os aspectos de sua vida e pensamento, desde então, tem sido minuciosamente examinados em livros, e os que o conhecerem, ou com ele encontraram, tiveram as memória saqueadas por ávidos acólitos. Os incontáveis livros e ensaios sobre ele geraram mais incenso do que luz, e mesmo a biografia de primeira classe escrita por Ray Monk tem cantos obscuros. Há, e sempre haverá, importantes lacunas em nosso conhecimento desse estranho gênio, e ávidos pesquisadores e admiradores estarão cavoucando os indícios, muitas vezes fragmentários e contestados, durante gerações futuras. Mas essa é a natureza do culto ao herói. Enquanto isso, a lembrança dele atrai jovens inteligentes para a arte da filosofia, e esse é o incenso prático que era doce às suas narinas, embora provocasse, no fim, a imperiosa advertência: “Desista de fazer filosofia.”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-5315688348472234570?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/5315688348472234570/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=5315688348472234570' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5315688348472234570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5315688348472234570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/10/o-estranho-wittgenstein-2.html' title='O ESTRANHO WITTGENSTEIN 2.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0jZw85SqqHw/SPVOTXdyk8I/AAAAAAAAAEo/mQI5K9gZ7Is/s72-c/witt+3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-6112481433030459702</id><published>2008-09-23T20:54:00.003-03:00</published><updated>2008-09-23T21:22:38.888-03:00</updated><title type='text'>O CORINGA E A ESPECTATIVA ESCATOLÓGICA</title><content type='html'>A Propósito do Filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na infância eu temia o fim do mundo. Na adolescência descobri que na alma humana há algo que deseja a destruição do mundo com uma força vulcânica. A volúpia da destruição do mundo é talvez a mais poderosas. Qual o fundamento deste desejo poderoso de destruição do mundo? A melhor resposta que tenho encontrado: ele tem fundamento na espectativa escatológica. Na milenar esperança de que a este mundo, após destruído, após o banho de sangue redentor, sucederá o novo céu e a nova terra que é o maior anseio da humanidade. E o papel daquele que irá iniciar esta destruição é o mais cobiçado. Quantos não sacrificaram a sua vida para iniciar o processo de arrasamento da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém desejou com mais força representar este papel do que Karl Marx. Ninguém fez mais pela destruição do mundo do que ele. E ninguém chegou mais perto de êxito do que ele. O apocalipse é o tema principal de seus poemas de juventude e toda a sua obra é uma tentativa é uma continuação deles, como bem percebeu Paul Johnson (Os Intelectuais ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há dúvidas, o Coringa é movido, inconscientemente, por um desejo ardente de acelerar o processo escatológico. O Coringa é o Netchaiev, o Verkovenski, o Karl Marx de Gothan.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há dois anos que via o romance "O Amanuense Belmiro" na única livraria da cidade, ainda envolto em num plástico, talvez desde 1983 quando saiu do prelo. Resolvi tirá-lo do limbo do esquecimento. O dono da livraria, sempre bigodudo e descalço levou um susto. Não gosto do tom melancólico de vencido resignado próprio deste livro e de tantos outros nacionais. Prefiro o estilo altissonante, o vibrante e o sarcástico, mas farei honra à memória do escritor mineiro e o lerei até o fim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-6112481433030459702?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/6112481433030459702/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=6112481433030459702' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6112481433030459702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/6112481433030459702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/09/o-coringa-e-espectativa-escatolgica.html' title='O CORINGA E A ESPECTATIVA ESCATOLÓGICA'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-1221968748093868631</id><published>2008-01-22T22:57:00.000-02:00</published><updated>2008-01-22T23:42:05.555-02:00</updated><title type='text'>OTTO MARIA CARPEAUX E AS PROFECIAS.</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/R5abVG2UgDI/AAAAAAAAADQ/xquF8RpWAy4/s1600-h/Carpeaux+3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5158481210117488690" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/R5abVG2UgDI/AAAAAAAAADQ/xquF8RpWAy4/s400/Carpeaux+3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No próximo dia 02 de fevereiro, sábado de carnaval, ninguém se lembrará de que, há exatos 30 anos, morria de ataque cardíaco, numa sexta-feira também de carnaval, o crítico e historiador da literatura Otto Maria Carpeaux. Diz-se que teria morrido ateu, materialista e só se preocupando com política, após uma progressiva decadência intelectual a que fora conduzido pelo país adotivo que tanto amava. Isto depois de ter sido um espiritualista e católico fervoroso. O mistério de sua conversão na maturidade e possível apostasia senil é bem evocado no ensaio “Introdução a um exame de consciência” de Olavo de Carvalho, que abre a coletânea de ensaios do grande escritor austro-brasileiro (Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, vol I, 1998). Olavo procura as razões deste amesquinhamento intelectual e mesmo espiritual de Carpeaux e lança a culpa na própria mesquinharia intelectual e espiritual da elite de letrados brasileiros, fortemente materialista, esteticista e politiqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande mérito da crítica de Carpeaux, ao meu ver, era o de perscrutar as significações metafísicas e religiosas das obras literárias, ou seja, analisá-las num plano muito mais elevado, muito além das análises psicológicas, sociológicas e estéticas, no curral das quais está confinada a quase totalidade do rebanho crítico nacional. Antônio Cândido, por exemplo, em sua obra “Literatura e Sociedade” diz que o bom autor deve ser equipado com três sensos: o estético, o psicológico e o sociológico. Ou seja, deve ser castrados dos sensos filosóficos e religiosos, os essenciais do ponto de vista de Carpeaux. É a prisão materialista. Agindo assim, estes críticos demonstram não compreender nada de autores essencialmente religiosos, como o era Guimarães Rosa, talvez o mais místico dos escritores brasileiros o qual, certa feita, sonhara com riqueza de detalhes um cenário para um romance, vindo a se deparar, para seu pasmo, muitos anos depois, com este mesmo cenário, exatamente como o sonhara (ver http://yurivieira.com/content/view/72/42/).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo, reproduzo um impressionante ensaio de Carpeux sobre profecias e acrescento um breve post scriptum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;DEFESA DOS PROFETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Otto Maria Carpeaux&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a nossa angústia que produz os profetas. Mas eles têm má reputação. Nunca, em parte alguma, teria havido profecias se não fosse uma procura urgente à qual, conforme as leis da economia, corresponde a oferta. Desconhecendo, porém estas leis, queixamo-nos dos honorários que se pagam aos profetas e que se recusam aos filósofos; e o amargo Lichtenberg diz: “Não se tem com que viver, dizendo a verdade; mas se tem bastante predizendo.” Isso quer dizer: se os filósofos chegassem ao poder, os profetas não teriam de que rir. “A profecia é a mais irracional forma de erro” – diz a severa positivista George Eliot, e a razão não desdenha mesmo o braço forte da polícia, quando se trata de exterminar a razão dos outros. È verdade que já não se atiram os profetas às cisternas, como os judeus tinham o hábito de fazer, porém os colocam sob o controle da polícia, de onde eles podem repetir as palavras do velho poeta russo Kirilov:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;Falando-vos aqui, baixinho:&lt;br /&gt;Profetizar é difícil nas garras de um gato.&lt;em&gt;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esta polícia obedece apenas às cóleras do público, e isto se entende. Existem boas profecias e más profecias. Quando as más profecias se realizam, todos esquecem os profetas que tinham tido razão. Deseja-se unicamente ouvir as boas profecias, chega-se mesmo a encomenda-las, e quando elas não se realizam, não se fica menos zangado. Como contentar a toda a gente? Lembrem-se ainda uma vez dos velhos judeus, dos quais Pascal diz que eram “&lt;/em&gt;grands amateurs dês choses prédites ete grands ennemies de l’accomplissement&lt;em&gt;”. É que desejavam muito saber o futuro, sem acreditar nele. “Nós o sabemos todos, nós todos” – dizia Disraeli – “sim, sim, nós o sabemos, mas ninguém o crê. Eis a palavra de ordem do dia.” E lembrem-se de certos homens de Estado, muito recentes que, numa época em que todo o mundo “o” sabia, começavam cada discurso por: “Eu recuso acreditar...” Mas os profetas tinham bastante razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, os profetas têm razão, e não será difícil defende-los perante o tribunal de uma filosofia e de uma opinião morosas. Para resumir as acusações principais: primeiramente, as boas profecias não se realizam nunca; segundo, as más profecias se realizam sempre. Comecemos pelo primeiro ponto de acusação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As boas profecias não se realizam nunca.” Antes de tudo, é preciso dizer que a não-realização de uma profecia não é nunca uma objeção contra a profecia em geral; a única circunstância que justifica a oposição a uma profecia é que ela se tenha realizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais famoso dos profetas modernos é Miguel de Nostradamus, morto em 1566, médico e astrólogo de Carlos IV, rei da França. Desde 1555, conhece-se e estuda-se o seu livro de quartetos que prediz os acontecimentos do futuro. Os seus versos são tão obscuros que vêm sendo interpretados há quatro séculos, seguidamente. O que existe de mais extraordinário nessas profecias não é, absolutamente que elas não se realizem nunca, mas que se realizem sempre. Nostradamus prediz, por exemplo, e em palavras bastante claras, uma revolução e o aparecimento de um grande monarca, não sem acrescentar alguns pormenores bastante obscuros e que são a reserva dos intérpretes. Depois da morte de Nostradamus, esta profecia se realizou nada menos de sete vezes: a Revolução da Liga e Henrique IV, a revolução da Fronda e Luís XIV, a Grande Revolução e Napoleão, a Revolução de Julho e Luís Felipe, a Revolução de Fevereiro e Napoleão III; já são cinco; o zelo dos intérpretes não hesitou em acrescentar a Comuna e &lt;/em&gt;Monsieur&lt;em&gt; Thiers, o golpe de Estado de maio de 1879 e Gambetta. Esperamos que esta profecia se realize ainda muitas vezes; pois a França é imortal, e Nostradamus com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto, está provado que é preciso defender o profeta contra os seus intérpretes, que são os verdadeiros acusados. Com efeito, Nostradamus, como verdadeiro profeta, teria tido muito que fazer, ocupando-se das crises de gabinete da Terceira República. É assustador que os intérpretes tenham desejado aplicar os seus quartetos a outros países ainda, ou até experimentado traduzi-los a outras línguas. Compreende-se que Nostradamus haja morrido misantropo, sem dúvida prevendo o epigrama de Voltaire contra Lê Franc, o tradutor de Jeremias:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;Savez-vous pourquoi Jérémie&lt;br /&gt;A tant pleuré pendant as vie?&lt;br /&gt;C’est qu’em prophete il prévoyait&lt;br /&gt;Qu’um jour Lê Franc lê traduirait&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, que uma profecia se realizasse era uma razão de desconfiança. Mas que uma profecia não se realize, isto nada prova: ela poderá ainda realizar-se no futuro, o que não se pode provar, mas não se pode também negar. As profecias que não se realizam estão absolvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas outras se realizam, e sobretudo as ruins: então, a gente fica zangada e diz: - o acaso! – O acaso, deus dos incrédulos, um deus do qual se sabe bem o que fez no passado, mas não se saberá jamais o que fará no futuro. Passado, Futuro são dimensões do Tempo, e parece que o Acaso é o grande subterfúgio daqueles que não desejam refletir sobre o Tempo; mas vale a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo é uma categoria do pensar, pela qual o nosso espírito ordena os acontecimentos em sucessão. Todos os acontecimentos nos aparecem em sucessão, obrigatoriamente, mas essa obrigação da nossa estrutura espiritual se estende mais ainda; é preciso pensar nos acontecimentos sucessivos encadeados por uma ordem, e nesta altura é inevitável a introdução de qualquer antropomorfismo quer imaginemos as sucessões organizadas unicamente pelo encadeamento de causa e efeito. São as duas formas de compreender o Tempo: a Providência Divina ou o determinismo “scientiste”. Não existe terceira via: “acaso” quer dizer que os acontecimentos, organizados em sucessão, não são organizados, o que é uma contradição em si e o subterfúgio da preguiça de pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Providência é a base da profecia religiosa. Admitir a Providência é admitir ao mesmo tempo que Deus permite, algumas vezes, aos seus eleitos, participar da previsão divina dos acontecimentos futuros. Estas profecias religiosas, das quais tenho medo de falar, são quase sempre desagradáveis – Deus bem sabe por quê – e, por isto, pouco amadas; Jeremias teria sabido fazer disso uma longa lamentação, e Isaías foi serrado, sim, serrado, por ordem do rei Manasses. Os reis não gostam dos profetas. Soloviev, o grande espírito religiosom que tinha previsto, nas suas Três Conversações (1900), o aparecimento vitorioso dos japoneses, predisse também o Imperador-Anticristo, “que não nega o cristianismo, mas que usurpa o nome do Cristo para suas campanhas e batalhas”; “que acredita na Providência, mas só gosta de si próprio e dos animais, e que é vegetariano”; “que burla todo o mundo por meio de um grosso livro, traduzido em todas as línguas”; “que se proclama Chefe e Presidente dos Estados Unidos da Europa” (Vladimir Solovievm Obras Completas, Petersburgo, s.d., vol. X, p. 81-221); e o único resultado é que este livro, velho de quarenta anos, foi mais tarde proibido na Alemanha. Mas eu gostaria de saber por que os nossos polemistas católicos se servem muito pouco do texto admirável: “Haverá uma época em que eles não sustentarão a sã doutrina, mas procurarão um Mestre à sua vontade, e abandonarão a verdade para se voltarem para as fábulas (S. Paulo, II Epist. Ad Timotheum, IV, 3); possivelmente porque o texto grego dia, para “fábulas”, os “mitos”, o que exclui as aplicações unilaterais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O determinismo, por outro lado, favorece ainda os profetas. Com efeito, se todos os acontecimentos se desencadeiam de acordo com um causalismo rigoroso, é sempre possível um certo grau de providência, aumentado ainda hoje pelas doutrinas da física relativista, que não admite mais uma sincronia rigorosa: nos diversos espaço o tempo difere também, e o futuro, em alguns astros, é contemporâneo do nosso passado. Ninguém poderia ser mais feliz de posse deste raciocínio, do que Schopenhauer, o mais severo dos deterministas, que encheu o segundo volume dos Parerga e Paralipomena com as profecias e a sua possibilidade científica. Seja-me permitido acrescentar um exemplo surpreendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nostradamus, no quarteto 18 do seu nono capítulo, escreveu, em 1555:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;Lê lys Dauffin portera dasn Nanci&lt;br /&gt;Jusques em Flandres electeur de l’Empire;&lt;br /&gt;Neufve obturée au grand Montmorency,&lt;br /&gt;Hors lieux prouvés deliver a clere peyne&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas primeiras linhas referem-se a acontecimentos que se produziram, com efeito entre 1633 e 1635. As duas outras linhas dizem, em francês moderno: “&lt;/em&gt;Il ya a une novelle prison pour lê grand Montmorency que será execute publiquement hors du lieu commun&lt;em&gt;.” Ora, em 1632, Henrique, duque de Monrmorency, estava encarcerado naprisão, recentemente construída, de Tolosa; em 30 de outubro de 1632 ele foi executado, mas, graças à sua posição, não o executaram na Grande Praça, e sim no pátio da prisão. “&lt;/em&gt;Clere peyne&lt;em&gt;” é a “clara pena”, a execução pública de acordo com os preceitos da lei. Porém é preciso também saber que a execução não foi feita pelo carrasco, mas por um soldado escolhido por sorte; e este soldado, dizem os cronistas, chamava-se Clerepeyne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria o acaso? Mas a probabilidade de predizer ao acaso estes pormenores é de 1 em 30.000.000. O que não nos poupa ao aviso de Lessing: “Aquele que não perde a cabeça por causa de certas coisas não tem cabeça para perder.