segunda-feira, 30 de julho de 2007

NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA III - O Marginal Renascimento da Cultura Nacional na segunda metade da década de 1990.

Paulo Francis afirmava, no fim de sua vida, estar tecnicamente morto, em virtude do marasmo cultural que dominava o mundo, e principalmente o Brasil, no final da década de 1990, quando nada de novo e interessante surgia. Na Academia tudo havia se resumido a marxismo, freudismo, Escola de Frankfurt, Foucault, Heiddeger, Nietzshe, diletanismos esteticistas e a fragmentação da Pesquisa Científica em assuntos sem a menor importância – o lixo da Torre de Babel Bibliotecária. E tudo não passava de variações do mesmo tema. Ainda hoje é assim. Na mídia, os articulistas quando não se limitavam a regurgitar para o público as idéias daqueles autores mencionados acima, aplicando-as a casos concretos, pediam-se em assuntos sem maior importância, crônicas do cotidiano, cheios de um certo tédio e desilusão.

O resultado disto é que aqueles que iniciavam a sua educação através do que era veiculado pela Academia e pela Mídia dominantes só encontravam tédio, chatice e complicações que mais tarde percebi que eram mero vácuo intelectual encoberto por um pedante academiquês – pura mistificação, obscuridades para disfarçar o vácuo de idéias. Como você não entendia nada, sentia-se burro ante a falsa profundidade dos intelectuais, era burro demais para entender aqueles altos ensinamentos. Por outro lado eu experimentava uma terrível sensação de vazio, talvez o ennui pascaliano. Cheguei a construir, a partir daquela educação fragmentária, uma cosmovisão sombria, onde o mundo e a vida não pareciam fazer sentido algum no final das contas. Só havia uma saída: a militância revolucionária, no sentido político e cultural. Mas mesmo ela não podia preencher o vazio, porque, afinal, quando a sociedade comunista, o Paraíso da Era de Aquários, a Sociedade Alternativa, o paraíso social-democrata, o paraíso do sexo livre ou qualquer outra utopia viessem, eu iria me perguntar: então é só isso? Acabou o sentido, vamos fazer o que daqui para frente, já que atingimos a perfeição? Atingimos o sentido da vida, mas era só isso?

Durante os últimos cinqüenta anos é claro que não deixou de haver produção intelectual original, séria e relevante: havia Bruno Tolentino na poesia, Miguel Reale na Filosfia Jurídica e Política, a boa defesa tradicionalista de Gustavo Corção, a crítica cultural de José Guilherme Merquior, a obra política séria de José Osvaldo de Meira Penna, Vamireh Chacon e Simon Swartzmann, as análises econômicas irrefutáveis de Roberto Campos e Eugênio Gudin, além dos velhos grandes que ainda estavam na ativa, sem contar o próprio Paulo Francis. Mas chegam os anos noventa e os que não havia morrido não tinham mais voz. Foram substituídos pelos mais medíocres que agora dispunham dos cinco mil auto-falantes: Marilena Chauí, Leandro Konder, João Ubaldo Ribeiro, Boaventura de Sousa Santos, Luiz Fernando Veríssimo, Emir Sader, Antônio Cândido, Frei Betto, Leonardo Boff, Zuenir Ventura, e congêneres. E foram eles que acabaram por me “educar” nos meus primeiros anos, pervertendo boa parte de minha educação e me enchendo de tédio e quase-desespero, que só era aliviado pelo orgulho intelectual de saber aquelas idéias chatas e sombrias (também não sei porque eu esquentava a cabeça com estas coisas em vez de ir procurar namoradas, passar no vestibular, graduar, arrumar emprego, comprar um carro...)

Mas Paulo Francis morreu em 1997 quando se iniciava no país o que eu chamaria de um renascimento da cultura nacional, relativamente marginalizado. Ele morreu no meio dela, sem ter tido tempo de conhecê-la.