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, existem profecias mais surpreendentes ainda, quando não se perde a cabeça, mas quando esta é conservada, se vale alguma coisa. A capacidade de um grande espírito de prever as relações complicadas e longínquas é quase ilimitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 21 de fevereiro de 1827 – não existem caminhos de ferro nem vapores transatlânticos, e os Estados Unidos da América estão à margem do mundo – Goethe disse a Ekermann: “Haverá ainda o projeto de um canal do Panamá. É trabalho do futuro. Mas os resultados seriam incalculáveis. Ficarei surpreendido se os Estados Unidos não tomarem esta obra entre as mãos. Em trinta ou quarenta anos, esta jovem república terá povoado a Califórnia. Mas depois sra necessário evitar a longa viagem em volta do Cabo Horn. Para os Estados Unidos este canal será indispensável, e eles o terão. Desejava bastante vê-lo, mas não viverei mais... Enfim eu desejaria ver os ingleses na posse de um Canal de Suez...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de Goethe, dirão. Mas escutai a voz de um homem muito mais simples e quase desconhecido, de uma inteligência encantadora: Emile Banning, amigo íntimo do rei Leopoldo II dos belgas, ao qual ele aconselhava a colonização do Congo. Banning esceveu nas suas Reflexions morales et politiques, em 1893:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;O século XX não terminará sem ter aberto um período de césares. O povo não irá busca-los nas dinastias reinantes, nas aristocracias de raça, nas classes médias, todas elas esgotadas, exauridas, tendo perdido seu direito de primogenitura por sua incapacidade e seu egoísmo. É de baixo que virão os futuros senhores. Eles fundarão sua legitimidade no testemunho daquilo que se passa diante dos olhos de todos; seu poder, na anarquia nos devora. Serão justiceiros temíveis&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo Banning, nas suas Considérations politiques sur la défense de la Meuse, escritas em 1882, previu uma guerra entre a França e a Alemanha, com minúcias as mais precisas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;O exército alemão varrerá tudo que subsista das fortificações francesas na fronteira do Norte. Paris será ameaçada, se não tomada. Queira ou não queira, a Inglaterra terá de tomar partido na luta para salvar seu império da hegemonia germânica. Se faltar à Alemanha todo o pretexto para invadir a Bélgica, ela invocará imperiosas necessidades militares&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida, são coisas desagradáveis essas profecias que se realizam. Como o prova o exemplo de Schopenhauer, existe uma ligação íntima entre a profecia e o pessimismo, e são os pessimistas que vencem melhor. Ninguém lhes agradece isto, Voltaire já lembrou: “Oui, Socrate a raison, mais il a tort d’avoir raixon si publiquement.” O orgulhoso húngaro Kossuth, no entanto contradiz: “O papel de Cassandra é ingrato; mas pensai bem, Cassandra tinha razão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe um caso único no qual o otimismo vence melhor ainda: quando ele prediz as coisas e as prepara ao mesmo tempo. Nisso vejo a única razão de acusar aqueles que são bons profetas mas falsos profetas. Não esqueceremos o artigo do Figaro de 13 de setembro de 1901, no qual o jornalista prevê um “Monck francês”, um general, instruído pela ciência política da Action Française, e que abalará a República enfraquecida. O artigo está assinado por Charles Maurras, e lembra as palavras do velho peta inglês Machael Green:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/em&gt;Prophecy which dreams a lie,&lt;br /&gt;That fools believe, and knaves apply&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas vezes, é uma triste glória ter tido razão. Uma razão coletiva, aliás, acrescentaria o meu mestre Alain. “&lt;/em&gt;Eh! Oui. Vous étiez milliers à l’avoir bien prévu; et c’est parce que vous l’avez pévu que c’est arrivé&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro – e é o ponto culminante da defesa – certo poder de profecia está ao alcance de todos; é preciso apenas a gente adaptar-se às loucuras coletivas. O grande Swift deu-nos um exemplo surpreendente revoltando-se contra as ridículas profecias de um fazedor de calendários, Mr. Partridge. Swift publicava, por seu lado, um calendário, no qual se leu: “Em 31 de março de 1709 o sr. Partridge morrerá.” Toda Londres estava curiosa. Em 1 de abril de 1709 Patridge, com brilhante saúde, apareceu triunfalmente na rua, onde encontrou pregada uma proclamação de Swift: “Hoje, 1 de abril de 1709, vereis o sr. Partridge na rua. Mas não vos deixeis enganar. O sr. Partridge, que vereis, não é senão um cadáver mal informado.” E para a opinião pública o sr. Partridge estava morto desde aquela hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto. A opinião mata os falsos profetas. E se cumpríssemos o nosso dever, o pessimismo, até mesmo ele, acabaria, e poderíamos subscrever integralmente as palavras de Ludovic de Halévy: “&lt;/em&gt;Je m’aperçois que j’ai passe ma vie à annoncer dês catastrophes, que se ne se sont jamais produites&lt;em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Post Scriptum&lt;/em&gt;: Impressionantes as profecias de Goethe e Banning relatadas neste texto. E quem seriam os profetas do nosso tempo? As mais importantes profecias do século XX foram, sem dúvida, as de Fátima: o advento do comunismo (detalhe: as aparições ocorreram entre março e outubro de 1917, o período de gestação da revolução bolchevique), a segunda guerra mundial, a disseminação “dos pecados da Rússia pelo mundo”, a perseguição dos cristãos nos regimes comunistas e, por fim, a conversão da Rússia, que talvez signifique o fim da URSS. Essa conversão se daria após a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Tal consagração teria sido realizada pelo Papa João Paulo II na década de 1980. Mas o pior vem depois: no fim da segunda mensagem constam as seguintes palavras: “O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. Atentai: “algum tempo de paz!” Não é certo que vivemos um período de paz completa, que, aliás, nunca houve e nunca haverá (profecia minha) na História da humanidade. Mas não há comparação entre o período que se seguiu ao fim da Guerra Fria e o século XX. Não houve guerras e catástrofes proporcionais às do século mais sangrento da História, nem se vive a mesma tensão do período 1945-1991. Seria o nosso o tempo de paz a que se refere a mais acertada das profecias do século XX? Mas se é um período, e apenas um período, isto significaria que podemos esperar, para o futuro, um novo período de terríveis guerras e catástrofes tais como as que o século XX experimentou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um interessante estudo teológico do então cardeal Ratzinger sobre os acontecimentos de Fátima você encontra no endereço abaixo:&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html"&gt;http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-1221968748093868631?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/1221968748093868631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=1221968748093868631' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1221968748093868631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1221968748093868631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2008/01/otto-maria-carpeaux-e-as-profecias.html' title='OTTO MARIA CARPEAUX E AS PROFECIAS.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/R5abVG2UgDI/AAAAAAAAADQ/xquF8RpWAy4/s72-c/Carpeaux+3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-2135341667993101713</id><published>2007-09-02T18:59:00.000-03:00</published><updated>2007-09-02T19:21:57.557-03:00</updated><title type='text'>MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS – A ORIGEM DOS GRANDES ERROS FILOSÓFICOS.</title><content type='html'>&lt;em&gt;"O que amedronta é ver antigas concepções, que foram derruídas pela análise e refutadas por rigorosas argumentações, retornarem como fantasmas, para preocuparem outra vez mentes desprovidas...”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Este ano Mário Ferreira dos Santos, o maior filósofo brasileiro, completaria 100 anos se estivesse vivo. É autor da colossal Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais com mais de 40 volumes na qual passa em revista todos os grandes temas da Filosofia, não como um mero autor de manuais como pensava Miguel Reale, que nunca o tinha lido, mas da perspectiva de uma Filosofia original que mescla influências de Pitágoras, Platão, Aristóteles e dos grandes escolásticos, na busca ousadíssima do que ele chamava a Mathesis Magiste, o que vislumbro como sendo aquilo que dá título a um de seus livros: “a sabedoria das leis eternas.” Tudo escrito numa linguagem que ele pretendia ser acessível a leigos e a doutores. Aqui pretendo comentar apenas um de seus livros, senão inédito, já há muito esgotado e pouquíssimo conhecido, “A Origem dos Grandes Erros Filosóficos”, um holofote poderoso para quem deseja atravessar ileso a selva densa e escura do pensamento moderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O século XX trouxe um mar de doutrinas e filosofias que só serviu para instaurar confusão. Wittgenstein, Heiddeger, Foucault, Habermmas, Luckáks, Sartre Deleuze, etc: se você tenta ler estas coisas fica sem saber se louco é você ou se são eles. Seria de se perguntar: todas estas doutrinas e filosofias são novidades ou são a reedição de idéias já há muito refutadas em algum lugar do passado. A tradição filosofia não é uma evolução contínua, em certos momentos históricos corta-se a linha de continuidade e os filósofos põem-se a reinventar a roda ou a cair em erros que já há séculos foram superados. Não seria o caso de muitas destas filosofias do século XX e mesmo dos séculos passados. Um exemplo é dado pelo próprio Mário Ferreira dos Santos: Kant que, segundo José Guilherme Merquior, era o príncipe da filosofia moderna, inaugurador quase que de uma Nova Aliança para o pensamento filosófico, era profundamente ignorante sobre a riquíssima tradição filosófica escolástica. Tudo o que sabia a respeito dela viera a saber através da versão deturpada de um divulgador filosófico que não compreendera bem a Escolástica, um tal Wolff. Mário entende que a filosofia de Kant é então uma regressão: muito do que ele afirma já havia sido objetado e refutado pelos filósofos medievais. Aqui reproduzo a introdução do livro, atrativo retórico para um livro que nada tem de retórica, mas de pura demonstração filosófica apodítica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;É inegavelmente de grande perplexidade a emoção que invade o homem moderno, quando perpassa os olhos pelas idéias que nos dois últimos séculos dominaram o campo da criação e do pensamento humanos.&lt;br /&gt;É espantoso, sem dúvida, o número imenso de sistemas, de escolas de filosofia, de doutrinas sociais, de hipóteses e mais hipóteses, que substituem umas às outras, numa sarabanda sem fim.&lt;br /&gt;Se passarmos os olhos pelas diversas épocas, verificaremos desde logo que os que mais brilharam, os que receberam o afago dos elogios fáceis, os que empolgaram mais facilmente grupos imensos de admiradores não foram os maiores de sua época, mas os menores, os que encontram um lugar inexpressivo na história do conhecimento humano.&lt;br /&gt;Não é de espantar que, em Atenas, a democracia grega (que o era apenas de uma minoria de senhores e de uma maioria de escravos) condenasse Sócrates à morte, porque ele ensinara aos homens serem mais dignos, mais nobres e mais honestos? Não é de espantar que Platão permanecesse quase anônimo ante o seu povo, enquanto um Górgias, um Hipias brilhavam como luminares do saber?&lt;br /&gt;E não se acusem os gregos desse defeito. Ele se repete sempre em toda a história humana. Não vimos em pleno século XVIII Hegel pontificar na Alemanha como filósofo absoluto, Krause, no fim do século passado, empolgar multidões de pensadores, Bergson brilhar no princípio deste com uma auréola que empalidecia os grandes luminares do passado, e modernamente um Sartre ser erguido às culminâncias, para em muito breve despencar-se, enquanto ainda há literatos da filosofia que ascendem um Russel, um Moritz aos pináculos do conhecimento?&lt;br /&gt;Não vimos a tremenda propaganda que em nossos dias receberam vultos de medíocre valor, a ponto de serem considerados por muitos como definitivos marcos no caminho do saber, após os quais nada mais cabia para ser feito?&lt;br /&gt;Quem passar os olhos pelo campo da ciência, e assiste essa enxurrada de hipóteses, que tombam, substituídas por outras que não resistem, para tombarem também, a ponto de num ano, haver tantas modificações no conhecimento científico, tantas REFUTAÇÕES, tantas substituições de teorias e hipóteses, que ninguém mais é capaz de acompanhá-las, verifica que os livros de divulgação científica tornam-se obsoletos em alguns meses.&lt;br /&gt;Teorias que não resistem a uma estação são imediatamente abandonadas, depois de haverem sido saudadas como soluções definitivas.&lt;br /&gt;Não é mister alongarmo-nos nos exemplos, porque são tantos e tão curiais, que não há quem não se amedronte ante a apavorante marcha do conhecimento humano, e não tem, por sua vez, que a doutrina que hoje segue como verdadeira não seja acoimada, amanhã, de erro, e abandonada afinal.&lt;br /&gt;Mas o espantoso não é apenas este, porque se apenas assim acontecesse, poder-se-ia afirmar que tais fatos revelariam um desenvolvimento da capacidade humana, que tende cada vez mais para uma análise mais perfeita, tornando-se capaz de captar os erros das diversas posições, substituindo as doutrinas erradas por outras julgadas melhores, que, por sua vez penetre num campo de realizações extraordinárias, e possa alcançar afirmações definitivas.&lt;br /&gt;Poder-se-ia, assim, afirmar que seria a revelação de uma saúde mental, de um vigor criador do homem: um sinal da evolução criadora do seu espírito.&lt;br /&gt;Mas o que espanta é a ressurreição de velhos erros já refutados!&lt;br /&gt;O que amedronta é ver antigas concepções, que foram derruídas pela análise e confutadas por rigorosas argumentações, retornarem como fantasmas, para preocuparem outra vez mentes desprovidas, a dos que desconhecem essas refutações, e se apresentarem, então, como NOVIDADES, como confecções perfeitíssimas, segundo o último modelo intelectual, provocando em mentes não devidamente a par do que já foi realizado, espasmos de satisfação, exaltações de gozo, como se fora atingida a quintessência das coisas.&lt;br /&gt;Tal espetáculo é de causar dó. E causa dó, não porque tais idéias surgem em cérebros primários, em pessoas que não tiveram meios de obter melhores conhecimentos, em pensadores improvisados, mas em homens que CURSARAM UNIVERSIDADES, que ostentam como a maior façanha do mundo o seu diploma, como o maior título de glória, existente, e que é um atestado irrefutável (apenas para eles), de que são realmente sábios no assunto, senhores do saber, e que tais atestados lhes garante a AUTORIDADE NA MATÉRIA, como se alguém que já cursou uma escola superior e possui um diploma, intimamente não soubesse como se fabricam diplomados, nem tampouco o real valor de suas escolas e de muitos pseudos-mestres.&lt;br /&gt;Mas, por que tais coisas se dão? Por que retornam as mesmas idéias que os sofistas gregos haviam espalhado, e que receberam a mais cabal das refutações, para surgirem agora como avatares de velhas formas mortas e ora ressurrectas? Como se compreende que posições como o cepticismo, o relativismo, o agnosticismo, desmontadas eficazmente pelos luminares do pensamento grego, conheçam hoje em dia um renascimento inesperado e encontrem cultores entre homens julgados como expoentes do conhecimento humano?&lt;br /&gt;Por que doutrinas, fundadas em primários erros de Lógica, que qualquer estudante melhor avisado os evitaria, são, depois, defendidas por filósofos que adquirem renome e se propagam como se propaga a má erva?&lt;br /&gt;E o que mais espanta, o que mais contrista, é que tais erros perduram, atravessam os anos, penetram pelos séculos, e surgem aos olhos de muitos como esplendorosas realizações da mente humana.&lt;br /&gt;É apenas à ignorância que se devem debitar tais coisas, ou aliam-se a ela a má fé e segundas intenções? Será produto de uma deficiência do espírito, ou obedece a uma intencionalidade que não pode ser confessada?&lt;br /&gt;Se se pudesse apenas debitar tais erros à má fé, naturalmente que seriam eles ignominiosos. Mas não é apenas a ela que se deve fazê-lo, mas, sobretudo, a um descaso no estudo da Lógica, a uma falta de melhor raciocínio, a ignorância do que já se fez nesse terreno. E  quando são estes os motivos que os geram, tais erros são apenas de lamentar. Realmente causa dó o espetáculo que se assiste.&lt;br /&gt;Mas o pior não está apenas na messe de erros, se tais erros não fossem fatores de maiores males para a humanidade. O deplorável em tudo isso é que tais erros se multiplicam, geram atitudes e tomadas de posições, que têm arrastado os homens a sérios conflitos, e muitos cadafalsos foram erguidos para liquidar os que não seguem tais posições. Muitos crimes se praticaram em nome de tais erros, e muito sangue se derramou por culpa deles.&lt;br /&gt;Esta a razão por que se impõe denunciá-los. É mister que os mostremos à luz meridiana, que os escalpelemos com todo o rigor, para que a calva nua transpareça plenamente. É mister advertir os bem intencionados para que não sejam vítimas de tais erros, para que possam compreender por que a perplexidade avassala o homem moderno, entendendo, então, por que tais erros se repetem e conquistam adeptos. É mister fazer essa obra de denúncia, por que não é mais possível deixar que tantos males se repitam e se multipliquem.&lt;br /&gt;O que empreendemos nesta obra é essa denúncia. Queremos apenas contribuir para avisar os bem intencionados para que se livrem da ação maléfica daqueles que perturbam a inteligência humana, obnubilando-a com tantos vícios, a fim de permitir que muitos possam escolher, mas escolher com responsabilidade, entre o que é errado e o que é certo. Não terão amanhã o direito de alegar ingenuidade ou ignorância, porque patenteado o erro, debruçar-se sobre ele e segui-lo é indício de mau caráter ou de morbidez.&lt;br /&gt;Com essa intenção construtiva foi realizada esta obra.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-2135341667993101713?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/2135341667993101713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=2135341667993101713' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2135341667993101713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/2135341667993101713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/09/mrio-ferreira-dos-santos-origem-dos.html' title='MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS – A ORIGEM DOS GRANDES ERROS FILOSÓFICOS.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-266181522714511563</id><published>2007-08-31T00:15:00.000-03:00</published><updated>2007-08-31T00:58:23.071-03:00</updated><title type='text'>MULTICULTURALISMO POLITICAMENTE CORRETO NO GINÁSIO</title><content type='html'>“Já reparou na inocência cruel das criancinhas?”&lt;br /&gt;(Cazuza)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na classe multiculturalista da quinta série o menino católico diz ao menino muçulmano:&lt;br /&gt;- Seu pai é tarado, Bin Laden. Casou com quatro mulheres.&lt;br /&gt;- Que é isso Juninho, respeite o multiculturalismo. - repreende a professora paulofreireana.&lt;br /&gt;- Não respeito tarados. Meu pai só tem uma mulher.&lt;br /&gt;- Tem razão, o homem só pode ter uma mulher – colabora o judeusinho.&lt;br /&gt;- Cala a boca, B&lt;em&gt;ig Nose&lt;/em&gt;, a conversa não chegou no chiqueiro. – ataca novamente o católico&lt;br /&gt;- Estúpido!&lt;br /&gt;- Assassino de Cristo.&lt;br /&gt;- Não fui eu que matei Cristo. Não existe culpa coletiva, né professora?&lt;br /&gt;- É verdade, também não existe o pecado original – diz o muçulmanosinho meio chorando, timidamente.&lt;br /&gt;O protestante resolve meter seu bedelho para provocar o católico:&lt;br /&gt;- Tarado por tarado eu ainda prefiro o pai do Murramede, pelo menos ele só transa com as mulheres dele, enquanto os padres transam com criancinhas.&lt;br /&gt;- Idiota! Seu pai é que é tarado, pega metade do salário dos fiéis e vai pra Miami andar de iate com um monte de prostitutas.&lt;br /&gt;A professora está atônita, não sabe como encerrar a discussão. A coisa parece piorar.&lt;br /&gt;Um menino baiano do afoxé filhos de Gandhi quer se meter:&lt;br /&gt;- Que é isso meninos, precisamos é de paz. Jesus é lindo, Maomé é lindo, Martim Lutero é lindo. É tudo a mesma coisa...&lt;br /&gt;- Hare Krishna maconheiro – alfineta outra vez o catolicosinho cada vez mais irado.&lt;br /&gt;- Grande Inquisitor! – grita um menino lá no fundo para a surpresa de todos, pois nunca antes tinha aberto a boca em sala de aula. Era um cristão ortodoxo dostoievskiano.&lt;br /&gt;- Dostoievski comia criancinha – invectiva novamente o católico. Era, de fato, o mais envenenado.&lt;br /&gt;- Comunista é que come criancinha. Dostoievski não era comunista. – diz o ateusinho liberal randiano.&lt;br /&gt;- Você não leu O Capital. Marx não mandava comer criancinhas. – tem sempre um marxista na classe, é claro.&lt;br /&gt;- Burros! Não é disso que eu estou falando. Se vocês bem me entenderam eu não falei que Dostoievski comia criancinhas pela boca, assim ó. Quem come criancinha assim é o pessoal desse índio aí. Vai vestir uma roupa decente rapaz! – volta à carga o católico.&lt;br /&gt;Neste instante, um menino asmático e raquítico que tivera icterícia na infância se levanta e, manquitolando, vai até à frente. Quer matar a discussão:&lt;br /&gt;- Na verdade todos aqui é que são idiotas, são todos fracos. Religião é moral de rebanho. Eu é que sou o super-homem e não acredito em nada disso.&lt;br /&gt;A classe toda cai na gargalhada. A professora está quase em desespero. De repente, soa o sino do recreio e sai todo mundo para jogar pelada no pátio e acaba a discussão.&lt;br /&gt;- O negão vai pegar no gol no meu time.&lt;br /&gt;- Afrodescendente, afrodescendente, Juninho! – corrige a professora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-266181522714511563?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/266181522714511563/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=266181522714511563' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/266181522714511563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/266181522714511563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/08/multiculturalismo-no-ginsio.html' title='MULTICULTURALISMO POLITICAMENTE CORRETO NO GINÁSIO'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-587484497977733826</id><published>2007-08-25T13:31:00.000-03:00</published><updated>2007-08-25T13:32:46.222-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-587484497977733826?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/587484497977733826/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=587484497977733826' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/587484497977733826'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/587484497977733826'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/08/blog-post.html' title=''/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-1512141270582123120</id><published>2007-08-10T21:12:00.000-03:00</published><updated>2007-08-22T01:38:31.690-03:00</updated><title type='text'>A HISTÓRIA CONTINUA - VERKOVENSKI E CHATOV NO SÉCULO XXI</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rr0AJM11xgI/AAAAAAAAABM/VF323ZYsjB8/s1600-h/vladimir_putin2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5097230511319139842" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rr0AJM11xgI/AAAAAAAAABM/VF323ZYsjB8/s400/vladimir_putin2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rr0ADc11xfI/AAAAAAAAABE/qrgcfxfdMT8/s1600-h/Litvinenko.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5097230412534892018" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rr0ADc11xfI/AAAAAAAAABE/qrgcfxfdMT8/s400/Litvinenko.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A História não acabou. Fukuyama no futuro será lembrado como um personagem tão tolo quanto o Primeiro Ministro inglês Chamberlain que, às vésperas da 2ª. Guerra Mundial, garantia que Hitler não era uma ameaça, ou quanto à primeira-dama de província Julia Mihailovna que acreditava poder conter a fúria dos demônios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, Nechaiev/Verkovenski ainda deixa herdeiros no século XXI. Sua herança é mantida pela velha KGB, hoje FSB, que domina politicamente a Rússia “democrática”. O principal herdeiro nestes tempos é o presidente Vladimir Putin, um terrorista de Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O século XXI também tem os seus demônios arrependidos, os seus Chatovs. No final do último ano mais um foi sacrificado. Trata-se do ex-espião russo Vladimir Litvinenko. Tal como Chatov tinha desertado de uma organização e sabia demais. Litvinenko vivia na Inglaterra e estava investigando a morte da jornalista russa Ana Politikovskaya, inimiga do regime de Putin. A jornalista teria sido morta porque investigava denúncias de que o presidente russo seria o verdadeiro autor por trás de atentados imputados à terroristas chechenos. Estes atentados, ocorridos em 1999 na Rússia, seriam usados como pretexto para desencadear a segunda guerra de Chechênia e aumentar o poder de Putin (veja um resumo da História em &lt;a href="http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5967&amp;language=pt"&gt;http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5967&amp;amp;language=pt&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Litvinenko, segundo as investigações das autoridades britânicas, foi envenenado com polônio-210. Não morreu imediatamente, mas definhou rápido em 22 dias, vindo a falecer em 23 de novembro de 2007. Teve tempo suficiente para deixar claro que considerava Vekovenski/Putin o seu assassino. Parecia não ter dúvidas quanto a isto. Dirigindo-se ao presidente russo escreveu em uma carta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você pode ter êxito em me silenciar-me, mas esse silêncio vem com um preço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em maio do presente ano, promotores britânicos ofereceram denúncia contra Lugovoi, agente russo que jantou com Litvinenko pouco antes de ele ser internado. Chatov foi sacrificado novamente. Verkovenski continua a tramar nas trevas os seus planos macabros. Recentemente retirou sua adesão ao Tratado de Armas Convencionais da Europa.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-1512141270582123120?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/1512141270582123120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=1512141270582123120' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1512141270582123120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1512141270582123120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/08/histria-continua-verkovenski-e-chatov.html' title='A HISTÓRIA CONTINUA - VERKOVENSKI E CHATOV NO SÉCULO XXI'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rr0AJM11xgI/AAAAAAAAABM/VF323ZYsjB8/s72-c/vladimir_putin2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-5060367844334364013</id><published>2007-08-08T19:54:00.000-03:00</published><updated>2007-08-22T02:10:25.950-03:00</updated><title type='text'>BREVE ENSAIO SOBRE OS DEMÔNIOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp3.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RrpSBs11xdI/AAAAAAAAAA0/gxeoghK6y3U/s1600-h/stalin-Lenin.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5096476117493466578" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RrpSBs11xdI/AAAAAAAAAA0/gxeoghK6y3U/s400/stalin-Lenin.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Impossível não ler esta obra profética e alucinante do maior romancista de todos os tempos e não ceder à tentação de deitar no papel todas as impressões e possibilidades de interpretações que ela nos sugere, por mais que já se tenha escrito sobre ela. Aqui me atrevo a falar desta obra, tentando dissecar cada um dos demônios que ela encerra. Começo pelo que primeiro faz a sua aparição, logo no primeiro capítulo, o patético Estevão Trofimovitch Verkovenski, demônio pai do demônio maior da obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ESTEVÃO TROFIMOVITCH VERKOVENSKI&lt;/strong&gt; se tivesse vivido de verdade (e custo a acreditar que os personagens de Dostoievski não eram pessoas de verdade, tamanha a verossimilhança) ele seria certamente o Rousseau &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;fracassado da Rússia. Sua vida inteira foi um monumental fracasso, faz lembrar o finado Braz Cubas. Fez alguma fama na Europa como intelectual liberal na primeira metade do século XIX, mas depois foi esquecido de todos. Voltou para a Rússia onde se tornou preceptor do filho de uma senhora da nobreza russa, Bárbara Petrovna. Seu ego inflamado o fazia crer que era maior do que sua própria realidade, por isso se julgava um eterno incompreendido e um injustiçado. Bárbara é a sua protetora e lhe tinha amor, mas este só é revelado nos momentos finais da obra, quando o velho Verkovenski tinha seus estertores. Mas Estevão, que julgava ser o grande intelectual russo, não compôs nenhuma obra importante, e não influiu em nada nos acontecimentos políticos. Na maturidade, perdeu o bonde da história do movimento revolucionário. Ele e Bárbara vão à São Petersburgo desejosos de participar da agitação cultural e política russa. Se metem num grêmio de intelectuais proguessistas, mas lá o velho Estevão é ridicularizado. É um grupo de intelectuais e beletristas sem estratégia política e com objetivos ainda obscuros. Assemelha-se ao grupo de Petrachevski do qual Dostoievski fez parte no final da década de 1940. Sobre este grupo de Petrachevski escreveu um biógrafo de Dostoivski:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Que se passa nesse círculo de revolucionários? Verdadeiramente nada de importante: alguns rapazes reúnem-se em volta de Petrachevski; fumando e bebendo chá, falam de literatura, de política; criticam o regime, censuram o estado deplorável dos camponeses, da economia, da sociedade de maneira geral. Nenhum programa definido, nenhum plano de ação.