Em 1994 e 1995 surge o que para mim é o pensador mais original, instigante e erudito de seu tempo: Olavo de Carvalho. Emergindo do silêncio de trinta anos de pesadíssimos estudos, ele entrava na arena dos debates políticos e culturais do país para assombrar e chocar. Gerou revolta, pois como este caipira de Campinas podia ter a ousadia, o desplante de chamar Sartre de palhaço verboso, Marx de charlatão, dizer que Newton implantou o germe da burrice no Ocidente (algo mais ou menos assim), desprezar Voltair, Rousseau, jogar parte da obra de Kant, Descartes e Hegel na lata de lixo e falar da raridade das autêntica filosofias no Ocidente que se resumiria praticamente a Sócrates-Platão-Aristóteles, Thomas de Aquino, Leibnitz, Shelling, Husserl, Zubiri, Voegelin, além de dizer que o Princípio da Indeterminabilidade de Heisenberg já estava prefigurado na Física de Aristóteles? Quem era ele para isso, eu mesmo me perguntava quando comecei a lê-lo? Era a nossa covardia intelectual e o apego aos ídolos canônicos que nos indignava. Aos poucos Olavo ganha espaço na Grande Mídia, sendo marginalizado posteriormente, de novo, na metade dos anos 2000. Ele trazia uma profusão de autores espantosos jamais conhecidos por estas plagas, já esquecidos, postos em segundo plano, ou conhecidos em círculos muito restritos: dentre os brasileiros: Mário Ferreira dos Santos, Mário Vieira de Mello, Otto Maria Carpeaux (quase toda a sua vida foi vivida no Brasil e quase toda a obra escrita aqui, por isso o coloco entre os brasileitos), Gustavo Corção e muitos outros. Dentre os estrangeiros principalmente: Eric Voegelin, Bernard Lonergan, Xavier Zubiri, Raymond Aron, Ludwig von Mises, Mortimer Adler, Eugen Rosentock Huessi, Arthur Koestler, Bernanos, Russel Kirk, e uma infinidade desconcertante de outros autores. Todos eles seus declarados mentores intelectuais. Não que estes nomes fossem completamente omitidos, mas quando eram mencionados não se aquilatava o verdadeiro valor de suas obras, não se revelava o verdadeiro papel que representavam na cultura ocidental e não se comparava a sua obra com a dos autores canônicos de nosso establishment cultural. Quando o faziam diminuíam o valor daqueles em relação a estes. Lembro-me de um artigo de José Guilherme Merquior sobre o pensamento conservador e liberal que, após analisar sumariamente as contribuições de Voegelin, Hanna Arrendt, Oakeshott, Leo Strauss, e Von Mises (pelo menos ele os conhecia), descarta a todos, qualificando-os de antiquados, e fica só com Raymond Aron.

À primeira vista, me parece que a pretensão de Olavo de colocar os seus mestres acima destes que chamo de autores canônicos de nosso establishment era fruto de uma escolha premeditada para justificar os seus próprios valores, para justificar o seu conservadorismo cultural, o seu liberalismo em economia e as suas crenças religiosas. Pois a obra de todos aqueles autores acaba por justifica-los. Mas, sinceramente, sem ter refeito todo o árduo iter de aprendizado de Olavo de Carvalho, sei que ele iniciou a sua educação com os canônicos e só aos poucos foi conhecendo aqueles que viriam a ser as suas maiores referências intelectuais. E, pelo fato de sua honestidade intelectual já ter sido suficientemente provada, creio que a sua escolha partiu de uma comparação objetiva entre as idéias de uns e outros autores.

Olavo pode se equivocar em suas avaliações, pode exagerar, seu estilo é, de fato, um tanto hiperbólico, mas com ele o marasmo intelectual que matou tecnicamente Francis vem se dissipando. Trouxe novos ares, injetou novas discussões, novas e esquecidas teses, perspectivas diferentes para a análise do fato político e cultural, reabilitou a astrologia, reabilitou a os estudos religiosos, fulminou o marxismo e o gramscismo para quem ainda não o tinha fulminado com outros autores. E, com Victor Frankl, trouxe de volta o sentido da vida para mim e para muitos que conheceram o psiquiatra vienense através dele.