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mas logo, um elemento novo se imiscui no grupo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Mais tarde surge no grupo um novo elemento, um tal Spiechniov, indivíduo estranho que acabará por fazer decidir Dotoievski a passar das palavras à ação. Ele próprio é partidário da ação, ainda que tenham que recorrer a meios violentos.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Spiechniov pertence a uma nova geração, já marxista e revolucionária, com planos concretos de ação. No romance, corresponde a geração de Pedro Verkovenski que sucede a de Estevão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estevão é a personificação do romantismo, do liberalismo, do nacionalismo e do “socialismo não-científico”. Mas a nova geração já tinha aderido a uma nova etapa do movimento revolucionário. È uma geração mais linha dura, mais cruel e mais realista quanto às estratégias de tomar o poder. Já é o tempo do marxismo. &lt;em&gt;“Estava-se numa época estranha. Nascera qualquer coisa que em nada se parecia com o passado tão calmo, qualquer coisa na verdade muito esquisita, mas se sentia por toda a parte, até mesmo em Skvorechniki&lt;/em&gt;”, assim comenta o narrador sobre aquele novo tempo. Nele as idéias tresloucadas e ainda confusas dos literatos russos começam a ganhar realismo e a se transformar em estratégia política. Marx absorveu todo o legado do Iluminismo, de Rousseau, e dos socialistas utópicos e jogou os seus antepassados intelectuais na lata de lixo. Já não precisava mais daquilo tudo, porque ele era a grande Síntese de todo o passado. Construíra seu monstruoso sistema com o que havia de prestável nos antecessores. Rousseau, Hegel, Proudhon, Saint Simon, Fourrier, Owen, Feuerbach, Stirner e em todos os outros liberais e socialistas de antanho estavam superados. Marx tratou de condenar um a um e de afirmar que superava a todos. Da mesma forma os novos revolucionários russos desprezam o velho Estevão Verkovenki. O mesmo desprezo que seu filho demonstrará mais tarde. &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estevão Trofimovitch é o personagem de Dostoievski que mais parece confirmar a tese de Mário Vieira de Melo sobre o esteticismo. O belo é tudo o que lhe interessa. É um Rousseau eslavo porque tal como o genebrino mente o tempo todo para embelezar a sua própria vida, para torná-la mais fascinante, aventureira, sacrificando a realidade e a própria consciência. “Menti-lhe há pouco, por completo, por vaidade, por futilidade para tornar as coisas mais belas. De ponta a ponta, até a última palavra! Que miserável!” , confessa Estevão no leito de morte a uma mulher do povo a quem a pouco contara uma fantástica e fantasiosa história sobre a sua vida. O belo é tudo o que lhe interessa. Na festa literária de Júlia Mihailovna, que antecede as grandes desgraças do livro, sobe no palco para dizer que o problema da nova geração de revolucionários é a falta do valor do Belo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Sabem, sabem muito bem que a humanidade pode viver sem os ingleses, pode viver igualmente sem os alemães, sem os russos ainda melhor, pode viver sem a ciência, sem o pão; mas sem a beleza isto é impossível, porque então nada mais haveria, nada mais, a fazer neste mundo! Eis todo segredo, toda a história! A própria ciência não resistiria um minuto sem a beleza, saibam-no os que riem: transformar-se-ia numa coisa grotesca, não seria capaz sequer de inventar um simples prego! Nunca cederei! – gritou de forma absurda e à maneira de conclusão, batendo com toda a força com o punho na mesa.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Como se vê acima, o Princípio do Belo está acima de tudo para Estevão. Mas a autonomização do Princípio Estético e sua sobreposição sobre o Princípio Ético e sobre o Princípio de Verdade trazem conseqüências nefastas, nos advertida o tão esquecido Mário Vieira de Melo. Dedicando-se a vida toda ao Belo, Estevão se esquece da verdade e de seus deveres morais. É desta forma que gera o demônio Verkovenski e foi desta forma que gerou o demônio-causa-eficiente das desgraças do livro, FEDKA. A sua patética aparição na festa literária é interrompida pela voz da verdade de um cínico estudante revolucionário:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“- Estevão Trofimovitch! – bradou alegremente o estudante – Fedka, um presidiário evadido, anda neste momento ai pela cidade e pelos arredores. Ele rouba e, ainda há pouco, cometeu um novo assassínio. Deixe-me então perguntar-lhe: se há quinze anos, não o tivesse vendido como recruta para pagar uma dívida de jogo, ou seja, mais simplesmente, se não o tivesse perdido às cartas, diga-me: ele teria sido condenado a trabalhos forçados? Mataria pessoas como faz agora, na sua luta pela existência? Que me diz a isto, senhor esteta?"&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;“Que me diz a isto, senhor esteta?” A mesma pergunta caberia fazer a Rousseau se ele tivesse vivido para ver o terror jacobino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a mentira essencial de sua vida não resiste ao horror da iminência da morte. Não é possível mentir neste momento, não é possível enganar a indesejada das gentes. Pela primeira vez na vida, Estevão, o mentiroso esteta, é assaltado pela verdade que salta à sua consciência e desta para fora através de sua boca:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“- Menti, minha amiga, toda a vida. Até quando dizia a verdade. Nunca falei para dizer a verdade, mas só para mim. Eu já o sabia, mas só agora o vejo... Oh! Onde estão os amigos que eu ofendi toda a vida? E todos, todos! Savez vous, eu minto talvez também agora, eu minto com certeza também neste momento. O pior é que acredito em mim próprio quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar nas suas mentiras. Sim, é isso mesmo! Mas, espere, falemos disto tudo mais tarde... Estamos juntos, juntos! – acrescentou com entusiasmo.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sua morte é comovente. Em seus últimos momentos de consciência parece redescobrir o Deus que negara a vida toda. &lt;em&gt;“Deus é-me indispensável, quanto mais não seja porque é o único ser a quem se pode amar eternamente.” “A minha imortalidade é indispensável, pois Deus não há-de querer cometer uma injustiça e apagar para sempre a chama do amor por Ele que se acendeu no meu coração.” “Só a idéia eterna de que há qualquer coisa de infinitamente mais justo e feliz do que eu me enche por completo de uma ternura sem limites e de glória! Seja eu quem for, seja o que tenha feito! Muito mais do que a sua própria felicidade, é necessário ao homem saber e acreditar em cada momento que há em qualquer parte uma felicidade perfeita e calma para tudo e para todos. A lei da existência humana consiste em que o homem pode sempre inclinar-se perante o infinitamente grande.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Embora sejam belas as suas últimas palavras, não é a mentira esteticista que fala, mas a verdade de um aflito em busca de alívio que enfrenta pela primeira vez a sua “lição de trevas” e quer salvar a sua alma nestes últimos instantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estevão Verkovensi morre aceitando a mais terrível das verdades: que em toda a sua vida nunca fora nada, que fora apenas um miserável. Mas a sua irresponsabilidade esteticista deixou frutos perniciosos. O pior deles, Pedro Stepanovitch Verkovenski, filho que não criou e que só vira em dois momentos até que fizesse a sua aparição fatal, o demônio maior do romance, o autor de todas as desgraças que se abateram sobre a província em que se passa a trama. Mas antes de falar dele, é preciso falar do outro grande demônio da obra, inspirador de Verkovenski, motivo de seu desejo mimético, o contraditório e inexplicável Nicolau Vsevolodovitch Stavroguine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NICOLAU VSEVOLODOVITCH STAVROGUINE&lt;/strong&gt; é Hamlet reencarnado na Rússia do século XIX. Tal como o doidivanas da Dinamarca é um aristocrata cuja maior marca é a lucidez imperturbável, uma lucidez e uma consciência terríveis, mesmo da própria sordidez. O crítico norte-americano Harold Bloom afirma que o príncipe Hamlet é um “herói da consciência.” Mas um herói da consciência e de mais nada. Não é um homem virtuoso, é ambicioso, cruel, vingativo, libidinoso. Mata Polônio sem o menor escrúpulo e acaba causando a morte de Ofélia sem demonstrar remorsos. Mas é a consciência mais viva e alerta do podre reino da Dinamarca de cuja podridão participa. Não busca racionalizar nem justificar seus próprios vícios e reside aí o seu heroísmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também Stavroguine é de uma lucidez inabalável. Só ele e Verkovenski sabiam de todos os planos para aterrorizar a província. O romance termina com os seguintes períodos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“(...) Tudo aquilo indicava claramente a premeditação e que Stavroguine conservara a plena lucidez até os últimos instantes.&lt;br /&gt;Após a autópsia do corpo, os nossos médicos puseram formalmente e unanememente de lado a hipótese de alienação mental.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E em sua última carta confessa: &lt;em&gt;“Nunca poderei perder a razão...”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como Hamlet tem também a sua Ofélia na inocente e bela Lisa, uma jovem da nobreza russa a quem não podia amar, como Hamlet não amava Ofélia. É como Hamlet o causador indireto de sua morte. No dia da festa e do grande incêndio, Isabel chega a casa de Stavroguine a quem ama levada por Verkovenski. Tem a ingênua esperança de que o demônio aristocrata a queira bem, esperança alimentada pela astúcia de Verkovenski. Stavroguine vê em Lisa um fio de esperança, o vislumbre de uma possibilidade de redenção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“tinha uma esperança... há muito... Era a última... Não pude resistir à luz que me iluminou o coração quando ontem entraste em minha casa só por tua vontade... Acreditei de súbito... Pode ser que ainda agora creira...”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mas Svroguine estraga tudo ao não poder resistir aos ditames de sua natureza demoníaca: &lt;em&gt;“Sabia que não te amava e perdi-te.”&lt;/em&gt; Sim, Svroguine aproveitou-se da ingenuidade de Lisa e a desvirginou (ou o que mais poderia significar o “perdi-te”), sem a amar. Sem saber, estaria levando Lisa naquele momento à morte, morte que ela antevê como inevitável. Ao sair do palácio de Stavroguine com o impotente Mavriki Nicolaevitch que a ama, acaba por dar no meio da cenário convulso do grande incêndio. A população histérica está em busca de um bode expiatório e o encontra em Lisa. Matam-na porque acreditam que Nicolau é o causador do incêndio&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt; e ela cúmplice. Aqui não há como não lembrar René Girard: o incêndio é um símbolo da crise sacrificial e Lisa o bode expiatório que surge para extingui-lo e restabelecer uma paz temporária.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que me parece, Stavroguine é demoníaco por natureza, e Verkovenski por emulação, porque este tinha naquele o objeto de seu desejo mimético, como pretendemos demonstrar mais adiante. O mal é uma força bruta que está embutida em suas próprias entranhas. “Posso ainda, como sempre pude, querer fazer o bem como fazer o mal e sinto nisso prazer”, declara em sua última carta. Nos primeiros capítulos do livro, quando é ainda um adolescente, o impulso para causar o mal se apresenta nele como uma força espontânea e irresistível. Há um episódio em que um homem diz que não faria tal coisa nem que o puxassem pelo nariz, pois eis que Stavroguine, no meio de uma reunião da alta sociedade, arremete contra o homem, mete-lhe a mão no nariz e o arrasta fazendo dar três passos pela sala. Pouco depois, em uma reunião em casa de Liputine (outro demônio menor da obra), aos olhos de todos, atraído pela beleza da filha do anfitrião, salta sobre ela e tasca-lhe três beijos na boca, para o escândalo de todos. Por fim, no gabinete do governador, o palerma João Ossipovit, onde deveria pedir desculpas pelos incidentes, pede o ouvido do mesmo para dizer uma confidência e lasca-lhe uma mordida na orelha que lha trinca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Stavroguine adulto é também um homem torturado pela consciência. Diz a verdade o tempo todo. Não tem medo de desmentir Verkovenski na frente de Lisa e confessar que, por omissão, foi responsável pelo assassinato de Maria Timofeevna e de sua família: &lt;em&gt;“Não matei, opus-me até. Mas sabia que seriam assassinados e não sustive a mão dos criminosos.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Stavroguine parece viver entre a luz e as trevas. Sabe do mal que causa, mas não consegue contê-lo. Às vezes se esforça para evitar fazer o mal, como no duelo quando, por três vezes, tem a chance de matar o adversário, mas atira para o alto, ou quando resiste a retaliar a agressão que Chatov lhe faz. Ou ainda quando revela à sociedade, na casa da mulher do governador da província, a verdade sobre o seu caso com Maria Timofeevna: como Hamlet não contém seus impulsos sádicos, mas não contém o impulso de dizer a verdade. Buscava a redenção. Na sua última tentativa, convoca Daria Pavlovina, irmã de Chatov (personagem importante de quem falaremos adiante) para viver com ele na Suíça em uma vida tranqüila entre as montanhas. Mas desiste da sua última tentativa de redenção. Volta a sua casa e enforaca-se, ato final do romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que Stavroguine, embora sendo a consciência mais poderosa do romance, não consegue, e às vezes não quer mesmo, conter os seus impulsos satânicos? Talvez a resposta tenha sido dada pelo demônio Kirilov, obscura personagem do livro. Mais a diante falaremos deste personagem que em seu diálogo final com Verkovenski traz talvez a chave para a compreensão da fúria dos demônios. E a explicação, já me adianto, é a incapacidade que ambos, Kirilov e Svroguine, têm de acreditar em Deus. Saltemos agora para o demônio maior do romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PEDRO STEPANOVITCH VERKOVENSKI&lt;/strong&gt;, na História russa, encontra seu protótipo no jovem Netchaiev, autor junto com Bakunine do “Catecismo Revolucionário”. Segundo Edmund Wilson, Netchaiev era “&lt;em&gt;um rapaz de vinte e um anos, enérgico, decidido e virulento, o tipo do conspirador perfeito, dotado daquele “diable au corps”&lt;/em&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;&lt;em&gt;[&lt;/em&gt;5]&lt;/a&gt; Esta breve descrição do grande historiador americano pode ser transposta perfeitamente para Verkovenski. Tal como Verkovenki trama o assassinato de um de seus companheiros, Ivanov, e foge do país. Tal como o filho de Estevão, Netchaiev vive sonhando com sociedades secretas e mentia sistematicamente sobre o tamanho e alcance da organização.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;[6]&lt;/a&gt; Exatamente como Pedro Verkovenski.