Mas a Academia e a Mídia se cercaram bem para evitar a ameaça do Renascimento da Cultura Nacional trazida pelo Sr. Carvalho. Mas não puderam, nem podem vedar a internet. Seus textos são todos publicados na internet, seus livros têm obtido ampla divulgação e seu mais recente empreendimeno, um programa de rádio pela rede de computadores tem alcançado um grande sucesso. A reboque, vêm um multidão de sites e blogs mais ou menos influenciados por eles. Alguns são mesmo meros retransmissores e aplicadores de suas idéias. Nada mais normal, isto sempre aconteceu com os gigantes de uma cultura.

Essa renascimento, obviamente, não passou nem vai passar na televisão, mas “passa” na internet. Além de Olavo de Carvalho, creio que outro acontecimento cultural renovador, mas marginalizado, teria sido um pasquim eletrônico, bem mais inteligente, profundo e sério do que aquele da década de 1970, surgido pela iniciativa de três jovens universitários da PUC-RJ em 1997, gente que contava com, pasmem, 17, 18 anos na época: “O Indivíduo”. Os autores eram Pedro Sette Câmara, Álvaro Veloso de Carvalho, Sérgio di Biasi, Marcelo Tostes e Alceu Garcia. Posteriormente apareceram outros contribuidores como o genial Martim Vasques da Cunha. Para mim, o trio Pedro, Álvaro e Martim contituía o que havia de melhor no site. O pasquim nasceu de um jornal impresso lançado pelos autores na PUC do Rio. Trazia idéias heterodoxas demais para os alunos e professores da PUC. Foram massacrados, chegaram a receber agressão física. O reitor não os apoiou. Foram acusados de racismo e o caso foi parar até no Jornal Nacional. Olavo de Carvalho, Carlos Heitor Cony e até Miguel Reale acorreram em defesa daquele atentado à liberdade de expressão.

Por fim, abandonaram o impresso e refugiaram-se na internet. Tratava-se de gente nova, mas que já atingia um nível cultural bastante superior ao de muitos dos articulistas da mídia tradicional. Trouxeram como Carvalho uma vasta coleção de novidades de autores, perspectivas e idéias. Todas as semanas postavam uma quantidade enorme de artigos publicados na mídia conservadora e liberal estrangeira, principalmente norte-americana em veículos como o Lew Rockwell, The Spectator, Mises Institute, Anti War, New Criterion, e muitos outros. Trouxeram as idéias anarco-liberais de Rothbard e Hermann Hoppe para o Brasil, ressalvando que não concordavam em tudo com estes autores. A tônica do site era conservadorismo religioso e cultural, liberalismo econômico e político (mais radical que o de Olavo de Carvalho) e defesa do catolicismo, embora também existisse um ateu no grupo. Promoviam uma interessante crítica cultural, examinando os filmes, romances e livros em geral da hora. Entendem que a boa obra de arte tem de ter responsabilidade ética e finalidade pedagógica. E este é um dos critérios com que separavam as boas das más. Alunos de Olavo de Carvalho, havia neles um eco das idéias do autor, mas tinham independência. Tinham outras influências. Acusados no início de olavetes aos poucos foram se afastando do autor de “O Jardim das Aflições” em muitos pontos. Por ocasião da Guerra do Iraque, Álvaro Veloso adotava uma posição diametralmente oposta a de Olavo de Carvalho, certamente por influencia pelos anarco-liberais americanos, como Justin Raimond e Lew Rockwell. Pedro diz divergir em 100% do que Olavo de Carvalho pensa sobre religião, não acreditando na idéia de “unidade transcendente das religiões” que Olavo propagou. Se não me engano, Pedro também rejeita completamente o Islamismo, como acha que todo católico deva fazer - sem imposição de conversões pela força, é claro (http://www.oindividuo.com/?s=Islamismo), enquanto Olavo, que já foi até premiado num país muçulmano por um estudo sobre Maomé, vê virtudes naquela Religião.

Em 2003, o site foi entrando em recesso. As atualizações escasseavam. Os autores pareciam estar desanimados ou se dedicando a outras atividades que consideravam mais importantes. Mas em 2004, retornaram no formato de blog, praticamente só Pedro postando. Martim Vasques da Cunha desapareceu completamente. Álvaro fez aparições esporádicas em 2006, com textos providenciais sobre o pleito daquele ano. Pedro atualmente cuida mais de literatura, com o seu “domingo com poesia”, em que faz a análise minuciosa, formal e de conteúdo, de grandes poemas da língua portuguesa. Melhor aprendizado sobre literatura você não vai encontrar em nenhum colégio, e nem mesmo na Universidade. Volta e meia dá seu pitaco sobre os assuntos em voga, políticos e religiosos. È um ótimo expositor da verdadeira doutrina cristã, desfazendo os erros difundidos na mídia sobre ela.

Por fim, queria falar do Sr. Marim Vasques da Cunha. Recentemente descobri que ele continuava escrevendo em um blog desde 2004, o “Aurora Borealis” (http://composeindarkness.blogspot.com/). É o mais prolixo de todos, e, às vezes, obscuro. Mas é uma crítico cultural de primeira, analisando romances, filmes e mesmo as produções da cultura pop (é especialista em Bob Dilan) com uma perspectiva totalmente original. Estudioso do simbolismo tradicional, aplica esta ciência na análise das obras de arte. Nunca pensei que pudesse haver tanta profundidade numa letra de Bob Dilan, digo sem ironia alguma ( veja por exemplo seu ensaio “A Verdadeira Canção Pacifista: http://www.oindividuo.com/convidado/martim.htm).Tenho extraído verdadeiras lições de vida destes textos essenciais de Martim. Como dizia mesmo aquele verso do Bob Dilan em Idiot Wind? Ele perdeu todas as batalhas, mas ganhou a guerra, algo mais ou menos assim. Genial isto. Coaduna-se com a idéia filosófica de Martim de que o importante na vida é batalhar, seguir em frente honestamente, ainda que só alcancemos fracasso neste mundo, pois a verdadeira batalha se trava na alma humana. Ainda que experimentemos só fracasso nesta vida, tendo lutado por retos ideais, sairemos vitoriosos. Mas o reconhecimento da vitória não se dará neste mundo.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA II – O PROBLEMA DO ESTETICISMO

A leitura de “Desenvolvimento e Cultura” do filósofo Mário Viera de Mello nos desperta para o sério problema do esteticismo. Na versão do filósofo e diplomata carioca, amigo de juventude de Vinícius de Morais que na maturidade, parece-me, entregou-se a um rígido moralismo enquanto o outro descambava para algo um pouco mais baixo que o esteticismo – o hedonismo – o esteticismo nasce no Ocidente da autonomização do princípio estético, fenômeno iniciado segundo ele na Renascença. Que significa esta autonomização? Correndo o risco de simplificar demasiadamente o raciocínio de Vieira de Melo, o esteticismo na arte e mesmo nas ciências e na Filosofia significa construir obras que buscam o belo pelo belo, e não mais o belo por ter uma função moral, pedagógica, espiritual ou política. O que interessa é a beleza da obra ou da teoria e não mais a sua relevância ética ou a sua fidelidade à verdade. Escreve-se um poema, um romance buscando apenas que ele seja belo, que desperte a sensibilidade estética, e não que tenha uma relevância ética, moral ou pedagógica. Aprecia-se na teoria apenas o seu aspecto externo, formal e não as suas qualidades intrínsecas e o seu valor moral.

O esteticista, ao defender uma tese, uma teoria, ainda que tenha conteúdo ético, que traga uma “lição de moral”, o faz apenas por apreciar o seu aspecto externo, a forma. Por isso não assume responsabilidades por ela, por isso ela não lhe é vital, por isso não a defenderá ardorosamente, podendo até mesmo descrer dela. No intelectual esteticista, segundo Vieira de Mello, a idéia não se integra “na totalidade de sua natureza”, apenas “fica repousando na superfície de sua inteligência”. O conhecimento, as teorias, as idéias do esteticista não lhe são vitais, ele não perde o sono pensando nelas, apenas elas lhe causam prazer, um prazer ligado à vaidade do conhecimento ou à vontade de prestígio social, derivada da vontade de potência. Ele defende idéias da boca para fora, não do fundo do coração. Ele jamais se comprometeria seriamente por suas idéias, jamais morreria por elas. Ele é o tipo daquele professor risonho falando da inexistência de sentido do vida com um sorriso nos lábios, defendendo as mais sombrias idéias de Foucault, Heiddeger e congêneres sorrindo e se deliciando com a doce desgraça do mundo.