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verkovenski chega à província onde se passa a história e forma uma célula revolucionária que faria parte de uma vasta organização espalhada por todo o território russo. Da célula fazem parte Chigaliev, Liamchine, Virguinski, Liputine e Tolkatchenko. Mais tarde surge Erkel, jovem militar que segue a Verkovenski com um amor louco, como se fosse o seu Deus pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nenhum destes demônios arregimentados tem certeza da existência desta organização misteriosa que, diz-se, estaria ligada à Internacional Comunista. O objetivo de cada célula era de abalar os alicerces da sociedade, instaurando o terror através de atentados.Instaurariam a confusão universal e depois se apresentariam como a salvação, tomando o poder. É evidente que Verkovenski mentia sobre o alcance e tamanho da organização. É duvidosa mesmo a existência dela. Como Verkovenski é o mais hábil mentiroso da História da Literatura Universal, só encontrando par em Iago, é óbvio que ele mentia sobre estas tais células espalhadas por todo território russo. Verkovenski enganou a todos, inclusive a seus companheiros. Só não enganou, como dissemos, à consciência mais desperta do romance, Stavroguine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem Liputine está convencido da existência da organização. Após o grande incêndio e logo após o sacrifício de Chatov indaga a Pedro Verkovenski:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“- Responda-me sem mentir. Constituímos uma célula única, ou é verdade que há muitas centenas delas? Pergunto-lhe isto, com a mais elevada intenção, Pedro Stepanovitch.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Pedro responde com o seu cinismo e o diálogo prossegue:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“- Bem o vejo. Sabe, Liputine, que é mais perigoso do que Liamchine?&lt;br /&gt;- Sei, sei, mas responda-me!&lt;br /&gt;- Como é estúpido! Parece-me que lhe disse agora ser indiferente que houvesse uma célula, ou mil.&lt;br /&gt;- Quer dizer que há só uma! Bem o sabia eu! – exclamou Liputine. – Sempre soube que havia só uma, até hoje...”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;É óbvio que Verkovenski é Netchaiev, mas é também o Raskolnikov realizado. Todos aqueles que se decepcionaram com a conversão de Raskolnikov no final de “Crime e Castigo” deveriam ler “Os Demônios” para se deliciarem com Verkovenski, que não demonstra remorsos em nenhum momento, não tem as febres e crises nervosas daquele, não busca redenção e não acaba preso no final. Verkovenski é o único dos demônios que sai ileso no fim.  É o mal triunfante. Raskolnikovs no romance são Virguinski e Liamchine. Este último se arrepende e acaba por contar toda a história para a polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No futuro, Verkovenski reviverá em Lênin e em Stálin, todos eles conspiradores vitoriosos como Verkovenski. Mas ele está mais para Stálin que para Lênin, pois não é um intelecutal, é um animal cheio de vontade de poder e com astúcia bastante para alcançá-lo. Tal como Stálin quer que a teoria se dane. E manda o louco da idéia, Chigaliev, se danar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um parênteses para falar deste demônio. &lt;strong&gt;CHIGALIEV&lt;/strong&gt; é, como disse, um louco que vive no “mundo como idéia”. Na hora da execução de Chatov abandona a cena, ocultando a sua covardia sob o manto diáfano de suas desculpas ideológicas. Um dos capítulos mais fascinantes da obra é aquele em que Verkovenski reúne toda a legião dos demônios para uma reunião em que pretende firmar o compromisso com todos para que sejam fiéis aos seus planos revolucionários, custe o que custar. A reunião começa com uma discussão confusa e no meio dela eis que surge Chigaliev, o Fourier russo, mas muito maior que Fourier, para apresentar o seu plano para o futuro da humanidade, o mais perfeito de todos, o infalível, o supremamente imprescindível, sem o qual a Humanidade não terá outra salvação. Todos estavam errados antes dele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“-Tenho consagrado todo o meu entusiasmo ao estudo da organização social da sociedade futura que substituirá o estado de coisas atual e cheguei à convicção de que todos os construtores de sistemas sociais, desde os tempos mais recuados até este ano de 187... não passavam de sonhadores, de autores de contos de fadas, tolos que se contradizem a si próprios, nada percebiam da ciência natural nem deste estranho animal a que se dá o nome de homem.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Sim, cheguei de facto a desesperar; no entanto, tudo o que exponho no meu livro não pode ser substituído e não há outra solução; ninuguém a encontrará (...)”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;É o supra-sumo da megalomania alucinante. É um Marx &lt;em&gt;kitsch&lt;/em&gt;. E que vem a ser este sistema perfeito? Nada mais que Totalitarismo! Em poucas linhas o profético Dostoievski descreve o fenômeno que marcará o século XX pela boca de um “professor coxo”, adulador de Chigaliev:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“ Conheça o livro dele. Propõe, a título de solução definitiva do problema, que a humanidade seja dividida em duas partes desiguais. Um décimo obterá a liberdade individual e direitos ilimitados sobre nove décimos restantes. Estes perderão a sua individualidade e passarão a formar uma espécie de rebanho, devendo alcançar, graças a uma obediência absoluta e através de uma série de transformações, a inocência primitiva, qualquer coisa como o paraíso primitivo, embora tenham sempre que trabalhar. As medidas que o autor preconiza para extirpar a vontade a esses nove décimos da humanidade, para os converter num rebanho por meio da reeducação de gerações inteiras, são notáveis, baseadas em dados naturais e extremamente lógicas. Podemos não perfilhar algumas das suas conclusões, mas é difícil por em dúvida a inteligência e o saber do autor. Pena é que a cláusula das dez sessões seja praticamente incompatível com as circunstâncias, porque, se assim não fosse, poderíamos ouvir coisas muito curiosas.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Este trecho deveria ser usado nas escolas, pois explica da forma mais clara possível a verdadeira natureza do “socialismo científico’ ( “as medidas ... são notáveis, baseadas em dados naturais e extremamente lógicas”) e da “ditadura do proletariado” (“um décimo obterá a liberdade individual e direitos ilimitados sobre nove décimos restantes”). Nem o próprio Marx auxiliado por mil sociólogos da USP poderia explicá-los de forma mais clara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas deixemos o doente da idéia de lado, voltemos a Verkovenski. Como dizíamos, não é intelectual, despreza mesmo as idéias. Após a exposição de Chigaliev, interrompe a discussão e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“(...) Em minha opinião, todos estes livros, Fourier, Cabet, todos estes “direitos ao trabalho”, o chigalevismo, tudo isto é como os romances que se podem escrever às dezenas, as centenas de milhar. Um passtempo estético. Compreendo que se aborreçam aqui neste buraco e que se atirem, por isso, ao papel impresso.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não quer discutir idéias, quer apenas garantir o compromisso de todos com a misteriosa “causa comum” e com as maquinações que ele ainda não revela. Quer garantir que, aconteça o que acontecer, ninguém dará com a língua nos dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que no fundo Verkovenski quer é a destruição universal e obter o poder. Não tem ideais, nem objetivos muito claros. Não sabe o alcance desta destruição e deste poder. &lt;em&gt;“- É então verdade que não é um socialista mas... um político ambicioso?”&lt;/em&gt;, pergunta-lhe Stavroguine logo após a reunião, e a resposta parece-nos por demais óbvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As idéias de Verkovenski são demasiado confusas, chega a dizer que pretende meter o Papa na sua revolução. Aqui está uma ironia do anti-catolicismo de Dostoievski, que vê no Sumo Pontífice da Igreja Romana um cesariocrata. Verkovenski não sabe aonde quer chegar, só sabe que quer destruir tudo e por algo novo no lugar. Quer ser o artífice do Apocalipse. O que virá depois será o mistério do novo céu e da nova terra. Tão misterioso quanto o mistério do desaparecimento do Estado na teoria de Lênin, exposta em “O Estado e a Revolução.” Mas Verkovenski sabe quem reinará nesta Nova Jerusalém: Stavroguine, o niilista perfeito, o seu Deus pessoal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“(...) Quer saber o que sou? Vou dizer-lho, foi por alguma coisa que lhe beijei a mão. Mas é preciso que o povo também acredite que nós sabemos o que queremos (&lt;/em&gt;revela que não sabe aonde quer chegar, mas que precisa dar a impressão de que sabe, nota minha&lt;em&gt;) e que os outros não fazem mais do que “erguer o cacete e bater neles”. Proclamaremos a destruição... porque, porque, uma vez mais, esta idéia é bem sedutora! Mas é preciso desentorpecer os membros... Atearemos incêndios... Forjaremos lendas... Arranjar-lhe-ei, nesse mesmos grupos, voluntários que marcharão a cada voz de tiro e que ficarão honrados por o fazerem. O mundo vai vacilar como nunca... A Rússia ficará às escuras, a Terra chorará os seus antigos deuses (&lt;/em&gt;meu Deus, é o Apocalipse&lt;em&gt;!) E nessa altura nós proclamaremos... Quem?&lt;br /&gt;- Quem?&lt;br /&gt;- O czarevitch João. O príncipe João!&lt;br /&gt;- Quem?&lt;br /&gt;- O czarevitch João; você, você!&lt;/em&gt; –diz dirigindo-se a Stavroguine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que caberia tanta honra a Stavroguine? Porque Verkovenski o idolatra como um Deus. Diz de Stavroguine: &lt;em&gt;“é belo, altivo como um deus.”&lt;/em&gt; Stavroguine é o objeto do desejo mimético de Verkovenski. É nele que o revolucionário busca força e inspiração para os seus planos de destruição. É a matéria bruta do niilismo de Stavroguine que inspira o niilismo revolucionário de Verkovenski. Ivan Karamazov com o seu ateísmo inspira Smierdiakov a matar. Sua lição é que é preciso desconsiderar a existência de Deus para que o homem se sinta livre para pôr em prática todas as suas vontades e desejos. Sem Deus, ele pode tudo, pois ele é a máxima vontade no universo, a máxima inteligência. Sem Deus, ele torna-se Deus, dirá Kirilov.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;KIRILOV&lt;/strong&gt; é um jovem que vive com Chatov em precárias condições em uma espécie de pensão onde também viveu Maria Timofeevna, a mulher enlouquecida de Stavroguine, e o irmão dela, um militar alcoólatra. Tal como Chatov fez parte do movimento revolucionário do qual também fazem parte Verkovenski e os demais demônios menores. Ambos abandonaram o movimento, Chatov porque não crê mais nas idéias revolucionárias, percebeu o satanismo que subjaz a elas e pulou fora do barco, tornando-se um reacionário defensor das instituições e da cultura russas. Kirilov porque é um niilista, não acredita em nada. Kirilov passa as noites em claro, caminhando de um lado para o outro em sua alcova, imerso em seus pensamentos niilistas e planejando seu suicídio, a sua grande meta na vida. Por outro lado se mostra um homem extremamente generoso. Toda a sua generosidade transborda num dos capítulos mais belos da obra, o do nascimento do filho de Chatov. Faço aqui um pequeno desvio para falar deste episódio e de desta personagem importante na obra, o demônio arrependido Chatov.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher de &lt;strong&gt;CHATOV&lt;/strong&gt; chega inesperadamente à sua casa, depois de três anos separados. Traz consigo um filho que está para nascer. Chatov que há muito vivia em permanente aborrecimento e desencanto tem seu coração iluminado por uma nova luz. A sua felicidade ao receber a mulher de volta é quase patética. Quando descobre que a mesma está para ter um filho, esta felicidade se multiplica. Sai desesperado em busca de uma parteira, a mulher de Virguinski, também revolucionária e quando o filho que nem é seu, mas que já ali decide adotar, nasce, declara com uma efusiva emoção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“- Oh! Que pena que não compreenda, Arina Prokovna. É todo o mistério da aparição de um novo ser, o grande e inexplicável mistério!”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mas a parteira, materialista, está disposta a jogar um balde de água fria em seu entusiasmo quase pueril:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“-Basta de conversa! Não há aí qualquer mistério. É apenas um novo desenvolvimento do organismo – disse Arina Prokovna, rindo às gargalhadas, alegre e sinceramene – Por esse caminho, qualquer mosca é um mistério.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Dostoievski era um homem bem informado de todas as correntes de pensamento de seu tempo. Aqui ele põe na voz de Arina Prokovna o materialismo do século XX com sua negação do mistério e da transcendência, em suas inúmeras vertentes: o positivismo, o darwinismo, as teorias de Spencer, Haeckel, Taine, etc. Certamente, todas elas repugnavam a Dostoievski, e ele preferiria ficar com Chatov, ainda que Arina provasse que ele estava errado, assim como dizia preferia ficar com Cristo, ainda que lhe provassem que o nazareno era uma mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nascimento está situado entre os desastres do incêndio e a execução de Chatov. É uma pequena ilha de esperança e paz no meio do cataclisma satânico que varre a pequena província. Mas logo vem a execução de Chatov, e a morte de sua mulher e da criança. O nascimento de uma criança no meio de uma era de opressão e desespero, trazendo um novo sopro de esperança aos que o contemplam, nos remete obviamente ao nascimento de Cristo. O capítulo foi colocado ali porque simboliza, na intenção de Dostoievski, que a salvação para todas aquelas desgraças e para as desgraças que ele prevê para a Rússia, e que de fato vieram a ocorrer com a Revolução de 1917, estava no Cristianismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sabido de todos que Dostoievski professava um Cristianismo particular, um Cristianismo russo, oposto ao da Igreja Católica e que só este Cristianismo poderia salvar o mundo. Acreditava num papel messiânico a ser desempenhado pela Rússia, só ela poderia salvar o mundo. Chatov compartilha desta mesma crença. Vive dizendo que os revolucionários nada conhecem da Rússia e que fora este o motivo porque os abandonou. Perguntado por Stavroguine se cria em Deus, responde que crê na Rússia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eric Voegelin vê nesta idéia do messianismo russo esposada por Dostoievski um fruto do gnosticismo, o mesmo gnosticismo que teria inspirado os revolucionários, o positivismo, o comunismo e o nazismo. Ironia macabra do destino, o messianismo que a Rússia desempenharia no século XX seria o messianismo do Anti-Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornemos a Kirilov. Após a célula dos cinco revolucionários atrair Chatov para o seu sacrifício, Verkovenski vai ter com Kirilov. Como sabe que ele vai se matar e que é um niilista, para quem tudo tanto faz, havia pedido a ele que escrevesse uma carta onde confessaria ter matado Chatov. Vai lá para confirmar que ele o fará. Antes do suicídio, uma das cenas mais chocantes do romance, o neurastênico niilista e o astuto revolucionário têm um diálogo que é a chave para a compreensão do romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia de Kirilov pode assim ser resumida. É absolutamente imprescindível que Deus exista, &lt;em&gt;“mas eu sei que não existe e que não pode existir”,&lt;/em&gt; diz ele. Verkovenski o ouve com curiosidade, embora esteja mais interessado em que ele escreva logo a carta e se mate. &lt;em&gt;&lt;strong&gt;“Se Deus existe, toda vontade é Sua, e eu não posso fugir a ela. Se não existe, toda vontade é minha e tenho a obrigação de afirmar a minha própria vontade.”