O esteticismo é para Mário Vieira de Mello dominante em nossa cultura. Teria penetrado aqui com o Romantismo. Um exemplo polêmico dado por ele é o de Machado de Assis: para ele, o Bruxo do Velho Cosme, que toma ares de intelectual superior, irônico, amargo e cético em suas obras, era completamente diferente em sua vida pessoal. Para Vieira de Melo, Machado é um homem medíocre, sem muita experiência de vida, embora com muita experiência de cultura, cheio de preconceitos que procurava ocultar o seu passado pobre a todo custo, a ponto de renegar a madrasta que dele cuidara com tanto zelo durante a infância:

“Para que pudéssemos levar a sério o ceticismo, a ironia de Machado de Assis, seria preciso, em primeiro lugar, que ele soubesse aplica-los a si próprio; ficaríamos então convencidos de que se tratava nele de uma tendência irresistível. Mas Machado, ao contrário, se levava terrivelmente a sério. O homem que nos seus romances parece pairar acima das contingências terrestres é o mesmo que se sente pouco à vontade se um amigo de infância vai visita-lo na repartição e na presença de companheiros de trabalho o trata familiarmente por Machadinho (...) O escritor cuja personalidade literária parecia repousar sobre a experiência de uma desilusão da vida e dos homens era um ser que não podia se queixar do próprio destino, pois tudo a que havia aspirado lhe fora concedido numa medida amplamente generosa.”

Enfim, em Machado o estilo não é o homem.

Lembro-me de uma professora de Português no Ensino Mérdio que ilustra bem o caso. Mandou-nos ler “O Que é Ideologia” de Marilena Chauí e depois expôs, explicou e não criticou as idéias expostas no livro, sinal de que as acatava. O livro é uma porcaria que expõe a teoria marxista de ideologia, segundo a qual a Ciência, a Arte, a Filosofia e a Religião não são mais que epifenômenos da estrutura econômica da sociedade, cumprindo a função de vaselina com que a classe dominante curra a classe dominada. Não há, portanto, como acreditar nas teses deste livro e não ser ou passar a ser ateu, porque delas se extrai que a religião é só o ópio do povo: ilusão criada para manter os alienados em um dócil servilismo. Mas acontece que a professora era cristã fervorosa e devota praticante do Catolicismo. Não creio que uma mulher relativamente inteligente como ela não pudesse perceber este óbvio ululante de contradição. Para mim, ela só se divertia com a teoria, chutando a contradição para o inconsciente. Ela não a levava a sério, não permitia que ela se incorporasse à sua existência de forma a assumir as conseqüências que ela traz. Ou então era burrinha mesmo.

Mas, enfim, que mal faz o esteticismo? Não é só um divertimento para diletantes? Obviamente, não. O problema, de acordo com Vieira de Melo, está na dissociação entre o “Princípio Ético” e o “Princípio Estético”. Pode-se achar bela e deleitosa a dor, a crueldade, a morte. O esteticista lê um livro de História passando os olhos por estatísticas sangrentas, sobre relatos de genocídios, torturas, guerras e epidemias devastadoras e não sofre com isso, apenas acha interessante e até belo. O personagem Alex Delarge de ”Laranja Mecânica” se delicia com Beethoven e com a tortura de inocentes. Pratica estupro cantanto “Singing in The Rain”. Aquilo tudo é a sua obra de arte. Por fim, ele mata uma artista com uma obra de arte dela, um pênis gigante, de porcelana ao que me parece. O exemplo mais óbvio de esteticista cruel é o Marquês de Sade.

O Brasil é essencialmente esteticista. Era ao tempo de Mário Vieira de Melo e é ainda mais atualmente. A cada tragédia um especialista afetando seriedade e preocupação aparece para se deliciar com suas teorias preconcebidas para explicar o evento. Percebe-se o ranço esteticista em Luís Fernando Veríssimo, Marilena Chauí, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho, Antônio Cândido, Fernando Henrique Cardoso e em quase todo componente da elite intelectual mais influente no Brasil.

O livro de Vieira de Mello é fantástico, de uma leitura agradabilíssima. Pode servir mesmo como deleite para esteticistas e diletantes vagabundos. Mas é cheio de teses polêmicas e discutíveis. E ainda há aquele problema filosófico: pode o Belo ser dissociado do Bem? O Bem, o Belo e a Verdade não são sempre inseparáveis? Uma coisa é certa: o lixo esteticista é uma das primeiras seções a serem descartadas da Torre de Babel Bibliotecária.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

ALGUMAS LIÇÕES DE BUNO TOLENTINO


UMA TARDIA HOMENAGEM AO POETA MORTO RECENTEMENTE

Sempre fui um bruto para apreciar poesia. Lia só por uma espécie de obrigação, como quando era obrigado a fazer exercícios de física ondulatória no colégio. Só o mais óbvio do Pessoa, do Drummond ou do Bandeira conseguia causar algum prazer estético nos meus rudes sentidos e intelecto. Foram três poemas do recém falecido Bruno Tolentino, porém, que me causaram, pela primeira vez, comoção diante da arte poética: o primeiro sobre a morte de Merquior (A Indesejada ), mas principalmente O Divino Assassino e A Um Cisne na Agonia (ambos de seu O Mundo como Idéia). Vasculhem na internet e poderão encontrá-los. Comoção mesmo, de chorar, pelo menos diante do terceiro – vá lá também eu não estava muito sóbrio no momento – em sentido etílico.

Olavo de Carvalho lamenta que o poeta tenha morrido sem ter representado o papel de educador literário do Brasil (http://www.olavodecarvalho.org/semana/070704dce.html). Mas esta educação pode ser buscada nos seus escritos em prosa, principalmente em “Os Sapos de Ontem” e nas suas entrevistas que circulam pela internet, pelo menos para quem, como eu, não cresceu o bastante para retirar da própria poesia de Bruno ou dos densos ensaios de O Mundo Como Idéia a sua doutrina da arte do poética.

Ouso aqui então traduzir para Conselheiros Acácios como eu, algumas teses de Tolentino sobre a boa poesia, sobre a boa arte literária e sobre a História literária recente no Brasil. Valho-me apenas do seu prólogo a Os Sapos de Ontem, já rico demais em teses e concepções sobre a arte literária.

Segundo Tolentino, entre as décadas de 1930 e 1950 “a poesia no Brasil atingia enfim a um patamar de universalidade que todas as civilizações em todas as eras chamaram de clássico.” Superado o primeiro Modernismo, que Tolentino execrava tanto quanto o Concretismo, “Bandeira, Drummond, Cecília, Jorge, Murilo e Cabral elevavam nossa lira a cimos que até então desconhecia”, equiparando a poesia brasileira à melhor produção poética feita no exterior e introduzindo o Brasil no grande diálogo universal da grande arte. Sobre Drummond, por exemplo, escreve o poeta:

Com Claro Enigma (1951) adjacências, o nervo da interrogação metafísica nos trópicos abria amplos e profundos espaços para uma verdadeira perquirição do ser, finalmente possível com a superação da obsessão telúrica e a conquista de um idioma próprio, a um tempo denso e abrangente, capaz de encasular a reflexão do universal em suas infinitas possibilidades.”

É caríssima a Tolentino idéia de que a “linguagem” poética não pode se afastar da “língua” corrente. Ela não pode fechar-se em si mesma, tornar-se artificial, um mero jogo de palavras, que nada tem a ver “com língua como de fato se fala.” Em sua última entrevista à televisão, o poeta repete exatamente isto (http://br.youtube.com/results?search_query=Bruno+Tolentino+sempre+um+papo&search=Pesquisar. Quando a linguagem poética corre o risco deste afastamento, urge o advento de uma revolução que faça com que a poesia, sem cair na banalidade volte a falar “a língua como se fala”, a língua com que os homens de seu tempo se comunicam, sem perder, porém, a sua musicalidade, eis que ela é “a música feita com as idéias.” Ou seja, sem deixar de ser uma comunicação de idéias através de um labor artístico, através de ritmo, métrica, rima, harmonia, proporção, etc.