&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; Há aí algo parecido com a idéia de Ivan Karamazov de que se Deus não existe, tudo é permitido, e o homem tem o direito de fazer toda a sua vontade. Está livre para pecar, suicidar, matar e destruir o próprio mundo. É o que diz Kirilov logo em seguida com irritação por ninguém compreender uma verdade que parece tão óbvia. Verkovenski indaga por que ele tem a obrigação de afirmar a sua própria vontade, e ele responde:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“-Porque toda a vontade se tornou minha. &lt;strong&gt;Será possível que não haja ninguém neste planeta que, tendo posto Deus de lado e acredite na sua própria vontade, se atreva a afirmar a sua própria vontade do ponto de vista mais absoluto?&lt;/strong&gt; É como um pobre que teve uma herança mas ficou cheio de medo e não se atreve agora a aproximar-se do saco, julgando-se muito fraco para tomar conta dele. Quero afirmar a minha vontade. Mesmo que seja eu o único, hei de faze-lo.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A vontade de Kirilov é de se matar. Ao fazê-lo transformar-se-á em Deus. Não sei se ele o faz por desespero, por não suportar a idéia de um cosmos sem Deus, sem transcendência, ou por vaidade. A segunda hipótese me parece mais plausível. Kirilov manifesta uma megalomania ainda maior que a de Chigaliev. Ele quer assumir o lugar de Jesus Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É megalomaníaco porque acredita que com o seu suicídio provará aos homens que estão livres para afirmarem também a sua vontade de modo absoluto, inaugurando uma nova era para a humanidade e salvando a todos como Cristo. Ele oferece-se em sacrifício como Cristo para salvar a humanidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;“A salvação de todos consiste agora em provar essa idéia a toda a gente, percebes? Quem é que há-de prová-la?&lt;/strong&gt; Eu! Não entendo como é que até agora um ateu podia saber que Deus não existe e não se suicidava logo. Reconhecer que Deus não existe e não reconhecer ao mesmo tempo que o próprio se tornou deus é um absurdo, pois de outra maneira suicidar-se-ia inevitavelmente. Se tu o reconheces és um Deus, és um rei e não te matarás, mas viverás na maior glória. Mas só o primeiro a perceber isto é que deve inevitavelmente matar-se, senão o que é que principiaria e provaria? Sou eu que vou suicidar para iniciar e para provar.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Seu papel messiânico é reafirmado logo em seguida. A transformação que causará será tão profunda para a Humanidade que a transformará fisicamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Mas hei-de proclamar a minha vontade, tenho o dever de crer que não creio. E serei salvo. Só isto salvará todos os homens e há-de transformá-los fisicamente, na geração seguinte; porque no seu estado físico atual (refleti nisso muito tempo), o homem não pode, de modo algum, passar sem o velho Deus. Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e acheio: o atributo da minha divindade é a minha vontade, é o livre arbítrio. E com isso posso manifestar sobre o ponto capital a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova. Porque é terrível! Mato-me para afirmar a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Kirilov prefere matar-se em vez de experimentar a sua “terrível liberdade nova” matando, fazendo revoluções ou destruindo o mundo porque é um fraco, tímido e um ressentido. Os ressentidos, sentindo a sua impotência de agir no mundo, criam mundos imaginários em que são reis e messias. Mas os fortes, os astutos, os que têm forças e não têm medo de agir no mundo, como Verkovenski, vão manifestar a sua “terrível liberdade nova” dando vazão à sua sede de mando e destruição, à sua libido dominandi, à sua vontade de potência, sem peias, sem escrúpulos de consciência, como o super-homem nietzcheano, o grande animal sequioso de saque e de glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;“Reconhecer que Deus não existe e não reconhecer que o próprio se tornou Deus é um absurdo!”&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; Eis aí a chave para se compreender a mente revolucionária. Eis aí a chave para se compreender a tranqüilidade com que Lênin, Stálin, Hitler, Pol Pot, Mão Tse Tung, Pol Pot e Che Guevara podiam matar homens às toneladas e não teriam escrúpulos de destruir o mundo inteiro. Eis aí a chave para compreender como um Foucault podia achar linda uma gigantesca orgia sexual entre parceiros desconhecidos em que, no fim, todos se matavam uns aos outros. Eis aí como Verkovenski pôde fazer o que fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verkovenski compreendeu bem a idéia de Kirilov, e não era um fraco, um ressentido e medroso como ele, por isto preferia matar a cometer suicídio. &lt;em&gt;“No seu lugar, para mostrar a minha vontade, eu, em vez de me suicidar, matava qualquer outra pessoa.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Verkovenski apreende a idéia não lendo livros como os intelectuais, mas emulando Stavroguine. Stavroguine é uma potência maligna bruta e não a contém porque não consegue acreditar em Deus. &lt;em&gt;&lt;strong&gt;“Stavroguine foi também devorado pela idéia”,&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; afirma Kirilov. Sua crença é vacilante, por isso também contém seus impulsos malignos com dificuldade em diversos instantes, como no duelo em que evita matar o adversário. Verkovenski vê naquela potência niilista que é Stavroguine um exemplo a imitar, um respaldo para cometer seus crimes sem remorsos. Quando ele manda matar Maria Timofeevna e a família, mesmo sem o consentimento explícito de Stavroguine, quer provar para si mesmo que há alguém tão perverso no mundo que ele possa emular e ser tão perverso quanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, Stavroguine se mata fechando o romance. Por que? Por que, não acreditando em Deus não foi experimentar a “sua terrível liberdade nova”, por que se matou se não era fraco e ressentido como Kirilov?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem o encontra morto, enforcado, é Daria Pavlovna, irmã de Chatov. Seu pavor poderia ter sido expresso com aquela famosa frase que permeia “O Coração das Trevas” de Conrad e fecha o filme “Apocalipse Now”: “O horror! O horror!”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Introdução Geral às Obras Completas de Dostoievski da Companhia Aguiar Editora, 1963.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Edmund Wilson em seu clássico “Rumo à Estação Finlândia” comenta sobre esta nova geração de revolucionários, a geração de Nechaiev, o Verkovenski do mundo real: “O reinado de Alexandre II – o novo czar reformista – havia levado a Rússia de volta para a reação na década de 1860, dando origem a um novo movimento revolucionário. Mas agora não se tratava mais de uma conspiração de cavalheiros como o movimento dos dezembristas, nem uma ebulição de intelectuais como o círculo de Petrachevski no final dos anos 1840: os agitadores agora eram estudantes pobres que estavam tendo dificuldades nos estudos causadas por um governo que se dispusera a estimular a educação, porém descobrira que permitir que as pessoas aprendessem o que quisessem necessariamente estimulava-as a desprezar o czar. Um desses estudantes era um jovem chamado Netchaiev, filho de um ex-servo, que havia se instruído o suficiente para matricular-se na Universidade de São Petersburgo. Havia lido a respeito de Babeuf e Blanqui, e vivia sonhando com sociedades secretas(...)” Netchaiev redige com Bakunine o monstruoso “Catecismo Revolucionário”, afirmação de que em prol da revolução vale tudo, matar, roubar, pilhar e de que só se pode ser amigo de quem comunga dos mesmos ideais.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Acreditam que Nicolau causou o incêndio para, no meio dele, aproveitar e matar a louca Maria Timofeevna, sua legítima mulher que consituía um empecilho ao seu casamento com Lisa.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Sobre as teses de René Girard sobre a crise sacrificial e o bode espiatório leia-se “A Vilência e o Sagrado”, editora Paz e Terra...&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. Cia. Das Letras, 1987, pág. 263.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=7595216151417740314#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;[6]&lt;/a&gt; WILSON, Edmund. Op.cit., pág. 264&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-5060367844334364013?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/5060367844334364013/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=5060367844334364013' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5060367844334364013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/5060367844334364013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/08/breve-ensaio-sobre-os-demnios.html' title='BREVE ENSAIO SOBRE OS DEMÔNIOS'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RrpSBs11xdI/AAAAAAAAAA0/gxeoghK6y3U/s72-c/stalin-Lenin.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-7584206134076559291</id><published>2007-07-30T23:43:00.000-03:00</published><updated>2007-07-30T23:48:47.300-03:00</updated><title type='text'>NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA III - O Marginal Renascimento da Cultura Nacional na segunda metade da década de 1990.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Paulo Francis afirmava, no fim de sua vida, estar tecnicamente morto, em virtude do marasmo cultural que dominava o mundo, e principalmente o Brasil, no final da década de 1990, quando nada de novo e interessante surgia. Na Academia tudo havia se resumido a marxismo, freudismo, Escola de Frankfurt, Foucault, Heiddeger, Nietzshe, diletanismos esteticistas e a fragmentação da Pesquisa Científica em assuntos sem a menor importância – o lixo da Torre de Babel Bibliotecária. E tudo não passava de variações do mesmo tema. Ainda hoje é assim. Na mídia, os articulistas quando não se limitavam a regurgitar para o público as idéias daqueles autores mencionados acima, aplicando-as a casos concretos, pediam-se em assuntos sem maior importância, crônicas do cotidiano, cheios de um certo tédio e desilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado disto é que aqueles que iniciavam a sua educação através do que era veiculado pela Academia e pela Mídia dominantes só encontravam tédio, chatice e complicações que mais tarde percebi que eram mero vácuo intelectual encoberto por um pedante academiquês – pura mistificação, obscuridades para disfarçar o vácuo de idéias. Como você não entendia nada, sentia-se burro ante a falsa profundidade dos intelectuais, era burro demais para entender aqueles altos ensinamentos. Por outro lado eu experimentava uma terrível sensação de vazio, talvez o ennui pascaliano. Cheguei a construir, a partir daquela educação fragmentária, uma cosmovisão sombria, onde o mundo e a vida não pareciam fazer sentido algum no final das contas. Só havia uma saída: a militância revolucionária, no sentido político e cultural. Mas mesmo ela não podia preencher o vazio, porque, afinal, quando a sociedade comunista, o Paraíso da Era de Aquários, a Sociedade Alternativa, o paraíso social-democrata, o paraíso do sexo livre ou qualquer outra utopia viessem, eu iria me perguntar: então é só isso? Acabou o sentido, vamos fazer o que daqui para frente, já que atingimos a perfeição? Atingimos o sentido da vida, mas era só isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os últimos cinqüenta anos é claro que não deixou de haver produção intelectual original, séria e relevante: havia Bruno Tolentino na poesia, Miguel Reale na Filosfia Jurídica e Política, a boa defesa tradicionalista de Gustavo Corção, a crítica cultural de José Guilherme Merquior, a obra política séria de José Osvaldo de Meira Penna, Vamireh Chacon e Simon Swartzmann, as análises econômicas irrefutáveis de Roberto Campos e Eugênio Gudin, além dos velhos grandes que ainda estavam na ativa, sem contar o próprio Paulo Francis. Mas chegam os anos noventa e os que não havia morrido não tinham mais voz. Foram substituídos pelos mais medíocres que agora dispunham dos cinco mil auto-falantes: Marilena Chauí, Leandro Konder, João Ubaldo Ribeiro, Boaventura de Sousa Santos, Luiz Fernando Veríssimo, Emir Sader, Antônio Cândido, Frei Betto, Leonardo Boff, Zuenir Ventura, e congêneres. E foram eles que acabaram por me “educar” nos meus primeiros anos, pervertendo boa parte de minha educação e me enchendo de tédio e quase-desespero, que só era aliviado pelo orgulho intelectual de saber aquelas idéias chatas e sombrias (também não sei porque eu esquentava a cabeça com estas coisas em vez de ir procurar namoradas, passar no vestibular, graduar, arrumar emprego, comprar um carro...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Paulo Francis morreu em 1997 quando se iniciava no país o que eu chamaria de um renascimento da cultura nacional, relativamente marginalizado. Ele morreu no meio dela, sem ter tido tempo de conhecê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1994 e 1995 surge o que para mim é o pensador mais original, instigante e erudito de seu tempo: Olavo de Carvalho. Emergindo do silêncio de trinta anos de pesadíssimos estudos, ele entrava na arena dos debates políticos e culturais do país para assombrar e chocar. Gerou revolta, pois como este caipira de Campinas podia ter a ousadia, o desplante de chamar Sartre de palhaço verboso, Marx de charlatão, dizer que Newton implantou o germe da burrice no Ocidente (algo mais ou menos assim), desprezar Voltair, Rousseau, jogar parte da obra de Kant, Descartes e Hegel na lata de lixo e falar da raridade das autêntica filosofias no Ocidente que se resumiria praticamente a Sócrates-Platão-Aristóteles, Thomas de Aquino, Leibnitz, Shelling, Husserl, Zubiri, Voegelin, além de dizer que o Princípio da Indeterminabilidade de Heisenberg já estava prefigurado na Física de Aristóteles? Quem era ele para isso, eu mesmo me perguntava quando comecei a lê-lo? Era a nossa covardia intelectual e o apego aos ídolos canônicos que nos indignava. Aos poucos Olavo ganha espaço na Grande Mídia, sendo marginalizado posteriormente, de novo, na metade dos anos 2000. Ele trazia uma profusão de autores espantosos jamais conhecidos por estas plagas, já esquecidos, postos em segundo plano, ou conhecidos em círculos muito restritos: dentre os brasileiros: Mário Ferreira dos Santos, Mário Vieira de Mello, Otto Maria Carpeaux (quase toda a sua vida foi vivida no Brasil e quase toda a obra escrita aqui, por isso o coloco entre os brasileitos), Gustavo Corção e muitos outros. Dentre os estrangeiros principalmente: Eric Voegelin, Bernard Lonergan, Xavier Zubiri, Raymond Aron, Ludwig von Mises, Mortimer Adler, Eugen Rosentock Huessi, Arthur Koestler, Bernanos, Russel Kirk, e uma infinidade desconcertante de outros autores. Todos eles seus declarados mentores intelectuais. Não que estes nomes fossem completamente omitidos, mas quando eram mencionados não se aquilatava o verdadeiro valor de suas obras, não se revelava o verdadeiro papel que representavam na cultura ocidental e não se comparava a sua obra com a dos autores canônicos de nosso establishment cultural. Quando o faziam diminuíam o valor daqueles em relação a estes. Lembro-me de um artigo de José Guilherme Merquior sobre o pensamento conservador e liberal que, após analisar sumariamente as contribuições de Voegelin, Hanna Arrendt, Oakeshott, Leo Strauss, e Von Mises (pelo menos ele os conhecia), descarta a todos, qualificando-os de antiquados, e fica só com Raymond Aron.