O Brasil corria este risco às vésperas do Modernismo (creio que Bruno Tolentino tinha mente o Parnasianismo, sobretudo). A tarefa do Modernismo brasileiro era exatamente a de implementar esta revolução, tal como Wordsworth, Coleridge, Pound e Eliot teriam feito noutras paragens. Só que os primeiros a assumiram a tarefa de empreender esta revolução, com a exceção de Manuel Bandeira, falharam. Mário de Andrade acabara por “estrofisar um coloquialismo inexistente” e o outro Andrade “sucumbira às piadinhas de minimalismo mental de circunstância.” Mário não conseguiu fazer com que sua poesia falasse a língua como de fato se fala, criou outra, artificial, e Osvald era raso demais para ser levado a sério.

Mas a tarefa da revolução de que falava acima fora cumprida a contento por Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Murilo Mendes e, mais tarde, por Ferreira Gullar, Adélia Prado, dentre outros. Cumprida a tarefa de “restituir a linguagem à fala natural da tribo, revigorando as formas e os ritmos próprios à musicalidade inerente à língua, sem prejuízo de seu comércio com o sensível, o imediato, o real”, a poesia brasileira podia alçar vôos mais altos.

Mas retornemos agora à década de 1940, precisamente à chamada geração de 1945 quando a poesia brasileira, uma vez realizada a benfazeja renovação modernista, atingia o seu apogeu. É justamente quando um grupo de jovens propõem reinventar a roda: os irmãos Campos, Décio Pignatari e mesmo Mário Faustino. Querem fazer uma revolução. Mas a revolução que propõem não é a de restituir a linguagem poética `a fala natural da tribo, mas de criar uma linguagem artificial, situada a um oceano de distância da fala como se fala, uma linguagem de laboratório que não tem nada a dizer e que tem seu objetivo em si mesma.

O que representam estes revolucionários intempestivos em nossa cultura? Eles não fazem senão o “jogo de antiqüíssimas aflições adolescentes.” Repetem a História como farsa. Sua arte não passa de “ludismo”, sintoma, segundo Tolentino, de uma Civilização em crise. Logo no início do prólogo, Tolentino afirma que sempre que os “projetos civilizatórios” entram em decadência, surge “uma pletora de exoterismos próprios a entreter uma ilusão de liberdade enquanto não chegam os bárbaros.” As principais características são “a vacuidade existencial” e “idolatria esteticista.” A linguagem se torna um fetiche. Não é mais um instrumento de comunicação, mas tem um valor em si mesma. É puro brinquedo, mas é também um totem, um amuleto. É como aquela história de uma tribo completamente isolada da civilização que passa a idolatrar um avião que ali fora cair, sem ter a menor idéia do significado daquilo, de que é um instrumento para fazer o homem voar.

O concretismo e similares nos são assim apresentados por Tolentino não como arte, mas como sintoma de uma civilização em crise. Se este tipo de “arte” permanecesse marginalizado, sem ser levado a sério, não seria sintoma, mas como foi promovido a establishment cultural, sendo equiparado à grande produção dos Drummonds, Murilos e Tolentinos, sendo motivo de sérias teses acadêmicas, sendo estudado em todos os colégios de ensino mérdio, “caindo” em todos os vestibulares, é porque Bruno acerta no seu diagnóstico. Virou motivo de imitação até mesmo da baixa arte, a dos intelectuais de miolo mole, daí o “açaí guardiã” contra o qual Pedro Sette Câmara tanto impreca, daí também o Arnaldo Antunes, os Tribalistas. Tudo não passa de jogo, brinquedo que às vezes tem graça, às vezes é extremamente enfadonho.

Desnecessário comparar estes revolucionários literatos de 1945 aos revolucionários políticos. Desnecessário lembrar aqui a 13ª. Tese de Marx sobre Feuerbach (já vejo que serei rotulado de olavete) e perceber o óbvio: que estes concretistas e similares não fazem mais do que querer transformar a arte antes mesmo de compreendê-la. Adolescentes aflitos, não conseguiam sufocar um pouco a sua libido dominandi, ser um pouquinho humildes e representarem o papel de “talentos medianos”. Estes talentos medianos que tem um papel menor mas não desprovido de importância a representar numa cultura:

Com efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho. Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola, quem à proa e quem à popa - e ao leme, aos cordames, aos remos. A invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é condição indispensável ao
bom destino da empresa, da aventura
.”

Enfim, por orgulho os literatos revolucionários rejeitaram figurar como atores menores e assumiram o papel de nulidades absolutas.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

NA TORRE DE BABEL BIBLIOTECÁRIA - O QUE FAZER?

Para que tanto livro? Para que tanto blog circulando por aí? Parece ter tanta gente aspirando a ser escritor quanto candidatos a esta vida sem surpresas, sem riscos e bem remunerada dos funcionários públicos. Vamos um dia juntar a montaha de livros das melhores bibliotecas do mundo e veremos: estão quase todos mortos. Alguns tiveram seu breve momento de brilho e servem só para a História. Outros tantos foram natimortos, porque não traziam nada de importante, novo, verdadeiro ou mesmo belo. Custou o esforço de vidas inteiras, vidas inteiras que, ao menos no aspecto literário foram um verdadeiro desperdício. Hoje podemos deitar ao lixo quase toda a obra de Karx Marx, mas ainda demorará séculos para que o stablishment aceite este salutar descarte. E ainda assim merece sobreviver como exemplo de que a que ponto pode um intelecto tão poderoso, de uma paixão avassaladora, construir um tenebroso castelo irreal, alicerçado em areia movediça. Pobre Estêvam Trofimovich Verkovenski, tinha-se na conta de grande intelectual russo. Olhando-se nos espelhos era um injustiçado, coitado, um incompreendido. Sempre cheio de projetos irrealizado, para os quais não tinha o menor talento. Sua grande contribuição à humanidade foi gerar o Verkovenski Júnior, esse sim um terrorista de talento e produtivo.

Na Universidade tive às dezenas - e eram a maioria mesmo - professores cheios de projetos, alardeando fazer grandes coisas para o progresso da nação e da ciência. Andavam de um lado para o outro sempre estressados com seus planos, davam ordens aqui e ali, criavam inúmeros projetos de pesquisa em iniciação cietífica, enchiam seus currículos de artigos acadêmicos que não diziam nada de novo, que choviam no molhado o tempo todo, que repercutiam as teses mais batidas (em verdade coleções de slogans tradicionais da academia). Tinha a professora do Projeto Informius, um site destinado a fazer conhecer aos nossos concidadãos os seus Direitos mais comezinhos. Entrava-se no referido sítio e... nada informius! Mas alardeava, prometia mundos e fundos. E quanto mais cheios de títulos e pompas, mais vazio produtivo. Sem contar infinidade de Conselheiros Acácios, de plagiadores e de neandertais de mentalidade do século XIX ou da década de 1960. Havia ainda quem lecionava mais-valia, como se não existisse Bohm Bawerk. E lá a psicanálise não havia morrido. Estava em pleno vigor. Era para eles tão última novidade quanto para mim aos 16 anos. Bastaria que lessem aquele artiguinho do Merquior, esse grande crítico cultural, para poderem deitar ao lixo um Recanto das Cigarras inteiro de teses sociológicas, psicológicas e pedagógicas. Havia a professora que ia ensinar sobre marxismo e começava exibindo fotos do Sebastião Salgado junto com uma música do Titãs na aula de Introdução à Filosofia (“Comida é pasto, bebida é água...”) e ouvindo de alguém que a mulher era comprovadamente, até pela ciência (para se ver que a ciência nem o óbvio, tactil e visível deixa de investigar para não deixar dúvidas), retrucava: "Ah mas a ciência não é neutra..."
Não será fácil a arte de navegar na montanha de lixo, na montanha de obras mortas de gente que teve lá boas intenções, mas que no fim não fez nada de visceral, de imprescindível. Onde estão as obras sem as quais podemos morrer? Estas são as que devem vir em primeiro plano. É claro que há as obras menores, de interesse restrito e mesmo temporário, circunstancial ou meramente profissional. Estas irão morrer inelutavelmente, mas terão cumprido o seu papel. O clássico é o que não morre, embora fique tão distantate de nós com o passar dos milênios e dos séculos, de modo que haja Oto Maria Carpeaux, para restaurar o brilho que a fuligem do tempo recobriu.

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