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À primeira vista, me parece que a pretensão de Olavo de colocar os seus mestres acima destes que chamo de autores canônicos de nosso establishment era fruto de uma escolha premeditada para justificar os seus próprios valores, para justificar o seu conservadorismo cultural, o seu liberalismo em economia e as suas crenças religiosas. Pois a obra de todos aqueles autores acaba por justifica-los. Mas, sinceramente, sem ter refeito todo o árduo iter de aprendizado de Olavo de Carvalho, sei que ele iniciou a sua educação com os canônicos e só aos poucos foi conhecendo aqueles que viriam a ser as suas maiores referências intelectuais. E, pelo fato de sua honestidade intelectual já ter sido suficientemente provada, creio que a sua escolha partiu de uma comparação objetiva entre as idéias de uns e outros autores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olavo pode se equivocar em suas avaliações, pode exagerar, seu estilo é, de fato, um tanto hiperbólico, mas com ele o marasmo intelectual que matou tecnicamente Francis vem se dissipando. Trouxe novos ares, injetou novas discussões, novas e esquecidas teses, perspectivas diferentes para a análise do fato político e cultural, reabilitou a astrologia, reabilitou a os estudos religiosos, fulminou o marxismo e o gramscismo para quem ainda não o tinha fulminado com outros autores. E, com Victor Frankl, trouxe de volta o sentido da vida para mim e para muitos que conheceram o psiquiatra vienense através dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Academia e a Mídia se cercaram bem para evitar a ameaça do Renascimento da Cultura Nacional trazida pelo Sr. Carvalho. Mas não puderam, nem podem vedar a internet. Seus textos são todos publicados na internet, seus livros têm obtido ampla divulgação e seu mais recente empreendimeno, um programa de rádio pela rede de computadores tem alcançado um grande sucesso. A reboque, vêm um multidão de sites e blogs mais ou menos influenciados por eles. Alguns são mesmo meros retransmissores e aplicadores de suas idéias. Nada mais normal, isto sempre aconteceu com os gigantes de uma cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa renascimento, obviamente, não passou nem vai passar na televisão, mas “passa” na internet. Além de Olavo de Carvalho, creio que outro acontecimento cultural renovador, mas marginalizado, teria sido um pasquim eletrônico, bem mais inteligente, profundo e sério do que aquele da década de 1970, surgido pela iniciativa de três jovens universitários da PUC-RJ em 1997, gente que contava com, pasmem, 17, 18 anos na época: “O Indivíduo”. Os autores eram Pedro Sette Câmara, Álvaro Veloso de Carvalho, Sérgio di Biasi, Marcelo Tostes e Alceu Garcia. Posteriormente apareceram outros contribuidores como o genial Martim Vasques da Cunha. Para mim, o trio Pedro, Álvaro e Martim contituía o que havia de melhor no site. O pasquim nasceu de um jornal impresso lançado pelos autores na PUC do Rio. Trazia idéias heterodoxas demais para os alunos e professores da PUC. Foram massacrados, chegaram a receber agressão física. O reitor não os apoiou. Foram acusados de racismo e o caso foi parar até no Jornal Nacional. Olavo de Carvalho, Carlos Heitor Cony e até Miguel Reale acorreram em defesa daquele atentado à liberdade de expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, abandonaram o impresso e refugiaram-se na internet. Tratava-se de gente nova, mas que já atingia um nível cultural bastante superior ao de muitos dos articulistas da mídia tradicional. Trouxeram como Carvalho uma vasta coleção de novidades de autores, perspectivas e idéias. Todas as semanas postavam uma quantidade enorme de artigos publicados na mídia conservadora e liberal estrangeira, principalmente norte-americana em veículos como o Lew Rockwell, The Spectator, Mises Institute, Anti War, New Criterion, e muitos outros. Trouxeram as idéias anarco-liberais de Rothbard e Hermann Hoppe para o Brasil, ressalvando que não concordavam em tudo com estes autores. A tônica do site era conservadorismo religioso e cultural, liberalismo econômico e político (mais radical que o de Olavo de Carvalho) e defesa do catolicismo, embora também existisse um ateu no grupo. Promoviam uma interessante crítica cultural, examinando os filmes, romances e livros em geral da hora. Entendem que a boa obra de arte tem de ter responsabilidade ética e finalidade pedagógica. E este é um dos critérios com que separavam as boas das más. Alunos de Olavo de Carvalho, havia neles um eco das idéias do autor, mas tinham independência. Tinham outras influências. Acusados no início de olavetes aos poucos foram se afastando do autor de “O Jardim das Aflições” em muitos pontos. Por ocasião da Guerra do Iraque, Álvaro Veloso adotava uma posição diametralmente oposta a de Olavo de Carvalho, certamente por influencia pelos anarco-liberais americanos, como Justin Raimond e Lew Rockwell. Pedro diz divergir em 100% do que Olavo de Carvalho pensa sobre religião, não acreditando na idéia de “unidade transcendente das religiões” que Olavo propagou. Se não me engano, Pedro também rejeita completamente o Islamismo, como acha que todo católico deva fazer - sem imposição de conversões pela força, é claro (http://www.oindividuo.com/?s=Islamismo), enquanto Olavo, que já foi até premiado num país muçulmano por um estudo sobre Maomé, vê virtudes naquela Religião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2003, o site foi entrando em recesso. As atualizações escasseavam. Os autores pareciam estar desanimados ou se dedicando a outras atividades que consideravam mais importantes. Mas em 2004, retornaram no formato de blog, praticamente só Pedro postando. Martim Vasques da Cunha desapareceu completamente. Álvaro fez aparições esporádicas em 2006, com textos providenciais sobre o pleito daquele ano. Pedro atualmente cuida mais de literatura, com o seu “domingo com poesia”, em que faz a análise minuciosa, formal e de conteúdo, de grandes poemas da língua portuguesa. Melhor aprendizado sobre literatura você não vai encontrar em nenhum colégio, e nem mesmo na Universidade. Volta e meia dá seu pitaco sobre os assuntos em voga, políticos e religiosos. È um ótimo expositor da verdadeira doutrina cristã, desfazendo os erros difundidos na mídia sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, queria falar do Sr. Marim Vasques da Cunha. Recentemente descobri que ele continuava escrevendo em um blog desde 2004, o “Aurora Borealis” (&lt;a href="http://composeindarkness.blogspot.com/"&gt;http://composeindarkness.blogspot.com/&lt;/a&gt;). É o mais prolixo de todos, e, às vezes, obscuro. Mas é uma crítico cultural de primeira, analisando romances, filmes e mesmo as produções da cultura pop (é especialista em Bob Dilan) com uma perspectiva totalmente original. Estudioso do simbolismo tradicional, aplica esta ciência na análise das obras de arte. Nunca pensei que pudesse haver tanta profundidade numa letra de Bob Dilan, digo sem ironia alguma ( veja por exemplo seu ensaio “A Verdadeira Canção Pacifista: &lt;a href="http://www.oindividuo.com/convidado/martim.htm"&gt;http://www.oindividuo.com/convidado/martim.htm&lt;/a&gt;).Tenho extraído verdadeiras lições de vida destes textos essenciais de Martim. Como dizia mesmo aquele verso do Bob Dilan em Idiot Wind? Ele perdeu todas as batalhas, mas ganhou a guerra, algo mais ou menos assim. Genial isto. Coaduna-se com a idéia filosófica de Martim de que o importante na vida é batalhar, seguir em frente honestamente, ainda que só alcancemos fracasso neste mundo, pois a verdadeira batalha se trava na alma humana. Ainda que experimentemos só fracasso nesta vida, tendo lutado por retos ideais, sairemos vitoriosos. Mas o reconhecimento da vitória não se dará neste mundo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-7584206134076559291?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/7584206134076559291/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=7584206134076559291' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7584206134076559291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/7584206134076559291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/07/na-torre-de-babel-bibliotecria-iii-o.html' title='NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA III - O Marginal Renascimento da Cultura Nacional na segunda metade da década de 1990.'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-1037043878299738640</id><published>2007-07-27T22:15:00.000-03:00</published><updated>2007-07-28T16:47:45.487-03:00</updated><title type='text'>NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA II – O PROBLEMA DO ESTETICISMO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A leitura de “Desenvolvimento e Cultura” do filósofo Mário Viera de Mello nos desperta para o sério problema do esteticismo. Na versão do filósofo e diplomata carioca, amigo de juventude de Vinícius de Morais que na maturidade, parece-me, entregou-se a um rígido moralismo enquanto o outro descambava para algo um pouco mais baixo que o esteticismo – o hedonismo – o esteticismo nasce no Ocidente da autonomização do princípio estético, fenômeno iniciado segundo ele na Renascença. Que significa esta autonomização? Correndo o risco de simplificar demasiadamente o raciocínio de Vieira de Melo, o esteticismo na arte e mesmo nas ciências e na Filosofia significa construir obras que buscam o belo pelo belo, e não mais o belo por ter uma função moral, pedagógica, espiritual ou política. O que interessa é a beleza da obra ou da teoria e não mais a sua relevância ética ou a sua fidelidade à verdade. Escreve-se um poema, um romance buscando apenas que ele seja belo, que desperte a sensibilidade estética, e não que tenha uma relevância ética, moral ou pedagógica. Aprecia-se na teoria apenas o seu aspecto externo, formal e não as suas qualidades intrínsecas e o seu valor moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esteticista, ao defender uma tese, uma teoria, ainda que tenha conteúdo ético, que traga uma “lição de moral”, o faz apenas por apreciar o seu aspecto externo, a forma. Por isso não assume responsabilidades por ela, por isso ela não lhe é vital, por isso não a defenderá ardorosamente, podendo até mesmo descrer dela. No intelectual esteticista, segundo Vieira de Mello, a idéia não se integra “na totalidade de sua natureza”, apenas “fica repousando na superfície de sua inteligência”. O conhecimento, as teorias, as idéias do esteticista não lhe são vitais, ele não perde o sono pensando nelas, apenas elas lhe causam prazer, um prazer ligado à vaidade do conhecimento ou à vontade de prestígio social, derivada da vontade de potência. Ele defende idéias da boca para fora, não do fundo do coração. Ele jamais se comprometeria seriamente por suas idéias, jamais morreria por elas. Ele é o tipo daquele professor risonho falando da inexistência de sentido do vida com um sorriso nos lábios, defendendo as mais sombrias idéias de Foucault, Heiddeger e congêneres sorrindo e se deliciando com a doce desgraça do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esteticismo é para Mário Vieira de Mello dominante em nossa cultura. Teria penetrado aqui com o Romantismo. Um exemplo polêmico dado por ele é o de Machado de Assis: para ele, o Bruxo do Velho Cosme, que toma ares de intelectual superior, irônico, amargo e cético em suas obras, era completamente diferente em sua vida pessoal. Para Vieira de Melo, Machado é um homem medíocre, sem muita experiência de vida, embora com muita experiência de cultura, cheio de preconceitos que procurava ocultar o seu passado pobre a todo custo, a ponto de renegar a madrasta que dele cuidara com tanto zelo durante a infância:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para que pudéssemos levar a sério o ceticismo, a ironia de Machado de Assis, seria preciso, em primeiro lugar, que ele soubesse aplica-los a si próprio; ficaríamos então convencidos de que se tratava nele de uma tendência irresistível. Mas Machado, ao contrário, se levava terrivelmente a sério. O homem que nos seus romances parece pairar acima das contingências terrestres é o mesmo que se sente pouco à vontade se um amigo de infância vai visita-lo na repartição e na presença de companheiros de trabalho o trata familiarmente por Machadinho (...) O escritor cuja personalidade literária parecia repousar sobre a experiência de uma desilusão da vida e dos homens era um ser que não podia se queixar do próprio destino, pois tudo a que havia aspirado lhe fora concedido numa medida amplamente generosa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, em Machado o estilo não é o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de uma professora de Português no Ensino Mérdio que ilustra bem o caso. Mandou-nos ler “O Que é Ideologia” de Marilena Chauí e depois expôs, explicou e não criticou as idéias expostas no livro, sinal de que as acatava. O livro é uma porcaria que expõe a teoria marxista de ideologia, segundo a qual a Ciência, a Arte, a Filosofia e a Religião não são mais que epifenômenos da estrutura econômica da sociedade, cumprindo a função de vaselina com que a classe dominante curra a classe dominada. Não há, portanto, como acreditar nas teses deste livro e não ser ou passar a ser ateu, porque delas se extrai que a religião é só o ópio do povo: ilusão criada para manter os alienados em um dócil servilismo. Mas acontece que a professora era cristã fervorosa e devota praticante do Catolicismo. Não creio que uma mulher relativamente inteligente como ela não pudesse perceber este óbvio ululante de contradição. Para mim, ela só se divertia com a teoria, chutando a contradição para o inconsciente. Ela não a levava a sério, não permitia que ela se incorporasse à sua existência de forma a assumir as conseqüências que ela traz. Ou então era burrinha mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enfim, que mal faz o esteticismo? Não é só um divertimento para diletantes? Obviamente, não. O problema, de acordo com Vieira de Melo, está na dissociação entre o “Princípio Ético” e o “Princípio Estético”. Pode-se achar bela e deleitosa a dor, a crueldade, a morte. O esteticista lê um livro de História passando os olhos por estatísticas sangrentas, sobre relatos de genocídios, torturas, guerras e epidemias devastadoras e não sofre com isso, apenas acha interessante e até belo. O personagem Alex Delarge de ”Laranja Mecânica” se delicia com Beethoven e com a tortura de inocentes. Pratica estupro cantanto “Singing in The Rain”. Aquilo tudo é a sua obra de arte. Por fim, ele mata uma artista com uma obra de arte dela, um pênis gigante, de porcelana ao que me parece. O exemplo mais óbvio de esteticista cruel é o Marquês de Sade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil é essencialmente esteticista. Era ao tempo de Mário Vieira de Melo e é ainda mais atualmente. A cada tragédia um especialista afetando seriedade e preocupação aparece para se deliciar com suas teorias preconcebidas para explicar o evento. Percebe-se o ranço esteticista em Luís Fernando Veríssimo, Marilena Chauí, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho, Antônio Cândido, Fernando Henrique Cardoso e em quase todo componente da elite intelectual mais influente no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro de Vieira de Mello é fantástico, de uma leitura agradabilíssima. Pode servir mesmo como deleite para esteticistas e diletantes vagabundos. Mas é cheio de teses polêmicas e discutíveis. E ainda há aquele problema filosófico: pode o Belo ser dissociado do Bem? O Bem, o Belo e a Verdade não são sempre inseparáveis? Uma coisa é certa: o lixo esteticista é uma das primeiras seções a serem descartadas da Torre de Babel Bibliotecária.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-1037043878299738640?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/1037043878299738640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=1037043878299738640' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1037043878299738640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/1037043878299738640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/07/na-torre-de-babel-bibliotecria-ii-o.html' title='NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA II – O PROBLEMA DO ESTETICISMO'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-3015395197947843464</id><published>2007-07-19T19:02:00.000-03:00</published><updated>2007-07-19T19:07:00.432-03:00</updated><title type='text'>ALGUMAS LIÇÕES DE BUNO TOLENTINO</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rp_gdzboM6I/AAAAAAAAAAc/RVYoXEwaS7g/s1600-h/tolentino.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5089032906578867106" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rp_gdzboM6I/AAAAAAAAAAc/RVYoXEwaS7g/s320/tolentino.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;UMA TARDIA HOMENAGEM AO POETA MORTO RECENTEMENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui um bruto para apreciar poesia. Lia só por uma espécie de obrigação, como quando era obrigado a fazer exercícios de física ondulatória no colégio. Só o mais óbvio do Pessoa, do Drummond ou do Bandeira conseguia causar algum prazer estético nos meus rudes sentidos e intelecto. Foram três poemas do recém falecido Bruno Tolentino, porém, que me causaram, pela primeira vez, comoção diante da arte poética: o primeiro sobre a morte de Merquior (A Indesejada ), mas principalmente O Divino Assassino e A Um Cisne na Agonia (ambos de seu O Mundo como Idéia). Vasculhem na internet e poderão encontrá-los. Comoção mesmo, de chorar, pelo menos diante do terceiro – vá lá também eu não estava muito sóbrio no momento – em sentido etílico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olavo de Carvalho lamenta que o poeta tenha morrido sem ter representado o papel de educador literário do Brasil (&lt;a href="http://www.olavodecarvalho.org/semana/070704dce.html"&gt;http://www.olavodecarvalho.org/semana/070704dce.html&lt;/a&gt;). Mas esta educação pode ser buscada nos seus escritos em prosa, principalmente em “Os Sapos de Ontem” e nas suas entrevistas que circulam pela internet, pelo menos para quem, como eu, não cresceu o bastante para retirar da própria poesia de Bruno ou dos densos ensaios de O Mundo Como Idéia a sua doutrina da arte do poética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouso aqui então traduzir para Conselheiros Acácios como eu, algumas teses de Tolentino sobre a boa poesia, sobre a boa arte literária e sobre a História literária recente no Brasil. Valho-me apenas do seu prólogo a Os Sapos de Ontem, já rico demais em teses e concepções sobre a arte literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Tolentino, entre as décadas de 1930 e 1950 “&lt;em&gt;a poesia no Brasil atingia enfim a um patamar de universalidade que todas as civilizações em todas as eras chamaram de clássico&lt;/em&gt;.” Superado o primeiro Modernismo, que Tolentino execrava tanto quanto o Concretismo, “&lt;em&gt;Bandeira, Drummond, Cecília, Jorge, Murilo e Cabral elevavam nossa lira a cimos que até então desconhecia&lt;/em&gt;”, equiparando a poesia brasileira à melhor produção poética feita no exterior e introduzindo o Brasil no grande diálogo universal da grande arte. Sobre Drummond, por exemplo, escreve o poeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Com Claro Enigma (1951) adjacências, o nervo da interrogação metafísica nos trópicos abria amplos e profundos espaços para uma verdadeira perquirição do ser, finalmente possível com a superação da obsessão telúrica e a conquista de um idioma próprio, a um tempo denso e abrangente, capaz de encasular a reflexão do universal em suas infinitas possibilidades&lt;/em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É caríssima a Tolentino idéia de que a “linguagem” poética não pode se afastar da “língua” corrente. Ela não pode fechar-se em si mesma, tornar-se artificial, um mero jogo de palavras, que nada tem a ver “com língua como de fato se fala.” Em sua última entrevista à televisão, o poeta repete exatamente isto (http://br.youtube.com/results?search_query=Bruno+Tolentino+sempre+um+papo&amp;amp;search=Pesquisar. Quando a linguagem poética corre o risco deste afastamento, urge o advento de uma revolução que faça com que a poesia, sem cair na banalidade volte a falar “a língua como se fala”, a língua com que os homens de seu tempo se comunicam, sem perder, porém, a sua musicalidade, eis que ela é “a música feita com as idéias.” Ou seja, sem deixar de ser uma comunicação de idéias através de um labor artístico, através de ritmo, métrica, rima, harmonia, proporção, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil corria este risco às vésperas do Modernismo (creio que Bruno Tolentino tinha mente o Parnasianismo, sobretudo). A tarefa do Modernismo brasileiro era exatamente a de implementar esta revolução, tal como Wordsworth, Coleridge, Pound e Eliot teriam feito noutras paragens. Só que os primeiros a assumiram a tarefa de empreender esta revolução, com a exceção de Manuel Bandeira, falharam. Mário de Andrade acabara por “estrofisar um coloquialismo inexistente” e o outro Andrade “sucumbira às piadinhas de minimalismo mental de circunstância.” Mário não conseguiu fazer com que sua poesia falasse a língua como de fato se fala, criou outra, artificial, e Osvald era raso demais para ser levado a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a tarefa da revolução de que falava acima fora cumprida a contento por Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Murilo Mendes e, mais tarde, por Ferreira Gullar, Adélia Prado, dentre outros. Cumprida a tarefa de “restituir a linguagem à fala natural da tribo, revigorando as formas e os ritmos próprios à musicalidade inerente à língua, sem prejuízo de seu comércio com o sensível, o imediato, o real”, a poesia brasileira podia alçar vôos mais altos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas retornemos agora à década de 1940, precisamente à chamada geração de 1945 quando a poesia brasileira, uma vez realizada a benfazeja renovação modernista, atingia o seu apogeu. É justamente quando um grupo de jovens propõem reinventar a roda: os irmãos Campos, Décio Pignatari e mesmo Mário Faustino. Querem fazer uma revolução. Mas a revolução que propõem não é a de restituir a linguagem poética `a fala natural da tribo, mas de criar uma linguagem artificial, situada a um oceano de distância da fala como se fala, uma linguagem de laboratório que não tem nada a dizer e que tem seu objetivo em si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que representam estes revolucionários intempestivos em nossa cultura? Eles não fazem senão o “jogo de antiqüíssimas aflições adolescentes.” Repetem a História como farsa. Sua arte não passa de “ludismo”, sintoma, segundo Tolentino, de uma Civilização em crise. Logo no início do prólogo, Tolentino afirma que sempre que os “projetos civilizatórios” entram em decadência, surge “uma pletora de exoterismos próprios a entreter uma ilusão de liberdade enquanto não chegam os bárbaros.” As principais características são “a vacuidade existencial” e “idolatria esteticista.” A linguagem se torna um fetiche. Não é mais um instrumento de comunicação, mas tem um valor em si mesma. É puro brinquedo, mas é também um totem, um amuleto. É como aquela história de uma tribo completamente isolada da civilização que passa a idolatrar um avião que ali fora cair, sem ter a menor idéia do significado daquilo, de que é um instrumento para fazer o homem voar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O concretismo e similares nos são assim apresentados por Tolentino não como arte, mas como sintoma de uma civilização em crise. Se este tipo de “arte” permanecesse marginalizado, sem ser levado a sério, não seria sintoma, mas como foi promovido a establishment cultural, sendo equiparado à grande produção dos Drummonds, Murilos e Tolentinos, sendo motivo de sérias teses acadêmicas, sendo estudado em todos os colégios de ensino mérdio, “caindo” em todos os vestibulares, é porque Bruno acerta no seu diagnóstico. Virou motivo de imitação até mesmo da baixa arte, a dos intelectuais de miolo mole, daí o “açaí guardiã” contra o qual Pedro Sette Câmara tanto impreca, daí também o Arnaldo Antunes, os Tribalistas. Tudo não passa de jogo, brinquedo que às vezes tem graça, às vezes é extremamente enfadonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desnecessário comparar estes revolucionários literatos de 1945 aos revolucionários políticos. Desnecessário lembrar aqui a 13ª. Tese de Marx sobre Feuerbach (já vejo que serei rotulado de olavete) e perceber o óbvio: que estes concretistas e similares não fazem mais do que querer transformar a arte antes mesmo de compreendê-la. Adolescentes aflitos, não conseguiam sufocar um pouco a sua libido dominandi, ser um pouquinho humildes e representarem o papel de “talentos medianos”. Estes talentos medianos que tem um papel menor mas não desprovido de importância a representar numa cultura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Com efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho. Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola, quem à proa e quem à popa - e ao leme, aos cordames, aos remos. A invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é condição indispensável ao&lt;br /&gt;bom destino da empresa, da aventura&lt;/em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, por orgulho os literatos revolucionários rejeitaram figurar como atores menores e assumiram o papel de nulidades absolutas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-3015395197947843464?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/3015395197947843464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=3015395197947843464' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3015395197947843464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/3015395197947843464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/07/algumas-lies-de-buno-tolentino.html' title='ALGUMAS LIÇÕES DE BUNO TOLENTINO'/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_0jZw85SqqHw/Rp_gdzboM6I/AAAAAAAAAAc/RVYoXEwaS7g/s72-c/tolentino.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7595216151417740314.post-9080443945104900645</id><published>2007-07-09T23:50:00.000-03:00</published><updated>2007-07-16T20:38:49.830-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RpMKhehTrLI/AAAAAAAAAAU/VH5_MHerJ5I/s1600-h/biblioteca.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5085419974476147890" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RpMKhehTrLI/AAAAAAAAAAU/VH5_MHerJ5I/s320/biblioteca.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA - O QUE FAZER?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Para que tanto livro? Para que tanto blog circulando por aí? Parece ter tanta gente aspirando a ser escritor quanto candidatos a esta vida sem surpresas, sem riscos e bem remunerada dos funcionários públicos. Vamos um dia juntar a montaha de livros das melhores bibliotecas do mundo e veremos: estão quase todos mortos. Alguns tiveram seu breve momento de brilho e servem só para a História. Outros tantos foram natimortos, porque não traziam nada de importante, novo, verdadeiro ou mesmo belo. Custou o esforço de vidas inteiras, vidas inteiras que, ao menos no aspecto literário foram um verdadeiro desperdício. Hoje podemos deitar ao lixo quase toda a obra de Karx Marx, mas ainda demorará séculos para que o stablishment aceite este salutar descarte. E ainda assim merece sobreviver como exemplo de que a que ponto pode um intelecto tão poderoso, de uma paixão avassaladora, construir um tenebroso castelo irreal, alicerçado em areia movediça. Pobre Estêvam Trofimovich Verkovenski, tinha-se na conta de grande intelectual russo. Olhando-se nos espelhos era um injustiçado, coitado, um incompreendido. Sempre cheio de projetos irrealizado, para os quais não tinha o menor talento. Sua grande contribuição à humanidade foi gerar o Verkovenski Júnior, esse sim um terrorista de talento e produtivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Universidade tive às dezenas - e eram a maioria mesmo - professores cheios de projetos, alardeando fazer grandes coisas para o progresso da nação e da ciência. Andavam de um lado para o outro sempre estressados com seus planos, davam ordens aqui e ali, criavam inúmeros projetos de pesquisa em iniciação cietífica, enchiam seus currículos de artigos acadêmicos que não diziam nada de novo, que choviam no molhado o tempo todo, que repercutiam as teses mais batidas (em verdade coleções de slogans tradicionais da academia). Tinha a professora do Projeto Informius, um site destinado a fazer conhecer aos nossos concidadãos os seus Direitos mais comezinhos. Entrava-se no referido sítio e... nada informius! Mas alardeava, prometia mundos e fundos. E quanto mais cheios de títulos e pompas, mais vazio produtivo. Sem contar infinidade de Conselheiros Acácios, de plagiadores e de neandertais de mentalidade do século XIX ou da década de 1960. Havia ainda quem lecionava mais-valia, como se não existisse Bohm Bawerk. E lá a psicanálise não havia morrido. Estava em pleno vigor. Era para eles tão última novidade quanto para mim aos 16 anos. Bastaria que lessem aquele artiguinho do Merquior, esse grande crítico cultural, para poderem deitar ao lixo um Recanto das Cigarras inteiro de teses sociológicas, psicológicas e pedagógicas. Havia a professora que ia ensinar sobre marxismo e começava exibindo fotos do Sebastião Salgado junto com uma música do Titãs na aula de Introdução à Filosofia (“Comida é pasto, bebida é água...”) e ouvindo de alguém que a mulher era comprovadamente, até pela ciência (para se ver que a ciência nem o óbvio, tactil e visível deixa de investigar para não deixar dúvidas), retrucava: "Ah mas a ciência não é neutra..."&lt;br /&gt;Não será fácil a arte de navegar na montanha de lixo, na montanha de obras mortas de gente que teve lá boas intenções, mas que no fim não fez nada de visceral, de imprescindível. Onde estão as obras sem as quais podemos morrer? Estas são as que devem vir em primeiro plano. É claro que há as obras menores, de interesse restrito e mesmo temporário, circunstancial ou meramente profissional. Estas irão morrer inelutavelmente, mas terão cumprido o seu papel. O clássico é o que não morre, embora fique tão distantate de nós com o passar dos milênios e dos séculos, de modo que haja Oto Maria Carpeaux, para restaurar o brilho que a fuligem do tempo recobriu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7595216151417740314-9080443945104900645?l=vislumbreselampejos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/feeds/9080443945104900645/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7595216151417740314&amp;postID=9080443945104900645' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/9080443945104900645'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7595216151417740314/posts/default/9080443945104900645'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vislumbreselampejos.blogspot.com/2007/07/na-torre-de-babel-bibliotecria-que.html' title=''/><author><name>V.</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04566888360986318895</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_0jZw85SqqHw/RpMKhehTrLI/AAAAAAAAAAU/VH5_MHerJ5I/s72-c/biblioteca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
